Amor entre Balas II

Amor entre Balas II

por Mateus Cardoso

Amor entre Balas II

Por Mateus Cardoso

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Capítulo 1 — O Rescaldo do Fogo

O cheiro acre da fumaça ainda pairava no ar, um perfume fantasmagórico que se agarrava às paredes de concreto do armazém abandonado. A luz do amanhecer, tímida e cinzenta, esgueirava-se pelas janelas quebradas, pintando o cenário desolador com tons de melancolia. No chão, espalhado como confetes macabros, jaziam os destroços de uma noite que jamais seria esquecida. Cartuchos vazios, pedaços de madeira carbonizada e, ali, no centro do caos, um corpo. Ou melhor, o que restara dele.

Isabella se aproximou com passos hesitantes, a sola de sua bota de couro fazendo um som abafado no pó que cobria tudo. Seus olhos, geralmente tão vivos e cheios de uma faísca desafiadora, agora estavam turvos de uma dor que parecia ter congelado sua alma. O vento gélido da manhã varreu seus cabelos escuros, emoldurando um rosto pálido, marcado pela exaustão e pela perda. O vestido preto de seda, antes impecável, agora ostentava rasgos e manchas que contavam a história da luta desesperada.

Ela se ajoelhou ao lado do vulto, o coração martelando no peito como um tambor descompassado. A mão tremeu ao se estender, hesitando em tocar a pele fria e sem vida. Era ele. O homem que roubara seu coração, que a fizera conhecer o paraíso e o inferno em igual medida. O homem que ela amava, com a mesma intensidade destrutiva com que as balas haviam rasgado a noite.

"Marco...", sussurrou, a voz embargada, um fio de som que mal rompia o silêncio sepulcral. As lágrimas, que ela tentava conter com todas as suas forças, finalmente encontraram seu caminho, escorrendo por suas bochechas, diluindo a sujeira e a dor.

Ao seu lado, Rafael, seu fiel braço direito, permaneceu em silêncio, um espectador impotente da devastação que consumia Isabella. Seus olhos azuis, normalmente duros e calculistas, refletiam uma preocupação genuína. Ele vira Isabella e Marco se apaixonarem em meio ao turbilhão de violência e poder que definia suas vidas. Vira a força que eles encontravam um no outro, a promessa de um futuro que agora parecia ter sido brutalmente aniquilada.

"Ele lutou, Bella", disse Rafael, sua voz grave e ponderada. "Até o último suspiro. Ele te protegeu."

As palavras foram como um novo golpe para Isabella. Proteger. Ela sabia. Ele sempre a protegeria. E agora, essa proteção custara tudo. Ela fechou os olhos, buscando refúgio na escuridão, mas as imagens da noite anterior invadiam sua mente: o som dos tiros, os gritos, o clarão das explosões. A imagem de Marco, caindo nos seus braços, o sangue manchando sua camisa, os olhos fixos nos dela, um último pedido silencioso.

"Não era pra ser assim, Rafa", ela murmurou, a voz quase inaudível. "Nós íamos sair dessa. Juntos. Íamos ter uma vida normal."

Rafael assentiu, sem saber o que dizer. A promessa de uma vida normal era um sonho distante para os dois. Eles estavam imersos em um mundo onde a lealdade era uma moeda de troca e a traição, um fardo pesado demais. Marco, o homem que se tornara o rei do submundo de São Paulo, fora pego de surpresa. O ataque viera de onde menos se esperava, de aliados que se revelaram inimigos vorazes.

"Os responsáveis já sabem o que os espera", disse Rafael, a frieza voltando aos seus olhos. "Ninguém machuca o que é meu. Ninguém machuca quem eu amo. E Marco... Marco era o meu irmão."

Isabella ergueu a cabeça, o olhar encontrando o de Rafael. Havia uma promessa ali, um juramento silencioso de vingança que ecoava no silêncio do armazém. Ela sabia que Rafael cumpriria sua palavra. Ele era tão implacável quanto Marco, talvez até mais, quando a raiva o consumia.

"Não é só vingança, Rafa", disse Isabella, a voz ganhando uma nova força, a dor se transformando em uma resolução gélida. "É sobrevivência. Eles querem o que Marco construiu. Eles querem o meu poder. Mas eles não vão conseguir."

Ela se levantou, o corpo dolorido, mas a mente afiada. A fraqueza era um luxo que ela não podia mais se dar. O luto seria um inimigo que ela enfrentaria depois. Agora, era hora de lutar. Era hora de mostrar aos que ousaram desafiar o legado de Marco e o seu próprio, de que o fogo que consumira aquele armazém era apenas uma faísca. A verdadeira tempestade ainda estava por vir.

"Precisamos sair daqui", disse Isabella, olhando ao redor, avaliando os danos, mas também buscando uma saída, um plano. "Temos que reagrupar. E temos que descobrir quem foi o mandante."

Rafael estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Ela a pegou, a força do aperto de Rafael transmitindo uma segurança que ela não sentia há muito tempo. Juntos, eles eram uma força a ser reconhecida. Isabella, com sua inteligência afiada e instinto de sobrevivência, e Rafael, com sua lealdade inabalável e brutalidade calculada.

Ao saírem do armazém, deixando para trás o corpo de Marco sob a luz fria do amanhecer, Isabella sentiu o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. O caminho à frente seria árduo, repleto de perigos e traições. Mas ela não estava sozinha. E, no fundo do seu coração, uma pequena brasa de esperança ainda ardia. A esperança de honrar a memória de Marco, de proteger o império que ele construíra e de, talvez um dia, encontrar um pouco de paz em meio às balas.

Os carros os esperavam, os capangas de Marco, com os rostos tensos e os olhares ansiosos, aguardavam ordens. A notícia da morte de seu líder se espalharia como fogo em palha seca, e o submundo de São Paulo estaria em polvorosa. Isabella sabia que precisava agir rápido, mostrar força, e não demonstrar fraqueza. O luto podia esperar. A guerra, não.

Ela entrou no carro preto e reluzente, o couro exalando um cheiro familiar e reconfortante. Rafael sentou-se ao seu lado, o silêncio entre eles carregado de promessas não ditas. O motorista, um homem corpulento de poucas palavras, deu partida no carro, e eles deixaram o armazém para trás, a fumaça se dissipando no ar, levando consigo os restos de uma noite de horror e o início de uma nova era de incertezas. Isabella olhou para trás uma última vez, as lágrimas agora secas em seu rosto, substituídas por uma determinação fria e implacável. O amor entre balas poderia ter custado caro demais, mas o legado, ah, o legado seria dela. E seria defendido com unhas e dentes.

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