Cap. 2 / 21

Amor no Topo III

Capítulo 2 — O Chamado da Terra Natal Esquecida

por Fernanda Ribeiro

Capítulo 2 — O Chamado da Terra Natal Esquecida

O jatinho particular de Leonardo de Andrade cortava o céu noturno com a velocidade de um predador, uma silhueta escura contra a abóbada celeste. Lá embaixo, as luzes de São Paulo diminuíam, engolidas pela vastidão da escuridão. A cada quilômetro percorrido em direção ao interior de Minas Gerais, Leonardo sentia uma estranha mistura de repulsa e fascínio. Era como se a própria terra o estivesse puxando de volta, como um fio invisível que ele tentara romper com toda a força, mas que agora se apertava, irredutível.

A cabine do avião era o epítome do luxo discreto, um santuário de couro e metal polido que o isolava do mundo exterior. Mas naquela noite, o isolamento não trazia paz. A voz de Helena Viana, a cada palavra repetida em sua mente, era um fantasma que se recusava a ser silenciado. Perigo. Dívida. Urgente. As palavras eram chumbo derretido em sua alma.

Leonardo recostou-se no assento, fechando os olhos. Ele tentou afastar as memórias, as imagens vívidas de sua juventude: a poeira vermelha das estradas de terra, o cheiro de café fresco pela manhã, o toque suave das mãos de Helena em sua pele. Eles eram jovens, ingênuos, acreditavam que o amor era suficiente para superar qualquer obstáculo. Mas a ambição de Leonardo era um monstro que exigia mais do que o amor podia oferecer. Ele queria o mundo, e o mundo de sua cidade natal era pequeno demais para seus sonhos. Ele partiu, deixando para trás promessas sussurradas ao luar e um coração partido.

"Senhor Andrade?", a voz do copiloto soou suavemente, tirando-o de seus devaneios. "Estamos nos aproximando do aeroporto de Belo Horizonte. O tempo de voo restante é de aproximadamente vinte minutos."

Leonardo assentiu, sem abrir os olhos. "Avise-me quando estivermos em terra."

Ele sabia que não poderia simplesmente aparecer e exigir respostas. Helena Viana não era uma mulher que se curvaria facilmente. Ele precisava ser cauteloso, mas também decisivo. A urgência em sua voz sugeria que o tempo era um luxo que ele não possuía.

Ao pousar, a noite em Belo Horizonte era fria e úmida. O motorista particular, um homem discreto e eficiente, o aguardava com um carro de luxo preto. A viagem para o interior seria longa, mas Leonardo não se importava. Ele precisava de tempo para pensar, para formular um plano.

Enquanto o carro deslizava pela estrada escura, as paisagens rurais de Minas Gerais começavam a se desenrolar. As montanhas sombreadas e as poucas luzes distantes eram um contraste gritante com o brilho frenético de São Paulo. Era um mundo que ele conhecia intimamente, um mundo que ele havia abandonado, um mundo que agora parecia chamá-lo de volta.

Ele tentou lembrar-se dos detalhes sobre Helena. O que teria acontecido com ela? Teria ela seguido em frente? Tinha ela, como ele, encontrado o sucesso? Ou teria a vida a esmagado, como temia? A incerteza era um veneno lento.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo celular, que vibrou em seu bolso. Era Sofia.

"Leo? Chegou bem?" A voz dela era clara e preocupada.

"Sim, Sofia. Aterrissei em BH. Estou a caminho da minha antiga cidade."

"Você tem certeza de que é uma boa ideia ir sozinho, Leo? Sem um plano claro, sem saber exatamente o que esperar…"

"Eu preciso fazer isso sozinho, Sofia. É uma questão pessoal. Algo que eu preciso resolver de uma vez por todas." Ele respirou fundo. "Fique em São Paulo. Se eu precisar de algo, eu te ligo. Mas, por enquanto, mantenha tudo em sigilo."

"Compreendo. Mas prometa que você vai se cuidar, Leo. E que não vai se arriscar desnecessariamente."

"Eu prometo", ele mentiu. O risco já estava inerente à sua decisão.

A conversa terminou, e Leonardo voltou a olhar pela janela. As árvores altas e escuras pareciam guardiãs de segredos ancestrais. Ele se lembrava de uma pequena casa no alto de uma colina, onde ele e Helena passavam horas observando o pôr do sol, sonhando com um futuro que nunca se concretizou.

O carro finalmente parou em frente a uma casa modesta, mas bem cuidada, na periferia da pequena cidade. Era a casa de Helena. Uma única luz amarela brilhava na janela da sala, um convite sombrio. Leonardo saiu do carro, sentindo o ar fresco e úmido da madrugada em seu rosto. O cheiro de terra molhada e mato o envolveu, um aroma que ele não sentia há décadas, mas que estava profundamente gravado em sua memória.

Ele se aproximou da porta, o coração batendo forte no peito. Cada passo parecia ecoar os fantasmas de seu passado. Ele bateu. A porta se abriu lentamente, revelando uma figura esguia, envolta em um xale escuro. Era Helena.

O tempo havia deixado suas marcas nela, mas os olhos, ah, os olhos eram os mesmos: profundos, intensos, cheios de uma melancolia que ele conhecia bem. Havia rugas finas ao redor deles, mas a chama que um dia o consumiu ainda brilhava ali, agora tingida de desespero.

