Amor no Topo III
Capítulo 23 — O Jogo das Sombras
por Fernanda Ribeiro
Capítulo 23 — O Jogo das Sombras
A mansão dos Almeida, um colosso de mármore e vidro que se erguia majestosamente em um dos bairros mais nobres do Rio de Janeiro, era um palco de opulência e segredos. Era ali que Sofia, com seus olhos de serpente e um sorriso que escondia mil armadilhas, orquestrava seus movimentos no tabuleiro do poder. Isabella sentia o peso daquela atmosfera cada vez que se aproximava da cidade maravilhosa, um pressentimento de perigo que a envolvia como um véu invisível.
Naquela tarde, Sofia recebera um convite inusitado, um bilhete discreto enviado por um mensageiro anônimo: “O passado retorna. Encontro na antiga galeria, 18h. Assunto: A verdade sobre Leonardo.” Leonardo. O nome ecoou na mente de Sofia como um trovão distante, despertando memórias que ela há muito tentava enterrar sob camadas de luxo e ambição. Leonardo era o primeiro amor de Isabella, o artista talentoso e apaixonado que ela havia tirado do caminho para consolidar seus próprios planos. Ele era o ponto fraco de Isabella, a chave para desestabilizá-la de vez.
Sofia preparou-se para o encontro com um cuidado maquiavélico. Vestiu um tailleur de seda cor de vinho, que realçava seus traços marcantes, e calçou sapatos de salto agulha que faziam um som decisivo a cada passo. Em sua bolsa, além de um pequeno revólver, guardava documentos cuidadosamente selecionados: fotos antigas de Isabella e Leonardo, cartas trocadas entre eles, e um contrato de cessão de direitos autorais assinado às pressas por um Leonardo desiludido e em dificuldades financeiras.
Ao chegar à galeria, um espaço abandonado no coração da Lapa, Sofia sentiu a poeira e a melancolia impregnadas no ar. As paredes descascadas, os restos de telas rasgadas e os cavaletes empoeirados contavam a história de um sonho quebrado. No centro do salão, iluminado por um único facho de luz que entrava por uma claraboia quebrada, estava a figura sombria de um homem. Ele era mais velho do que Sofia se lembrava, os cabelos grisalhos e o semblante cansado, mas os olhos, ah, aqueles olhos ainda carregavam a mesma intensidade de paixão e mágoa. Era Leonardo.
“Sofia”, ele disse, a voz rouca, carregada de emoção contida. “Você veio.”
“Claro que vim, Leonardo”, Sofia respondeu, um sorriso frio brincando em seus lábios. “Você disse que tinha a verdade. E a verdade, meu caro, é algo que eu busco incessantemente.”
Leonardo caminhou lentamente até ela, os olhos fixos nos dela, como se buscasse alguma centelha de humanidade naqueles traços frios. “Eu sei o que você fez. Sei que você manipulou a Isabella, que a afastou de mim e roubou o meu trabalho.”
Sofia riu, um som agudo e sem alegria. “Eu não roubei nada, Leonardo. Eu apenas vi o potencial que você não soube aproveitar. A Isabella era jovem, ingênua. E você… você era apenas um sonhador. Eu dei ao seu trabalho o brilho que ele merecia. E à Isabella, um futuro que você jamais poderia oferecer.”
“Você destruiu o meu sonho, Sofia. E a machucou”, Leonardo insistiu, a voz embargada. “Eu a amava. E ela me amava. Você se meteu no nosso caminho como uma víbora, envenenando tudo o que tocava.”
Sofia aproximou-se dele, o revólver agora em sua mão, escondido pela manga do seu blazer. “Cuidado com o que você diz, Leonardo. A ambição é um motor poderoso. E eu estou prestes a alcançar o meu ápice. E você… você é apenas uma lembrança inconveniente que precisa ser apagada.”
Nesse instante, um barulho na entrada da galeria fez com que ambos se virassem. A figura imponente de Rafael surgiu na porta, seus olhos azuis faiscando de raiva e preocupação. Ele havia seguido Isabella, que, ao receber uma mensagem anônima com a localização da galeria e um pedido para se encontrar com Leonardo, partiu sem avisar.
“O que você está fazendo aqui, Sofia?”, Rafael rosnou, a voz ecoando pelo salão abandonado.
Sofia sorriu, um sorriso de escárnio. “Ora, Rafael. Veio buscar a sua amada? Que romântico. Pena que a vida nem sempre é um conto de fadas.”
