Fusão de Corações
Capítulo 23 — O Labirinto de Mentiras na Cobertura
por Larissa Gomes
Capítulo 23 — O Labirinto de Mentiras na Cobertura
A cobertura de Gabriel Montenegro, um santuário de luxo e poder que pairava sobre a cidade, agora parecia um palco sombrio para o drama que estava prestes a se desenrolar. Helena subiu no elevador privativo, o silêncio amplificado pelo som ritmado das gotas de chuva que ainda caíam lá fora, um eco distante da tempestade que abalara São Paulo. Cada andar que o elevador subia era um passo em direção a uma verdade incerta, a uma conversa que ela temia mais do que qualquer negociação corporativa.
Ao chegar ao último andar, as portas se abriram para um hall imponente, decorado com obras de arte modernas e mobiliário minimalista. Gabriel estava ali, em pé, de costas para ela, olhando pela imensa janela panorâmica. A silhueta dele contra o céu noturno, ainda carregado de nuvens, era a de um titã, inatingível e grandioso. Ele se virou ao sentir a presença dela, e seus olhos encontraram os dela, um duelo silencioso de emoções não ditas.
"Helena. Obrigado por vir." Sua voz era grave, calma, mas carregada de uma tensão subjacente que ela reconheceu imediatamente. Era a mesma voz que ele usava antes de uma decisão importante, uma voz que escondia as profundezas de seu pensamento.
"Gabriel. Você disse que precisávamos conversar. Urgentemente." Helena tentou manter a voz firme, mas um tremor sutil a traiu.
Ele gesticulou em direção a uma área de estar luxuosa, com poltronas de couro e uma lareira apagada. "Por favor, sente-se."
Ela obedeceu, sentando-se na beirada de uma poltrona, as mãos entrelaçadas no colo, numa tentativa fútil de controlar a ansiedade. Gabriel sentou-se na poltrona em frente, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, os olhos fixos nela. O olhar dele era intenso, quase inquisidor, e Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"Eu… eu preciso te pedir desculpas, Helena." A frase pairou no ar, carregada de um peso inesperado. Helena ergueu os olhos, surpresa. Desculpas? Por quê?
"Desculpas por quê, Gabriel?"
"Por… por tudo. Pela forma como as coisas foram ditas. Pela forma como você soube." Ele fez uma pausa, como se escolhesse cada palavra com extremo cuidado. "O noivado com Marina… não é o que parece."
O coração de Helena deu um salto, um misto de alívio e desconfiança. Poderia ser? Poderia André ter razão? Mas a imagem de Marina, radiante com o anel, ainda assombrava sua mente.
"Não é o que parece? Gabriel, eu a vi. Com o anel. Você me disse. Você disse que… que era sério." A voz dela falhou na última palavra.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros. "Helena, a situação com Marina é… complicada. Uma negociação. Uma aliança estratégica para a empresa, algo que meu pai vinha arquitetando há anos. E, sim, eu disse a você que era sério porque… porque naquele momento, era a única forma de proteger você."
"Proteger a mim? De quê, Gabriel? De quê você precisava me proteger?" A confusão e a mágoa começaram a se misturar em sua voz.
"De todos. Da imprensa. Dos nossos concorrentes. Da minha própria família, que estaria ainda mais furiosa com a nossa… aproximação." Ele fez um gesto vago, como se tentasse descrever um emaranhado invisível. "O anúncio do noivado foi uma forma de desviar a atenção, de apaziguar os ânimos. Eu nunca quis que você soubesse dessa forma. Nunca quis que você sofresse."
Helena o encarou, tentando decifrar a verdade por trás de suas palavras. A história parecia plausível, digna de um roteiro de novela das nove, mas ainda assim, havia algo que a incomodava. O olhar de Gabriel, a forma como ele falava… era a verdade? Ou era apenas mais uma jogada calculista?
"Uma negociação, Gabriel? Um casamento arranjado?" Ela riu, uma risada amarga e sem alegria. "E eu? Onde eu me encaixo nessa sua 'negociação'? Eu fui apenas um passatempo? Uma distração enquanto você decidia qual era a melhor estratégia?"