"Leonardo", ela disse, sua voz embargada, mas firme. Não havia surpresa em seu olhar, apenas um reconhecimento doloroso.

"Helena", ele respondeu, sua própria voz um sussurro rouco. Ele a observou, tentando decifrar o que aqueles anos haviam feito com ela. Ela parecia cansada, mas havia uma força contida nela, uma resiliência que o impressionava.

"Eu sabia que você viria", ela disse, dando um passo para o lado, abrindo a porta para ele. "Entre."

Leonardo hesitou por um momento. Aquele limiar representava um ponto de não retorno. Ele cruzou a porta, entrando na sala modesta e acolhedora. O cheiro de café e alecrim pairava no ar. Era um ambiente que exalava simplicidade e uma familiaridade quase sufocante.

"Eu… eu recebi seu recado", ele começou, tentando manter um tom controlado. "Sofia me disse que havia urgência. Que você mencionou perigo."

Helena fechou a porta suavemente, o som ecoando no silêncio. Ela se virou para ele, e o desespero em seus olhos era inegável. "Leonardo, as coisas estão ruins. Piores do que eu jamais imaginei."

Ela o guiou até um sofá desgastado, onde se sentaram, separados por uma distância que era tanto física quanto emocional. Leonardo observou cada movimento dela, cada expressão em seu rosto.

"O que está acontecendo, Helena?", ele perguntou, a paciência se esgotando. "Quem está em perigo?"

Helena respirou fundo, seus olhos fixos em um ponto distante. "É sobre a nossa história, Leo. Sobre o que você deixou para trás." Ela fez uma pausa, reunindo coragem. "Lembre-se de Dominguinhos? Aquele homem que você sempre teve medo… Ele voltou. E ele está cobrando uma dívida."

Leonardo sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Dominguinhos. O agiota implacável, a figura sombria que assombrava os sonhos de todos na cidade. Ele era a razão pela qual Leonardo teve que partir, a razão pela qual ele se sentia para sempre endividado.

"Dominguinhos… Ele está vivo?", Leonardo perguntou, o tom de descrença em sua voz.

"Vivo e mais perigoso do que nunca", Helena confirmou, sua voz tensa. "Ele acha que você ainda tem algo que lhe pertence. E ele está disposto a tudo para recuperar. Ele ameaçou… ele ameaçou minha filha."

A menção de uma filha pegou Leonardo de surpresa. Ele não sabia que Helena tinha uma filha. Uma filha. A responsabilidade que ele abandonou, agora se manifestava em uma nova vida.

"Você tem uma filha?", ele perguntou, a voz surpresa.

Helena assentiu, lágrimas brotando em seus olhos. "Sim, Leonardo. Uma filha. Clara. Ela tem dezessete anos. E Dominguinhos a está usando como moeda de troca."

A revelação atingiu Leonardo como um raio. Clara. Dezessete anos. Uma filha que ele nunca conheceu. A ideia de que ela estivesse em perigo, nas mãos de um homem como Dominguinhos, acendeu uma fúria fria em seu interior. Ele sentiu uma onda de proteção, uma necessidade primal de defender aquela garota que era, de certa forma, parte dele.

"O que ele quer, Helena? Que dívida é essa?"

"Ele diz que você lhe deve uma quantia enorme. Uma quantia que você nunca pagou. E agora, ele quer juros. Juros que você não pode pagar. Ele quer… ele quer você de volta, Leonardo. Ou ele vai pegar Clara." Helena o olhou nos olhos, a súplica em seu olhar implorando por ajuda. "Eu não sei o que fazer, Leo. Eu tentei de tudo. Fui até a polícia, mas eles não fazem nada. Dominguinhos é poderoso aqui. Ele controla tudo."

Leonardo ficou em silêncio por um longo momento, absorvendo a gravidade da situação. A cidade que ele tentou esquecer o assombrava de volta, com um fantasma de seu passado e uma nova ameaça que colocava uma vida inocente em risco. Ele havia construído um império para fugir de suas origens, mas agora suas origens o chamavam de volta, exigindo que ele enfrentasse seus demônios. E essa vez, não era apenas por si mesmo, mas por uma jovem que ele nunca conheceu, mas que compartilhava um pedaço de seu sangue.

Ele se levantou, o olhar fixo em Helena, uma determinação sombria em seus olhos. "Eu vou resolver isso, Helena. Eu vou tirar Clara das garras de Dominguinhos."

A esperança surgiu no rosto de Helena, misturada com a dúvida. "Mas como, Leo? Ele é implacável."

Leonardo sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos. Era o sorriso de um predador encurralado, pronto para lutar. "Eu sou Leonardo de Andrade, Helena. E eu não perdi minhas habilidades de luta. Você me deu o aviso. Agora, me diga tudo o que você sabe sobre Dominguinhos. Cada detalhe. Cada fraqueza."

A noite em Minas Gerais, antes fria e desoladora, agora fervilhava com a promessa de uma batalha iminente. A sombra do passado havia retornado, trazendo consigo não apenas memórias dolorosas, mas também uma nova vida em perigo. E Leonardo de Andrade, o homem que se afastou de tudo, estava de volta para enfrentar seus demônios, impulsionado por uma força que ele acreditava ter enterrado há muito tempo: a necessidade de proteger os seus.

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