Amor no Topo III
Capítulo 4 — O Confronto nos Becos Sombrios da Cidade Adormecida
por Fernanda Ribeiro
Capítulo 4 — O Confronto nos Becos Sombrios da Cidade Adormecida
O sol da manhã banhava a pequena cidade mineira com uma luz dourada, mas para Leonardo de Andrade, a beleza natural era obscurecida pela sombra do perigo iminente. Ele dirigia a caminhonete antiga, um veículo discreto que Helena providenciara, pelas ruas ainda desertas. O motor roncava baixo, um som que contrastava com o silêncio da hora. Ele observava cada detalhe: as casas simples, os comércios fechados, os poucos moradores que começavam a sair de suas casas, ainda sonolentos. Tudo era familiar, mas ao mesmo tempo, estranhamente alienígena. Era o cenário de sua juventude, agora tingido pela ameaça de um homem que ele jurou nunca mais encontrar.
Ele parou a caminhonete em uma rua lateral, a poucos quarteirões do bar que Helena mencionara. Desceu do veículo, sentindo o chão de terra sob seus pés. O ar era fresco, perfumado com o cheiro de flores e café. Era um contraste gritante com o asfalto frio e o ar poluído de São Paulo, um lembrete de tudo o que ele deixou para trás.
Leonardo sabia que precisava ser cauteloso. Dominguinhos era astuto, e certamente estaria alertado sobre a presença de um forasteiro na cidade. Ele precisava de informações concretas, de uma oportunidade para agir.
Ele caminhou em direção ao centro da cidade, suas botas fazendo um som surdo no chão batido. As poucas pessoas que ele encontrou lançavam olhares curiosos, mas ninguém o abordava. Ele era um estranho, um vulto em sua pacata rotina.
Ao se aproximar do bar, o som de conversas e risadas baixas começou a emanar de dentro. O lugar parecia sombrio e mal conservado, com uma placa desbotada pendurada na entrada. Era o covil de Dominguinhos.
Leonardo entrou no bar, o ar pesado com o cheiro de bebida e fumaça de cigarro. Alguns homens sentados em mesas espalhadas observaram sua entrada com desconfiança. Ele viu, em uma mesa no canto mais escuro, um homem corpulento, com uma barriga proeminente e um olhar cínico. Era Zeca, o homem que Helena descrevera. Ao seu lado, um homem mais magro, com um sorriso cruel nos lábios, observava tudo com um brilho nos olhos. Tico.
Leonardo sentiu o olhar deles sobre si. Ele caminhou em direção ao balcão, sentando-se em um banco alto. O barman, um homem grisalho com um olhar cansado, aproximou-se dele.
"O que vai querer, moço?", o barman perguntou, a voz baixa e desinteressada.
"Uma água", Leonardo respondeu, sua voz firme e clara. "E eu estou procurando um homem. Dominguinhos."
Um silêncio momentâneo caiu sobre o bar. Os olhares dos homens em Zeca e Tico se voltaram para Leonardo com uma intensidade renovada. Zeca soltou uma risada grossa.
"Dominguinhos não está recebendo visitas hoje, amigo. E quem é você para perguntar por ele?"
Leonardo virou-se lentamente para encarar Zeca. "Eu sou um homem que tem um assunto a tratar com ele. Um assunto que envolve uma dívida do passado."
Tico deu uma risada sarcástica. "Dívida do passado, é? E quem é você para vir cobrá-la? Um novo credor?"
Leonardo ignorou Tico, mantendo o olhar fixo em Zeca. "Diga a Dominguinhos que Leonardo de Andrade está na cidade. E que eu quero falar com ele sobre Clara."
O nome de Clara pairou no ar, cortando a atmosfera tensa. Os olhos de Zeca se arregalaram ligeiramente, e Tico, que antes sorria, agora parecia intrigado. A menção da menina havia mudado o jogo.
"Clara?", Zeca rosnou, levantando-se. "Você não tem nada a ver com a garota, forasteiro. Dominguinhos te avisou para não vir para cá."
Leonardo permaneceu sentado, sem demonstrar medo. "Dominguinhos está errado. Eu tenho tudo a ver com ela. E vou tirar ela das mãos dele."
Sem aviso, Zeca avançou na direção de Leonardo. Mas Leonardo era mais rápido. Com um movimento ágil, ele se levantou, desviando do ataque de Zeca e acertando um soco preciso no queixo do homem. Zeca cambaleou para trás, surpreso com a força do estranho.
Tico, vendo seu comparsa ser atacado, sacou uma faca e se aproximou de Leonardo com um sorriso cruel. "Você é corajoso, eu admito. Mas coragem não te salva agora."