Leonardo, vendo Rafael, sentiu uma pontada de ciúme e desespero. Ele se virou para Isabella, que surgira logo atrás de Rafael, o rosto pálido, os olhos arregalados de surpresa e medo.
“Bella…”, Leonardo sussurrou, o nome dela ecoando como um grito mudo.
Isabella olhou para Leonardo, para Rafael, e para Sofia, que sustentava um olhar de triunfo sombrio. A verdade, ela percebeu, estava naquele lugar, naquele momento.
“O que está acontecendo aqui?”, Isabella perguntou, a voz trêmula.
Sofia deu um passo à frente, com as mãos nas costas, exibindo as fotos e as cartas. “Leonardo, seu eterno fracassado. Mostre à Isabella quem realmente é o homem que ela ama.”
Leonardo, acuado, mas com uma nova determinação, pegou as fotos e as cartas e as entregou a Isabella. “Bella, eu… eu fui um tolo. Sofia me usou. Ela me prometeu dinheiro, ajuda, em troca de… de tudo. Do meu talento, da minha vida. E ela usou isso contra você.”
Enquanto Isabella folheava as cartas, sentindo o coração apertar com cada palavra apaixonada que ela mesma havia escrito para Leonardo, Sofia riu. “Tolos. Os dois. Vocês acham que um amor de verão pode superar a ambição? Eu queria o que era meu, Isabella. O seu talento, o seu prestígio. E Rafael… Rafael é apenas um obstáculo no meu caminho. Um obstáculo que eu pretendo remover.”
Sofia apontou a arma para Rafael. “Você se meteu no lugar errado, Rafael. Sofia sempre consegue o que quer.”
Mas Rafael, que havia antecipado o movimento dela, reagiu com a velocidade de um predador. Ele desarmou Sofia em um movimento rápido e brutal, jogando a arma longe. Leonardo, aproveitando a distração, correu até Isabella, abraçando-a com força.
“Eu nunca quis te machucar, Bella. Eu só queria a minha vida de volta”, ele disse, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Isabella, ainda chocada, sentiu o calor do abraço de Leonardo, o mesmo calor que um dia a confortara. Mas seu coração agora pertencia a outro. Ela se afastou suavemente. “Leonardo… o que passou, passou. Mas o que você fez… me usou, se vendeu… isso não se apaga.”
Rafael, com Sofia imobilizada ao seu lado, olhou para Isabella. A máscara de frieza havia desaparecido, substituída por uma angústia genuína. “Bella, eu nunca quis que você descobrisse as coisas dessa forma. Sofia é uma jogadora perigosa. E eu… eu tentei te proteger, mas acabei te colocando no meio de tudo isso. Eu sinto muito.”
Sofia, algemada por seguranças que Rafael havia convocado, ria loucamente. “Vocês não entendem nada. A verdade está aí. Isabella, veja as fotos. Veja o seu amor com Leonardo. E veja o Rafael. Ele te ama, é verdade. Mas ele também te usou. Ele sabia de tudo. Ele sabia que eu estava manipulando o Leonardo para conseguir as suas obras.”
O mundo de Isabella desabou. Ela olhou para Rafael, buscando uma explicação, uma negação. Mas o silêncio dele, a forma como ele desviou o olhar, foi a confirmação.
“Você… você sabia?”, ela sussurrou, a voz embargada pela dor.
Rafael se aproximou, a urgência em seus olhos. “Bella, eu sabia que Sofia estava jogando sujo com o Leonardo. Eu sabia que ela te queria fora do caminho. Mas eu não sabia que ela tinha manipulado ele a esse ponto. E eu não sabia que ele ainda tinha aqueles sentimentos por você. Eu só queria te proteger da manipulação dela. Eu nunca quis te machucar.”
As palavras dele, que antes soavam como um pedido de perdão, agora pareciam acusações. Isabella sentiu um nó na garganta, uma dor aguda que a sufocava. Ela estava presa em um jogo de sombras, onde todos jogavam uns contra os outros, e ela, a inocente, era a principal vítima.
“Eu não aguento mais”, ela disse, a voz firme apesar do choro. “Eu preciso de ar. Preciso pensar.”
Isabella saiu correndo da galeria, deixando para trás o jogo das sombras, os segredos revelados, as mentiras desvendadas. O Rio de Janeiro, que antes parecia um paraíso, agora se transformava em um labirinto de dor e desilusão. Ela não sabia para onde ir, nem o que pensar. A única certeza era que sua vida havia virado de cabeça para baixo, e ela precisava encontrar um caminho para si mesma, longe das maquinações e das traições.