A Secretária do Bilionário 77

Capítulo 13 — O Guardião das Ruínas e o Despertar de Fantasmas

por Beatriz Mendes

Capítulo 13 — O Guardião das Ruínas e o Despertar de Fantasmas

O ar úmido e pesado do Engenho das Sombras parecia se adensar a cada minuto que Sofia passava ali. A descoberta do diário de Helena e da fotografia lançara uma nova luz sobre os segredos que envolviam Gabriel e aquele lugar. Ela se sentia como uma intrusa, uma espectadora involuntária de um drama familiar que se desenrolava através das gerações. Mas a curiosidade, atiçada pela dor da ausência e pela promessa da chave, a impelia a continuar.

Ela deixou o escritório e aventurou-se pelos arredores da casa principal, o diário de Helena firmemente seguro em sua bolsa. Os restos do antigo engenho de cana pareciam figuras fantasmagóricas, esqueletos de um passado industrial que um dia prosperou ali. Os tanques de fermentação enferrujados, as caldeiras frias, tudo parecia carregar o eco do trabalho árduo e da produção que um dia deu vida àquele lugar.

Enquanto explorava um dos galpões mais preservados, que parecia ter sido usado como depósito, Sofia ouviu um barulho. Um som de metal raspando em pedra, vindo do lado de fora. Seu coração disparou. Ela se agachou atrás de uma pilha de barris velhos, tentando não fazer barulho. A chuva havia cessado completamente, e o sol começava a romper as nuvens, lançando raios de luz oblíquos através das frestas do telhado.

O som se aproximou. E então, uma figura emergiu da vegetação rasteira, empunhando uma enxada. Era um homem idoso, de cabelos brancos e barba rala, com o rosto marcado pelo tempo e pelo sol. Vestia roupas simples e surradas, e seus olhos, embora cansados, pareciam perspicazes, observando tudo ao redor. Ele se movia com a familiaridade de quem conhece cada centímetro daquele lugar.

Sofia prendeu a respiração. Quem seria aquele homem? Um zelador? Um ermitão que havia se apossado do lugar? Ou talvez, alguém ligado à história de Helena e Antônio?

O homem parou próximo a um dos muros desmoronados, examinando-o com atenção. Ele murmurava algo para si mesmo, um lamento baixo e quase inaudível. Sofia, ainda escondida, tentou captar algumas palavras, mas o som da sua própria respiração parecia alto demais.

O homem então começou a remover algumas pedras soltas do muro, como se estivesse procurando por algo. Sofia percebeu que ele não era uma ameaça, mas sim um guardião das ruínas, alguém que parecia ter um profundo apego àquele lugar esquecido.

Quando o homem se virou em direção a onde Sofia estava escondida, ela sabia que não podia mais permanecer oculta. Com um suspiro resignado, ela se levantou.

O homem a encarou, surpreso. Seus olhos se arregalaram por um instante, mas logo recuperaram a compostura. Ele a mediu com o olhar, um misto de desconfiança e curiosidade em sua expressão.

"Quem é você e o que faz aqui?", perguntou ele, a voz rouca e arrastada, mas firme.

Sofia respirou fundo, tentando transmitir sinceridade. "Meu nome é Sofia. Eu... eu estava apenas explorando. Fiquei sabendo sobre este lugar e quis conhecer."

O homem franziu a testa, claramente sem acreditar completamente. "Ninguém vem aqui há anos. Especialmente uma moça como você. O Engenho das Sombras não é lugar para passeios."

"Eu sei que parece estranho", Sofia admitiu, aproximando-se um pouco mais, mas mantendo uma distância respeitosa. "Mas eu senti uma... atração por este lugar. Há uma história aqui, não é?"

O velho sorriu, um sorriso cansado que enrugou ainda mais o seu rosto. "História? Ah, minha moça, este lugar respira história. E muitas delas são tristes." Ele olhou ao redor, como se pudesse ver os fantasmas do passado. "Eu sou Cícero. Fui criado aqui, meu pai trabalhava para o patrão, o Sr. Antônio. Eu vi muita coisa acontecer."

As palavras "Sr. Antônio" fizeram Sofia prender a respiração. "O Sr. Antônio... Você o conheceu?"

Cícero assentiu, seus olhos perdendo-se em alguma lembrança distante. "Sim. Um bom homem. E a esposa dele, Dona Helena. Uma flor rara. Tinham um filho lindo, o pequeno Gabriel."

Sofia sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Gabriel. O nome do seu chefe, o homem que a deixara em um turbilhão de emoções, era o filho daquele casal, o herdeiro daquele passado sombrio. As peças começaram a se encaixar de forma avassaladora.

"Gabriel?", Sofia sussurrou, a voz embargada pela emoção. "O Sr. Gabriel... Ele é o filho deles?"

Cícero a olhou com surpresa. "Você conhece o rapaz? Ele não vem aqui há muito tempo. Desde que... desde que as coisas ficaram difíceis."

Sofia tentou controlar o tremor em sua voz. "Eu trabalho para ele. Ele é... meu chefe." Ela hesitou, ponderando o quanto deveria revelar. "Eu o admiro muito. Mas ele é um homem de poucos segredos, mas eu sei que ele carrega um peso."

Cícero balançou a cabeça lentamente. "Um peso que ninguém deveria carregar. O que aconteceu aqui marcou todos nós. A perda do Sr. Antônio, a fragilidade da Dona Helena após a partida dele... e o pequeno Gabriel, levado para longe para se proteger. Foi uma decisão difícil, mas necessária."

