Amor no Topo III
Amor no Topo III
por Fernanda Ribeiro
Amor no Topo III
Autor: Fernanda Ribeiro
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Capítulo 22 — O Vulto no Espelho
A brisa gélida da madrugada paulistana roçava a pele exposta de Isabella, um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura. Sentada na varanda suntuosa do apartamento que agora chamava de lar, com o céu pintado de um azul profundo salpicado por estrelas teimosas, ela bebia o café amargo com a mesma intensidade com que absorvia a solidão. O silêncio era um manto pesado, que a envolvia de uma forma incômoda, um contraste gritante com o turbilhão de acontecimentos que a haviam jogado ali, naquele pedestal dourado, mas estranhamente frio.
As mãos que outrora maneavam a terra, que moldavam a argila em formas que só ela via, agora seguravam uma xícara de porcelana fina. A mesma argila que um dia fora sua confidente, sua fuga, seu palco, agora parecia um eco distante, quase um sonho esquecido. Isabella fechou os olhos, tentando reencontrar o cheiro úmido da terra, o toque rústico, a sensação de pertencimento que aquele ateliê modesto lhe proporcionava. Mas o que vinha em seguida era o cheiro forte do café de grãos importados, o polimento frio do mármore sob seus pés descalços.
O luxo a cercava, as obras de arte impecáveis nas paredes, a vista panorâmica da cidade que pulsava lá embaixo, um mar de luzes artificiais. Tudo era perfeito, impecável, como uma vitrine. Mas dentro dela, uma fenda se abria, um vazio que nenhuma riqueza material conseguia preencher. Era a saudade de uma vida mais simples, de um amor que, embora conturbado, era genuíno. Um amor que, de repente, parecia ter sido arrancado de suas raízes e transplantado para um vaso estéril.
Seu olhar vagueou pela varanda, pousando em uma moldura de prata que repousava sobre uma mesinha lateral. Era uma foto dela e de Rafael, tirada em uma noite de verão, em meio a um campo de girassóis. Ele ria, o sol pintando seu rosto com tons de ouro, e ela, com os cabelos soltos ao vento, sentia-se livre, completa. Agora, essa liberdade parecia uma memória inatingível. Rafael. O nome ecoava em sua mente como um lamento. Ele era a razão pela qual estava ali, a âncora que a prendia a essa nova realidade. Mas também era o motivo da sua inquietação, da sua dor.
A lembrança da discussão na noite anterior a atingiu com força. As palavras duras, as acusações veladas, a distância que se instalara entre eles como um muro intransponível. Rafael a amava, ela sabia. Sentia em cada toque, em cada olhar possessivo. Mas algo havia mudado. A ingenuidade que ele tanto amava em Isabella fora substituída por uma cautela que ela não conseguia disfarçar. A descoberta do plano de Rafael, a forma como ela fora usada como peça em um jogo de poder, tudo isso a assombrava. E ela não sabia como reconstruir a confiança que se esfacelara.
“Você não dormiu, não é?”
A voz grave de Rafael irrompeu o silêncio, fazendo-a sobressaltar. Ele surgiu na porta de vidro, um vulto imponente na penumbra, os cabelos levemente despenteados, os olhos azuis, agora turvos de preocupação. Ele vestia um roupão de seda preta, um contraste elegante com a fragilidade que ela sentia em seu olhar.
Isabella se virou lentamente, tentando disfarçar a apreensão. “Só estava aproveitando o ar fresco”, respondeu, a voz um pouco embargada.
Rafael caminhou até ela, parando a uma distância respeitosa. O espaço entre eles parecia vibrar com a tensão não dita. Ele observou o café intocado em sua mão, a forma como seus ombros estavam curvados. Ele sabia que algo a afligia, e a culpa apertava seu peito.
“Bella…” Ele a chamou, o tom suave, carregado de uma súplica silenciosa. “Precisamos conversar.”
Ela assentiu, um movimento quase imperceptível. Conversar. Era o que eles mais precisavam e, ao mesmo tempo, o que mais evitavam. Cada tentativa terminava em mal-entendidos, em barreiras erguidas, em um silêncio ainda mais ensurdecedor.
“Eu… eu não sei mais o que pensar, Rafael”, Isabella confessou, a voz baixa, trêmula. “Você prometeu que seria diferente. Que me protegeria. Mas me sinto… exposta. Como se eu fosse um peão no seu jogo.”
