Amor entre Balas II
Capítulo 22 — A Teia dos Moretti
por Mateus Cardoso
Capítulo 22 — A Teia dos Moretti
O salão de baile da mansão dos Rossi, geralmente um palco de celebrações e demonstrações de poder, estava tenso. As luzes cintilantes dos lustres de cristal pareciam zombar da escuridão que pairava sobre a família. Matteo, com uma postura mais ereta do que nunca, mas com os olhos de quem carregava o peso do mundo, recebia os convidados. Isabella estava ao seu lado, linda em um vestido de esmeralda que parecia refletir a gravidade da situação. Cada sorriso forçado, cada aperto de mão, era uma batalha silenciosa.
"Eles sabem, Isabella", Matteo sussurrou para ela, a voz baixa o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir, enquanto um influente político do partido se despedia. "Vincenzo não perderia tempo."
O convite para o evento, uma recepção "informal" para mostrar a unidade da família Rossi após as recentes "turbulências" – um eufemismo para os ataques orquestrados pelos Moretti – era uma tática de Matteo. Ele precisava mostrar força, unidade, e principalmente, que não seria abalado. Mas a cada rosto familiar, Isabella sentia uma pontada de apreensão. Quem eram os verdadeiros aliados? Quem estaria apenas esperando a oportunidade para se voltar contra eles?
"Como eles sabem?", Isabella perguntou de volta, ajustando um broche em seu vestido. Seus olhos varriam a multidão, tentando identificar qualquer sinal de desconforto, qualquer olhar furtivo.
"Vincenzo tem informantes em todos os lugares", Matteo respondeu, o maxilar apertado. "Ele deve ter alguém dentro do nosso círculo, ou alguém próximo a alguém do nosso círculo. A informação de que eu estive em Nápoles… ele deve ter obtido isso de fontes antigas, talvez de pessoas que ainda têm alguma ligação com a família Moretti. Ele está cavando no meu passado, Isabella, e encontrou um tesouro."
Um homem corpulento, com um terno impecável e um sorriso oleoso, aproximou-se deles. Era o Sr. Bianchi, um dos principais distribuidores de mercadorias da família Rossi.
"Matteo, meu amigo!", Bianchi exclamou, estendendo a mão. "Que bom vê-lo em plena forma! Essas boatos são apenas vento. A família Rossi sempre saiu mais forte de qualquer adversidade."
Matteo apertou a mão de Bianchi, um aperto firme, mas sem calor. "Agradeço suas palavras, Bianchi. A união faz a força." Seus olhos, porém, não deixavam a expressão calculista do distribuidor.
Isabella notou um leve tremor na mão de Bianchi ao se despedir dela. Um detalhe insignificante, mas que a fez arquivar o homem em sua mente. Havia algo em Bianchi que não a agradava. Uma certa… subserviência disfarçada de lealdade.
"Ele parece muito… leal", Isabella comentou mais tarde, quando estavam a sós em seu escritório. A atmosfera era de alívio por terem escapado momentaneamente do palco social.
Matteo deu um sorriso amargo. "Bianchi é um sobrevivente. Ele está com quem tem mais a oferecer. E por enquanto, sou eu." Ele se sentou em sua poltrona de couro, um copo de uísque em mãos. "Mas Vincenzo é astuto. Ele não atacaria diretamente sem uma base sólida. Ele está tentando me isolar, me fragilizar."
"E se ele conseguir?", Isabella perguntou, sentando-se na beirada da mesa de Matteo. O som da chuva ainda era presente, mas agora parecia mais um fundo sonoro para os seus pensamentos sombrios.
"Ele não vai", Matteo afirmou, mas a convicção em sua voz era tingida de uma preocupação que ele não conseguia esconder completamente. "Eu construí este império sobre alicerces mais fortes do que o passado. Mas ele vai explorar cada brecha. Ele vai usar o medo. E ele vai usar as pessoas."
Ele se levantou e caminhou até a janela, observando a chuva incessante. "Vincenzo Moretti não é apenas um criminoso. Ele é um manipulador. Ele sabe como jogar com as fraquezas humanas. E o meu passado… é a minha maior fraqueza agora."
"Mas você não é mais aquele garoto", Isabella disse, colocando a mão em seu braço. "Você é Matteo Rossi. Você é um líder. Você é um homem que eu amo."
Ele a olhou, e naquele olhar, Isabella viu o reflexo da sua própria força. "E você é a minha razão para lutar com ainda mais afinco", ele respondeu. "Eu não posso falhar por mim. Mas eu não posso falhar por você."
De repente, o interfone tocou, quebrando a intimidade do momento. Era Marco, o chefe de segurança de Matteo. Sua voz estava tensa.
"Patrão, temos um problema. Um dos nossos homens foi encontrado… morto. Perto do distrito industrial. Ele estava com informações sobre os carregamentos dos Moretti."
Matteo se virou abruptamente, o uísque esquecido. "Morto? Quem era ele?"
"Luigi. Ele trabalhava na logística. Tinha acesso a muita coisa."
Isabella sentiu o sangue gelar. Luigi. Um homem discreto, mas eficiente, que sempre parecia saber de tudo. Ele era uma das peças importantes no quebra-cabeça logístico de Matteo.
"Vincenzo já mostrou suas cartas", Matteo disse, a voz fria e perigosa. "Ele não vai esperar que eu me desespere. Ele quer que eu saiba que ele está agindo."
"O que fazemos?", Isabella perguntou, a mente já correndo a mil.
"Precisamos de informações. Preciso saber o que Luigi sabia, e como os Moretti o encontraram. Marco", Matteo se dirigiu ao interfone, "encontre quem estava mais próximo de Luigi. Quero saber de todos os seus movimentos nas últimas semanas. E quero reforçar a segurança de todos os nossos homens de confiança. Não podemos nos dar ao luxo de perder mais ninguém."
Ele desligou o interfone e virou-se para Isabella, o olhar sombrio, mas decidido. "Isso não é apenas uma guerra pelo controle. É uma guerra pela nossa vida, Isabella. Vincenzo está tecendo uma teia em torno de nós, e cada fio é uma ameaça."
"E nós vamos cortá-la", Isabella respondeu, a voz firme. Ela se levantou, a resolução em seus olhos espelhando a de Matteo. "Precisamos descobrir quem são os informantes dele. Precisamos antecipar os seus movimentos."
Matteo assentiu, um brilho de admiração em seus olhos. "Marco já está trabalhando nisso. Mas você tem razão. Precisamos de algo mais. Precisamos de uma contraofensiva." Ele se aproximou dela, segurando seu rosto entre as mãos. "Você está disposta a isso, Isabella? A entrar de cabeça nesse jogo sujo?"
Isabella olhou em seus olhos, a intensidade da sua paixão misturada à gravidade da situação. Ela não era mais a mulher que esperava à sombra. Ela era a parceira de Matteo Rossi, e se ele estava na linha de frente, ela estaria ao seu lado.
"Estou", ela disse sem hesitar. "Eu não tenho medo de Vincenzo Moretti. Eu tenho medo de perdê-lo. E eu não vou deixar que isso aconteça."
Matteo a beijou, um beijo que selou a aliança deles. Era um beijo de amor, mas também de guerra. Naquela noite, a chuva continuou a cair, mas em seus corações, uma nova tempestade de determinação e coragem começava a se formar.