"O que aconteceu com o Sr. Antônio?", Sofia perguntou, o diário de Helena parecendo pesar em sua bolsa. Ela sabia que Helena narrava a partida de Antônio, mas não os detalhes.

Cícero suspirou, um som pesado e carregado de dor. "Um acidente, disseram. Uma queda de cavalo durante uma tempestade. Mas havia rumores... boatos de que ele foi empurrado. Que havia inimigos que queriam vê-lo fora do caminho." Ele olhou para o muro que estava inspecionando. "Meu pai sempre disse que havia algo escondido aqui. Uma passagem, talvez. Algo que o Sr. Antônio usava para... para se encontrar com alguém. Ou fugir."

Passagem secreta? Fugir? As palavras de Cícero ecoavam as próprias suspeitas de Sofia. O segredo que Gabriel protegia, a chave que ele usava... tudo parecia se conectar àquela tragédia.

"E Dona Helena?", Sofia perguntou, lembrando-se da fragilidade descrita no diário.

"Ela nunca se recuperou completamente", respondeu Cícero, a voz embargada. "O luto a consumiu. Depois que o pequeno Gabriel foi levado, ela definhou. Passava os dias sentada aqui, olhando para o nada. Morreu poucos anos depois. De coração partido, diziam."

Sofia sentiu uma profunda tristeza invadi-la. A história daquela família era um conto trágico, repleto de perda e segredos. E Gabriel, vivendo no presente, carregava as cicatrizes invisíveis daquele passado.

"E o Sr. Gabriel?", Sofia insistiu. "Por que ele não vem mais?"

"Ah, a cidade!", Cícero resmungou. "Depois da morte da Dona Helena, a família dele, os que ficaram, decidiram que este lugar trazia azar. O Sr. Gabriel era muito jovem para entender tudo, mas ele cresceu ouvindo sobre as desgraças que aconteceram aqui. E quando ficou mais velho, começou a desconfiar de coisas. Talvez tenha descoberto algo que o assustou. Ele se afastou, construiu sua vida longe daqui. Mas sei que nunca esqueceu."

Sofia olhou ao redor, imaginando o pequeno Gabriel correndo por aqueles campos, sob o olhar amoroso de Helena e Antônio. Imaginou a dor da perda, a necessidade de fugir para se proteger. A chave em seu bolso, o colar que Gabriel lhe dera... Seria ela um convite para Gabriel revisitar seu passado? Ou um teste?

"Há algo que possa nos ajudar a entender o que aconteceu com o Sr. Antônio?", Sofia perguntou, com um tom de esperança. "Algo que ele possa ter deixado para trás?"

Cícero a encarou por um longo momento, ponderando. "Meu pai sempre falou de um compartimento secreto na biblioteca. O Sr. Antônio gostava de guardar coisas importantes ali. Documentos, talvez. Mas nunca o encontramos."

Biblioteca. Sofia já havia estado lá. Ela se lembrou da escrivaninha de madeira maciça, dos livros antigos. Um compartimento secreto. O mesmo local onde ela encontrou o diário de Helena.

"Eu... eu acho que encontrei algo na biblioteca", Sofia disse, hesitante. "Um diário. De Dona Helena."

Os olhos de Cícero brilharam com um interesse renovado. "Um diário? De Dona Helena? Se ela escreveu sobre o que aconteceu, pode ser a chave para desvendar tudo."

Sofia sentiu um nó na garganta. Ela havia encontrado o diário, mas não a verdade completa. A história de Helena era bela e triste, mas a verdade sobre a morte de Antônio permanecia envolta em mistério.

"O diário conta a história deles", Sofia explicou. "Mas não fala sobre o que aconteceu com o Sr. Antônio. Apenas menciona que ele foi para um encontro e não voltou."

Cícero suspirou. "É o que eu temia. Os segredos deste lugar são profundos. Mas talvez, se juntarmos o que você encontrou com o que meu pai me ensinou sobre este lugar... talvez possamos encontrar algo mais."

Ele se virou novamente para o muro que estava inspecionando. "Meu pai dizia que o Sr. Antônio usava uma passagem secreta para sair da casa sem ser visto. Ele acreditava que ficava em algum lugar aqui, atrás deste muro. Ele dizia que o Sr. Antônio era um homem com muitos inimigos, e que precisava de um refúgio."

Sofia aproximou-se, observando as pedras que Cícero havia removido. Havia um espaço oco atrás delas, uma abertura escura que levava para o interior do muro. O cheiro de mofo e terra úmida emanava dali.

"Será que... será que ele se machucou e não conseguiu voltar?", Sofia sugeriu, pensando na possibilidade de um acidente.

"Ou talvez...", Cícero ponderou, seus olhos fixos na escuridão da passagem, "...talvez ele tenha sido levado. Ou fugido. Ninguém sabe ao certo."

Um arrepio percorreu o corpo de Sofia. Fantasmas do passado, segredos enterrados, um filho que carregava o peso de tudo aquilo. A chave em seu bolso parecia pulsar, um chamado para desvendar a verdade, para trazer à luz o que havia sido escondido por tanto tempo. A presença de Cícero, o guardião das ruínas, lhe dera uma nova perspectiva, uma ligação com a história que antes parecia inatingível. Ela não estava mais sozinha na sua busca. E a história de Gabriel, que ela pensava conhecer, estava apenas começando a se revelar, tecida com os fios de um passado sombrio e doloroso.

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