O semblante de Rafael endureceu por um instante, a mágoa transparecendo em seus olhos. Ele se aproximou um pouco mais, estendendo uma mão hesitante em direção a ela, mas parou no meio do caminho. “Bella, você não é um peão. Você é a única coisa que importa para mim. Eu… eu cometi erros. Erros graves. E eu sei que as minhas ações te magoaram profundamente.”
Ele suspirou, a voz embargada. “Eu estava tão cego pela raiva, pela necessidade de me vingar daquela víbora da Sofia, que não pensei em como isso te afetaria. Eu queria proteger o que é nosso, proteger você, e acabei te colocando em risco. Me perdoa, Bella. Me perdoa por ter sido tão estúpido.”
As lágrimas que Isabella vinha segurando começaram a rolar por seu rosto. O pedido de desculpas era sincero, ela sentia isso. Mas as cicatrizes estavam ali, profundas. Ela lembrou-se das palavras de Sofia, das insinuações sobre o poder de Rafael, sobre o controle que ele exercia. E se ele a amava tanto, por que precisava mantê-la em uma redoma de luxo e de informações limitadas?
“Perdoar é fácil, Rafael. Mas esquecer… esquecer o que eu descobri… é outra história”, disse ela, a voz embargada pelo choro. “Eu não sou mais a menina ingênua que você conheceu. Eu aprendi a desconfiar. Aprendi que o mundo dos negócios é implacável, e que as pessoas que você ama podem ser as que mais te machucam.”
Rafael se aproximou e, dessa vez, não hesitou. Ele a envolveu em seus braços, a segurando com força, como se temesse que ela escapasse. Isabella resistiu por um instante, o corpo rígido, mas o calor do abraço dele, o cheiro familiar, a fizeram ceder. Ela se aninhou em seu peito, soluçando, liberando a dor, a frustração, o medo que a consumiam.
“Eu sei, meu amor. Eu sei que te machuquei”, Rafael sussurrou em seus cabelos. “Mas eu juro, eu juro que vou consertar tudo. Eu não quero te perder, Isabella. Você é o meu ar, a minha vida. Eu não posso imaginar um futuro sem você. Me dê mais uma chance. Uma chance para te mostrar que meu amor por você é real, é puro, e que eu farei tudo para reconquistar sua confiança.”
O coração de Isabella batia descompassado contra o peito dele. Ela queria acreditar. Queria poder voltar no tempo e apagar as mágoas. Mas a imagem de Sofia, com seu sorriso sarcástico e as palavras venenosas, pairava em sua mente. E a dúvida, como um parasita insidioso, roía sua alma. Ela estava naquele pedestal dourado, cercada por uma riqueza que nunca desejou, ao lado de um homem que amava desesperadamente, mas que também a havia ferido de forma irreparável. E agora, ela se sentia dividida entre o amor que a consumia e o medo que a paralisava.
“Eu… eu preciso de tempo, Rafael”, ela murmurou contra o tecido do roupão dele, as lágrimas ainda molhando seu rosto. “Preciso de tempo para entender o que eu sinto. Para entender o que eu quero.”
Rafael a apertou um pouco mais, a voz embargada. “Eu te darei todo o tempo do mundo, meu amor. Mas por favor, não se feche para mim. Continue falando comigo. Me deixe tentar te reconquistar.”
Ele a soltou gentilmente e a olhou nos olhos, as mãos segurando seu rosto, limpando as lágrimas com os polegares. “Você é a luz da minha vida, Isabella. E eu não vou desistir de você. Nunca.”
Isabella o olhou, buscando em seus olhos a resposta que seu coração tanto almejava. Havia amor ali, ela não duvidava. Mas também havia uma sombra, uma complexidade que ela ainda não conseguia decifrar. Ela se sentia como um vulto no espelho, olhando para si mesma, mas sem se reconhecer completamente. A mulher que estava ali, naquele luxuoso apartamento, era a mesma que sonhava em pintar com argila e sentir o cheiro da terra? Ou era uma nova Isabella, forjada pelas circunstâncias, moldada pela dor e pelo poder?
A resposta, ela sabia, não viria do conforto de seu lar, mas da própria jornada que a esperava. Uma jornada que a levaria a confrontar seus medos, a desvendar os segredos de Rafael e, acima de tudo, a redescobrir a si mesma. O sol começava a nascer, pintando o céu de tons vibrantes de laranja e rosa. Um novo dia, uma nova chance. Mas o caminho à frente ainda parecia incerto, nebuloso, como o reflexo de um vulto em um espelho embaçado.