"Não! Helena, você nunca foi um passatempo. Você é… você é tudo." Ele se levantou, aproximando-se dela, e pela primeira vez, Helena viu em seus olhos uma vulnerabilidade genuína, uma dor que espelhava a sua. "Quando você apareceu na minha vida, tudo mudou. O poder, o dinheiro, os negócios… tudo perdeu o sentido. Eu nunca pensei que pudesse amar alguém assim. E a ideia de você ser exposta, de você ser usada por causa da minha família… isso me apavorava."
Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou o rosto dela. A pele dela estava fria, e ele a aqueceu com a palma de sua mão. "O noivado com Marina era uma fachada. Uma mentira que eu contei para me dar tempo. Tempo para encontrar uma forma de resolver isso sem te machucar, sem te perder."
As lágrimas voltaram a brotar nos olhos de Helena, mas desta vez, eram lágrimas de confusão, de alívio misturado com desconfiança. "Tempo para quê, Gabriel? Para você se livrar de mim depois de conseguir o que queria? Para me usar e descartar?"
"Nunca!" A voz dele era firme, carregada de uma paixão que Helena reconhecia. "Nunca para te descartar. Para te proteger. Para ter você só para mim. Eu te amo, Helena. Amo mais do que a minha vida. E essa 'negociação' com a Marina era a única forma que eu via de afastar todos os holofotes de nós dois por tempo suficiente para que eu pudesse te pedir para ficar comigo, de verdade, sem as pressões externas."
Ele segurou o rosto dela entre as mãos, seus olhos buscando os dela com uma intensidade que a fez prender a respiração. "Quando eu te disse que era sério, era sério sobre o fato de que eu estava usando a Marina como escudo. Mas o que eu sinto por você, Helena… isso é real. Isso é o meu mundo. E eu não consigo viver sem você."
A confissão pairou no ar, pesada e carregada de emoção. Helena o olhava, o coração batendo descompassado. As palavras de Gabriel eram como um bálsamo para suas feridas, mas a desconfiança ainda residia em algum lugar profundo. Ele era um mestre em manipulação, em estratégias. Poderia essa ser a maior delas?
"Por que eu deveria acreditar em você, Gabriel?" A pergunta saiu em um sussurro. "Você me contou uma mentira. Uma mentira que me fez sofrer imensamente."
"Porque eu estou te contando a verdade agora. Porque eu não consigo mais viver escondendo isso de você. Porque a imagem de você sofrendo me destrói." Ele apertou suavemente suas mãos. "Eu sei que perdi sua confiança. E eu sei que vai levar tempo para reconquistá-la. Mas eu estou disposto a tentar. Estou disposto a provar para você o quanto eu te amo."
Ele se aproximou, seus lábios a centímetros dos dela. O cheiro dele, uma mistura de perfume caro e sua própria essência, a envolvia. "Eu não quero mais me esconder. Eu não quero mais mentir. Eu quero você, Helena. Só você."
O momento era carregado de uma eletricidade palpável. Helena sentiu uma batalha interna. Uma parte dela queria se entregar, abraçar essa esperança de redenção. Outra parte, marcada pela dor recente, a alertava para o perigo.
"E a Marina?", ela sussurrou, a dúvida persistindo.
"A Marina… será dispensada. Com elegância, claro. Ela será informada que a empresa Montenegro não seguirá com essa aliança. E que meu coração encontrou seu verdadeiro destino." Ele deu um sorriso fraco, um sorriso que misturava alívio e a incerteza do futuro. "Meu destino é você, Helena."
Ele finalmente selou seus lábios nos dela. O beijo foi faminto, desesperado, um beijo que carregava todo o peso das mentiras, do sofrimento, mas também da esperança de um recomeço. Helena sentiu-se derreter em seus braços, as barreiras que ela erguera desmoronando sob a força daquela paixão avassaladora.
Mas enquanto o beijo se aprofundava, uma sombra fria pairou em sua mente. A necessidade de Gabriel em "proteger" a si mesma com a mentira do noivado ainda a incomodava. Era um homem tão calculista, tão estratégico. Seria mesmo possível que ele tivesse se entregue tão completamente ao amor a ponto de arriscar tudo? Ou essa era apenas mais uma jogada genial, para fazê-la acreditar que ele a amava, para que ela se tornasse sua aliada incondicional? O labirinto de mentiras de Gabriel Montenegro era profundo e complexo, e Helena não tinha certeza se conseguiria encontrar a saída. A tempestade lá fora podia ter passado, mas a tempestade em seu coração estava apenas começando.