Amor no Topo III
Capítulo 3 — A Garra do Agiota e a Inocência Ameaçada
por Fernanda Ribeiro
Capítulo 3 — A Garra do Agiota e a Inocência Ameaçada
O ar na casa modesta de Helena Viana parecia mais denso após a revelação. Cada objeto, cada canto, parecia carregar o peso de anos de luta silenciosa e de um passado que se recusava a ser enterrado. Leonardo de Andrade, o titã dos negócios, o homem acostumado a comandar salas de reuniões e a mover montanhas com sua fortuna, sentia-se estranhamente fora de seu elemento, mas a fúria contida em seu peito era familiar. Era a mesma fúria que o impulsionou para longe dali, a mesma que agora o fazia retornar.
Ele olhou para Helena, que se encolhia em si mesma, o desespero pintado em seu rosto. A ideia de uma filha, de Clara, em perigo, era um golpe direto em seu código de honra, uma falha em seu sistema de controle que ele não toleraria.
"Dezessete anos, Helena? E você não me contou nada?", Leonardo perguntou, a voz mais dura do que pretendia.
Helena desviou o olhar, seus ombros caindo ligeiramente. "O que eu deveria dizer, Leo? Que você me deixou para trás, construindo sua vida em outro lugar, enquanto eu lutava para sobreviver? Que eu tinha uma filha que era a única coisa que me restava de você? Eu não queria te incomodar. Você parecia tão… distante."
A verdade a atingiu com a força de um golpe. Ela estava certa. Ele a abandonou, a deixou em um mar de dificuldades, e agora, as consequências desse abandono voltavam para assombrá-lo de uma forma cruel.
"Você está errada, Helena", Leonardo disse, sua voz suavizando um pouco. "Eu nunca quis te incomodar. Eu só… eu acreditava que aquele era o melhor para nós. Que meu sucesso te traria segurança, mesmo que eu não pudesse estar lá." Ele fez uma pausa, um suspiro escapando de seus lábios. "Mas eu estava errado. Completamente errado."
Ele se aproximou dela, ajoelhando-se em frente ao sofá, onde ela estava sentada, de modo que pudessem se encarar. "Me diga tudo sobre Dominguinhos. Tudo. Como ele opera aqui? Quem são seus capangas? Qual é a extensão de seu poder? Eu preciso saber para onde estou indo."
Helena, percebendo a seriedade em seu olhar, começou a falar. Sua voz, inicialmente trêmula, ganhou força à medida que ela descrevia o homem que aterrorizava sua vida e a de Clara.
"Dominguinhos é o rei aqui, Leo. Ele empresta dinheiro a juros exorbitantes para quem não tem mais para onde recorrer. E quando eles não conseguem pagar, ele cobra. De formas… desagradáveis." Ela estremeceu. "Ele tem alguns homens leais, rapazes locais que ele mantém na palma da mão. Ninguém se atreve a enfrentá-lo. A polícia… bem, digamos que eles recebem sua parte para fechar os olhos."
Leonardo ouvia atentamente, sua mente calculando cada peça de informação. A corrupção policial era um problema em qualquer lugar, mas em um vilarejo isolado, o poder de um agiota poderia ser quase absoluto.
"E a dívida? Qual é exatamente a quantia que ele diz que eu devo?", Leonardo perguntou.
Helena hesitou. "Quando você foi embora, você pegou emprestado de Dominguinhos. Uma quantia considerável. Para começar seus negócios em São Paulo. Você prometeu pagar tudo de volta assim que pudesse. Mas as coisas ficaram difíceis, e você nunca mais mandou notícias. Dominguinhos diz que a dívida quadruplicou com os juros. Ele quer um milhão de reais."
Leonardo franziu a testa. Um milhão de reais. Na época, era uma fortuna para ele, mas agora, com a Andrade Holdings valendo bilhões, era uma quantia que ele poderia saldar em uma semana. No entanto, o princípio era o que o irritava. Dominguinhos estava usando a dívida de seu passado para ameaçar o presente.
"Um milhão… Ele está louco", Leonardo murmurou. "Eu não tenho tempo para pagar essa quantia para um verme como ele. E eu não vou deixar ele tocar em Clara."
Helena o olhou com esperança renovada. "Você vai fazer alguma coisa, Leo?"
