Amor entre Balas II

Amor entre Balas II

por Mateus Cardoso

Amor entre Balas II

Autor: Mateus Cardoso

Capítulo 21 — O Fantasma do Passado

O ar na cobertura de Matteo estava pesado, denso como a tempestade que se formava nos arredores de São Paulo. A chuva fina começara a cair, tamborilando nas vidraças como um aviso fúnebre. Isabella, com o vestido de seda azul escuro ainda impecável, apesar do caos silencioso que se instalara na sala, observava o marido. Ele estava parado perto da janela panorâmica, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de linho, o perfil duro contra o céu acinzentado. Era um homem que parecia esculpido na rocha, forte, implacável, e naquele momento, ele era um enigma envolto em uma aura de fúria contida.

"Matteo," a voz dela saiu baixa, hesitante. "O que aconteceu? O que o Vincenzo disse?"

Ele se virou lentamente, e Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Os olhos dele, geralmente tão expressivos, tão cheios de um fogo que a atraía e a assustava, estavam agora como brasas moribundas, sem brilho, mas com um calor perigoso. Havia uma palidez em seu rosto que não condizia com sua habitual tez bronzeada.

"Vincenzo disse que… que ele me viu," Matteo respondeu, a voz rouca, quase inaudível. Ele deu um passo em direção a ela, e Isabella sentiu o aperto no peito aumentar. "Ele disse que me viu em Nápoles. Há vinte anos."

Isabella piscou, confusa. "Vinte anos? Mas você… você nunca esteve em Nápoles, Matteo. Você sempre disse que sua família veio do sul, mas nunca mencionou Nápoles especificamente. E por que isso o deixaria tão…" Ela procurou a palavra certa, mas tudo o que conseguia pensar era "desesperado".

Matteo soltou uma risada seca, sem humor. "Sim, Isabella. Eu nunca estive em Nápoles. Pelo menos, não como Matteo Rossi, o homem que você conhece." Ele esfregou a têmpora, como se tentasse afastar uma dor de cabeça lancinante. "Há vinte anos, eu era outra pessoa. Uma pessoa que eu tentei enterrar tão fundo que quase acreditei que tinha conseguido."

O silêncio voltou a se instalar, preenchido apenas pelo som da chuva e pelos batimentos acelerados do coração de Isabella. Ela se aproximou dele, um passo hesitante de cada vez, seus olhos fixos em seu rosto, tentando decifrar as sombras que dançavam ali.

"Quem era você, Matteo?" a pergunta era um sussurro, carregado de uma urgência que ela não conseguia conter.

Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo de forma irregular. "Eu era… um garoto. Sem nome, sem sobrenome. Um órfão nas ruas de Nápoles. E eu era… um peão."

O termo "peão" ecoou na mente de Isabella. Era a linguagem que eles usavam em seus negócios. Um peão em um jogo de xadrez mortal.

"Um peão de quem?" ela perguntou, a voz agora firme, apesar do tremor nas mãos.

Matteo a encarou, e havia uma dor profunda em seu olhar que a fez querer abraçá-lo, protegê-lo, mas algo o impedia. Ele parecia se afastar dela, mesmo estando tão perto.

"Da família Moretti," ele disse, o nome saindo como uma maldição. "A mesma família que agora está tentando nos destruir. A mesma família da qual eu fugi."

A revelação caiu sobre Isabella como uma bigorna. Os Moretti. Ela os conhecia de nome, eram rivais ferozes da família de Matteo, envolvidos em todos os tipos de negócios escusos que ela preferia não pensar. Mas que Matteo, o império que ele construíra, pudesse ter raízes ali… era inimaginável.

"Você fugiu?", ela repetiu, ainda tentando processar a informação. "Por quê? O que aconteceu?"

Matteo se afastou dela, andando de um lado para o outro na sala, a angústia visível em cada movimento. "Eu era apenas um garoto de rua, Isabella. Um garoto que foi pego no meio de uma guerra de gangues. Os Moretti me viram… potencial. Eles me ensinaram. Me fizeram parte deles. Mas eu nunca quis aquilo. Eu vi o que eles faziam. Eu vi a crueldade. E eu não queria ser aquilo."

Ele parou, olhando para as próprias mãos como se fossem as mãos de um estranho. "Houve… um incidente. Algo que eu fiz. Algo que eu não posso esquecer. Algo que me fez prometer a mim mesmo que nunca mais seria um peão. Que eu seria o mestre do meu próprio destino."

O olhar dele encontrou o dela novamente, e desta vez havia uma resolução sombria em seus olhos. "Eu fugi. Deixei tudo para trás. Mudei meu nome, minha vida. Construí tudo do zero. Tentei apagar o passado. Mas o passado, Isabella… ele tem dentes afiados."

Isabella se aproximou dele novamente, desta vez sem hesitação. Ela colocou as mãos em seu peito, sentindo o coração bater forte sob o tecido caro. "Mas se Vincenzo o reconheceu, por que ele não disse nada antes? Por que agora?"

Matteo apertou as mãos dela, os dedos dele frios contra a pele quente dela. "Porque agora ele tem uma vantagem. Agora ele sabe que eu tenho algo a perder. E ele sabe que eu sou a cabeça da família Rossi. E ele sabe… que eu não posso me dar ao luxo de ser exposto."

A implicação era clara. Os Moretti poderiam usar esse conhecimento para chantageá-lo, para destruí-lo, para atingir tudo o que ele construíra. E, por extensão, atingir Isabella.

"E o que Vincenzo quer?", ela perguntou, a voz embargada.

Matteo a puxou para perto, abraçando-a com força, como se pudesse se proteger dela e protegê-la dele. "Ele quer tudo. Ele quer o império Rossi. Ele quer me ver cair."

O abraço era apertado, quase sufocante, mas Isabella não se afastou. Ela sentiu o tremor dele, a tensão em seus ombros. Pela primeira vez desde que o conheceu, ela sentiu a fragilidade por trás da fachada de aço.

"E você não vai deixar", ela disse, sua voz firme contra o peito dele. "Você não vai deixar que ele te destrua. Você construiu tudo isso. Você é forte."

Ele a afastou um pouco, o rosto a centímetros do dela, os olhos buscando os dela em busca de algo. "Eu não sou apenas eu, Isabella. Agora temos você. Temos o nosso futuro."

As palavras dele eram um misto de declaração de amor e uma promessa de proteção. E Isabella sabia, com uma clareza dolorosa, que o jogo havia mudado. O passado de Matteo não era apenas uma sombra, era uma ameaça real, e ela estava agora no centro dela.

"Eu sei", ela respondeu, o coração batendo forte. "E nós vamos enfrentar isso juntos."

Matteo a beijou, um beijo intenso e desesperado, um beijo que dizia tudo o que as palavras não podiam. Era um beijo de amor, de proteção, mas também de um medo profundo. A chuva continuava a cair lá fora, lavando a cidade, mas em seus corações, as tempestades estavam apenas começando.

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