O Contrato Nupcial III
O Contrato Nupcial III
por Beatriz Mendes
O Contrato Nupcial III Autor: Beatriz Mendes
Capítulo 1 — O Eco do Passado em Nova York
O vento gélido de Nova York chicoteava os cabelos escuros de Isabella, que se agarravam com força à gola do seu casaco de lã, um gesto quase inconsciente de quem tenta se proteger não só do frio cortante, mas de algo mais profundo, uma ameaça invisível que pairava sobre ela desde que pousara naquele solo estrangeiro. Os arranha-céus imponentes, com seus reflexos metálicos de um céu cinzento e indiferente, pareciam observá-la com a mesma frieza que ela sentia na alma. Havia sete anos que Isabella não pisava na cidade que um dia chamou de lar, e a saudade, antes um doce lamento, agora era uma dor lancinante, um lembrete constante do que ela havia perdido.
Ela caminhava pelas ruas movimentadas de Manhattan, a multidão anônima passando por ela como um rio caudaloso, cada rosto uma história que ela não conhecia, cada passo um destino incerto. Isabella, no entanto, trazia consigo um fardo pesado demais para se misturar sem ser notada. Seu coração batia descompassado, um tambor frenético que ecoava o medo e a esperança que lutavam dentro dela. A carta, recebida há poucos dias na sua pacata vida no Rio de Janeiro, fora o estopim. Uma carta oficial, lacrada com um selo que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo: o da poderosa e implacável Sterling Enterprises. E o remetente, um nome que ela tentara esquecer, mas que a assombrava em sonhos e pesadelos: Arthur Sterling.
Arthur. A pronúncia desse nome em sua mente ainda era capaz de arrancar dela um suspiro involuntário. O homem que um dia foi o centro do seu universo, a paixão avassaladora que a consumiu e a fez acreditar em finais felizes. O homem que, de repente, desaparecera de sua vida, deixando para trás apenas um vazio imenso e uma cicatriz que o tempo teimava em não curar. Agora, sete anos depois, ele a convocava de volta. Para quê? A carta era evasiva, formal, cheia de termos jurídicos que falavam de "questões pendentes" e "necessidade de acordo". Mas Isabella sabia, no fundo de sua alma, que não era apenas uma questão pendente. Arthur Sterling nunca foi dado a formalidades sem motivo.
Ela parou em frente a um café aconchegante, o aroma de café recém-passado e pães doces escapando pela porta entreaberta, um convite tentador para o calor. Mas ela não podia se dar ao luxo de parar. Tinha uma reunião marcada, uma audiência com o homem que desmantelara seu coração. A Sterling Enterprises era um império, e Arthur Sterling, seu rei. Ela, por outro lado, era apenas uma artista em busca de um recomeço, uma mulher que tentava construir uma nova vida longe das sombras do passado.
Ao entrar no prédio imponente da Sterling Enterprises, a opulência e o poder que emanavam de cada centímetro quadrado a atingiram como uma onda. O mármore polido, o vidro reluzente, os quadros de arte contemporânea caríssimos nas paredes. Tudo falava de riqueza, de sucesso, de uma ambição sem limites. E no topo de tudo isso, Arthur Sterling.
Ela foi conduzida por corredores que pareciam se estender infinitamente, até chegar a uma porta maciça de madeira escura. O guarda-costas que a acompanhava abriu-a com um gesto formal. E lá estava ele. Arthur Sterling. Mais alto do que ela se lembrava, com uma presença ainda mais dominante. Seus cabelos escuros, antes desalinhados pela juventude e pela paixão, agora estavam impecavelmente penteados, emoldurando um rosto que mantinha a mesma beleza esculpida, mas que carregava as marcas do tempo e, talvez, de responsabilidades. Seus olhos azuis, profundos como o oceano, fixaram-se nela com uma intensidade que fez seu corpo inteiro tremer.
"Isabella", a voz dele, grave e rouca, ecoou na sala. Não havia surpresa, nem calor. Apenas uma frieza calculada que a atingiu como um golpe.
"Arthur", ela respondeu, sua voz embargada pela emoção que ela lutava para controlar.
Ele se levantou da sua poltrona de couro, um movimento fluido e poderoso. Caminhou até ela, parando a uma distância que mantinha a formalidade, mas que era perigosamente íntima. O cheiro amadeirado e cítrico do seu perfume, o mesmo que ela havia memorizado em noites inesquecíveis, ainda a envolvia, um fantasma do passado que a assombrava.
"Obrigado por vir", disse ele, sem um pingo de emoção genuína. "Sei que a viagem deve ter sido longa."
"Não foi mais longa do que a espera", ela rebateu, a amargura escapando em sua voz.
Um leve sorriso curvou seus lábios, um sorriso que não alcançou seus olhos. "Sempre direta, Isabella. Admiro isso em você."
Ele a convidou a sentar-se numa poltrona em frente à sua mesa imponente. A mesa de mogno, impecavelmente organizada, era um reflexo da sua mente: precisa, controlada, implacável. Isabella sentou-se, as mãos cruzadas no colo, tentando manter a compostura.
"Por que me chamou, Arthur?", ela perguntou, indo direto ao ponto. A formalidade da carta a incomodava.
Ele se serviu de um copo de uísque, o líquido âmbar reluzindo sob a luz fria do escritório. "Precisamos acertar as contas, Isabella. As contas do passado."
"Que contas?", ela indagou, o coração apertado. Ela sabia que ele se referia a algo mais do que apenas negócios.
"O contrato", ele disse, a palavra dita com um peso que fez o ar rarear.
O contrato. O "contrato nupcial" que eles haviam assinado com a inocência de dois jovens apaixonados, um acordo que prometia um futuro juntos, selado com beijos e juras de amor eterno. Um contrato que ele quebrara sem hesitação.
"Esse contrato já foi desfeito há muito tempo, Arthur", ela disse, sua voz firme, mas com um tremor que ele, certamente, notou.
"Não o que importa, Isabella. E estou aqui para propor um novo acordo. Um que vai nos beneficiar a ambos. E, desta vez, será definitivo."
Ele abriu uma gaveta e retirou um envelope grosso. Colocou-o sobre a mesa, deslizando-o em sua direção. Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia o que estava ali dentro.
"O que é isso?", ela perguntou, fingindo inocência.
"Uma proposta. Um acordo que vai resolver todas as nossas pendências. E, acredite em mim, é uma proposta que você não vai querer recusar."
O olhar dele era intenso, calculista. Isabella sentiu-se presa em seus olhos, como um pássaro em um galho de aranha. Ela sabia que Arthur Sterling não brincava em serviço. E ela sabia que, de alguma forma, ele tinha o poder de controlar o seu destino. Ela havia tentado fugir do passado, mas o passado, encarnado em Arthur, a encontrara. E agora, ela teria que enfrentá-lo, mais uma vez. A cidade de Nova York, com sua promessa de novos começos e seus ecos de velhos dramas, parecia sorrir para o destino que se desenrolava diante dela.