"Eu não vim até aqui para fazer uma visita, Helena", ele respondeu, levantando-se. "Eu vim para resolver isso. E eu vou resolver. Mas eu preciso de um lugar para ficar. E preciso de informações. Você pode me dizer onde encontrar Dominguinhos? E quem são seus homens de confiança?"
Helena descreveu o único bar da cidade, um lugar escuro e barulhento onde Dominguinhos costumava passar suas noites, e mencionou dois nomes: Zeca e Tico, seus capangas mais brutais.
"Zeca é o braço direito dele. Um homem musculoso, sem muita inteligência, mas muito leal a Dominguinhos. Tico é mais esperto, mais sádico. Gosta de ver o sofrimento dos outros."
Leonardo assentiu, gravando os nomes em sua mente. "E Clara? Onde ela está agora?"
"Ela está na casa da minha irmã. Eu a mandei para lá assim que soube que Dominguinhos estava me procurando. Mas ele sabe onde ela está, Leo. Ele disse que se eu não o encontrasse, ele a levaria." O desespero em sua voz era palpável.
Leonardo sentiu a urgência aumentar. Ele não podia perder mais tempo. Ele precisava agir. "Eu preciso de um carro. E preciso de discrição. Não quero que ninguém na cidade saiba que eu estou aqui ainda. Especialmente Dominguinhos."
"Eu posso conseguir um carro com um amigo meu. Ele tem uma caminhonete antiga que não chama atenção", Helena ofereceu. "E eu posso te ajudar a se mover sem ser visto. Eu conheço todos os caminhos, todos os atalhos."
Leonardo observou Helena, notando a força que ela recuperou diante da ameaça. A mulher que ele conhecera era determinada, e essa determinação parecia ter retornado. Ele sentiu um pingo de orgulho, misturado com a tristeza pelo que ela havia passado.
"Ótimo. Eu vou precisar de tudo que você puder me dar. Informações, ajuda… tudo." Ele respirou fundo. "E sobre Clara… como ela é?"
Helena sorriu, um vislumbre de algo doce em meio à escuridão. "Ela tem seus olhos, Leo. A mesma intensidade. E ela é teimosa. Não desiste fácil. Assim como você."
A imagem de sua filha, uma extensão de si mesmo que ele nunca conheceu, pairou em sua mente. A ideia de que essa garota, com a intensidade de seus próprios olhos, estivesse em perigo, era insuportável.
"Eu vou resgatá-la, Helena. E vou lidar com Dominguinhos. De uma vez por todas."
Enquanto o sol começava a nascer, pintando o céu de tons alaranjados e rosados, Leonardo se preparava para a batalha. Ele sabia que seria difícil. Dominguinhos teria vantagem em seu próprio território, mas Leonardo tinha algo que o agiota não possuía: recursos, astúcia e uma motivação poderosa. Ele não lutava apenas por dinheiro ou por um acordo. Ele lutava por sua filha.
Ele sabia que a Andrade Holdings tinha recursos que iam muito além de São Paulo. Ele poderia enviar sua equipe de segurança, usar sua influência para pressionar a polícia. Mas ele queria resolver isso sozinho, com suas próprias mãos. Era uma questão de honra, uma dívida que ele precisava pagar de uma forma que Dominguinhos nunca esperaria.
Ele se lembrou de sua partida, da promessa de retorno que ele nunca cumpriu. Agora, o retorno era inevitável, e ele não viria de mãos vazias. Ele viria para reclamar o que era seu por direito, e para proteger o que era seu por sangue.
"Eu vou sair agora", Leonardo disse a Helena, a voz firme. "Vou dar uma volta. Para me familiarizar com a cidade. E você, cuide de Clara. Mantenha-a segura. Qualquer sinal de perigo, me ligue."
Helena assentiu, os olhos cheios de uma esperança cautelosa. "Tenha cuidado, Leo. Dominguinhos é perigoso."
"Eu sei", ele respondeu, um leve sorriso brincando em seus lábios. "Mas eu também sou."
Ele saiu da casa, a luz fraca da madrugada iluminando seu caminho. A cidade parecia pacata, adormecida, mas Leonardo sabia que sob aquela fachada de tranquilidade, a escuridão espreitava. Ele se sentia como um lobo em território desconhecido, mas o instinto o guiava. Ele estava de volta à sua terra natal, e desta vez, ele não iria embora sem antes acertar as contas. A garra do agiota encontraria resistência, e a inocência de Clara seria a chama que o impulsionaria para a vitória.