Leonardo não hesitou. Ele pegou um copo de vidro do balcão e o arremessou contra Tico. O vidro se estilhaçou, distraindo o homem por um instante. Nesse momento, Leonardo se moveu, desferindo um chute forte no estômago de Tico, que se dobrou de dor, a faca caindo de suas mãos.
O bar inteiro ficou em silêncio, todos os olhares fixos na cena. O barman se escondeu atrás do balcão. Leonardo observou Zeca se recuperar, seus olhos cheios de fúria.
"Você vai se arrepender disso, forasteiro!", Zeca gritou, avançando novamente.
Mas Leonardo estava pronto. Ele esquivou-se do ataque e, com uma sequência rápida de golpes, imobilizou Zeca, derrubando-o no chão. Tico, ainda se recuperando da dor, tentou se levantar, mas Leonardo o chutou novamente, deixando-o ofegante no chão.
O barman, vendo que a situação estava sob controle, aproximou-se cautelosamente. "Dominguinhos não está aqui. Ele saiu mais cedo. Ele disse que estava indo para a casa de Helena Viana."
Leonardo sentiu um arrepio. Helena. Clara. Eles estavam em perigo.
"Obrigado", Leonardo disse ao barman, sua voz tensa. Ele lançou um último olhar para Zeca e Tico, que gemiam no chão. "Digam a Dominguinhos que eu estou a caminho. E que ele não terá mais tempo para brincar."
Ele saiu do bar, o coração acelerado. Ele precisava chegar lá, e precisava chegar rápido. A adrenalina pulsava em suas veias, alimentada pela urgência de proteger sua filha.
Ele correu de volta para a caminhonete, o som de seus passos ecoando nas ruas silenciosas. Ele ligou o motor e acelerou, dirigindo em direção à casa de Helena. A cidade adormecida parecia agora um labirinto de perigos.
Ao chegar na rua de Helena, ele viu a cena que temia. A porta da casa estava aberta, e dois homens, capangas de Dominguinhos, estavam entrando à força. Ele também viu Helena na varanda, tentando impedi-los, mas sendo empurrada para o lado com violência.
Leonardo não pensou duas vezes. Ele acelerou a caminhonete, jogando-a contra os homens, derrubando-os no chão. Ele desceu do veículo, correndo em direção à casa.
"Clara!", ele gritou, entrando na casa. Ele a encontrou encolhida em um canto da sala, os olhos arregalados de terror. Ao lado dela, estava Helena, que tentava protegê-la.
"Leonardo!", Helena exclamou, aliviada e assustada ao mesmo tempo.
"Fique aqui com ela", Leonardo ordenou, sua voz firme. Ele sabia que Dominguinhos estaria em algum lugar, e ele precisava encontrá-lo.
Ele saiu novamente, procurando por Dominguinhos. O agiota estava em uma parte mais isolada da casa, em um pequeno escritório. Leonardo entrou sem hesitar, encontrando Dominguinhos sentado atrás de uma mesa, um sorriso cruel em seu rosto.
"Leonardo de Andrade", Dominguinhos disse, sua voz sibilante. "Você finalmente apareceu. Achei que estivesse com medo."
"Eu não tenho medo de você, Dominguinhos", Leonardo respondeu, sua voz cheia de desprezo. "Eu vim por Clara. E você não vai machucá-la."
Dominguinhos riu. "Ah, mas eu vou. A menos que você me pague um milhão de reais. E eu sei que você tem esse dinheiro. Eu acompanhei sua ascensão, Andrade. Você se tornou um homem rico."
"Eu nunca lhe devo nada", Leonardo disse, seus punhos cerrados. "E não vou pagar um centavo para um verme como você."
Dominguinhos levantou-se, um brilho perigoso em seus olhos. "Então você terá que ver o que acontece com a sua filha."
Ele se aproximou de Leonardo, e os dois homens se encararam. A tensão era palpável. Leonardo sabia que a luta seria brutal. Ele não era um homem violento por natureza, mas a proteção de sua filha o transformava em um animal feroz.
"Você não sabe com quem está lidando, Dominguinhos", Leonardo disse, sua voz baixa e ameaçadora. "Eu construí um império. E ninguém, nem mesmo você, vai tirá-lo de mim."
Dominguinhos riu novamente, um som rouco e desagradável. "Veremos, Andrade. Veremos."
E então, a luta começou. Os dois homens se chocaram em uma batalha de força e astúcia, os ecos de seus golpes ecoando pela casa. Leonardo lutava com a fúria de um pai protetor, enquanto Dominguinhos lutava com a ganância e a crueldade de um predador. Os becos sombrios da cidade adormecida estavam prestes a testemunhar um confronto que mudaria suas vidas para sempre.