O Chefe da Máfia III
Mateus Cardoso
por Mateus Cardoso
Mateus Cardoso
O Chefe da Máfia III
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Capítulo 16 — A Fúria Incontrolável
O ar na mansão dos Falcone estava pesado, carregado com a tensão de uma tempestade prestes a desabar. As paredes outrora imponentes e cheias de vida agora pareciam sufocar os habitantes, abafando qualquer resquício de alegria ou esperança. Marco, o patriarca, sentia o peso de cada palavra dita, de cada olhar trocado, como se fossem pedras a se acumularem sobre seu peito. A revelação sobre a traição de seu próprio sangue, de seu irmão mais novo, Enzo, o atingira com a força de um punhal cravado em seu coração. Não era apenas a perda de um aliado, mas a quebra de um pacto de lealdade que transcendia o mundo dos negócios ilícitos, algo que se enraizou em sua alma desde a infância.
Ele se levantou da poltrona de couro negro, seus músculos tensos, os punhos cerrados. A sala de estar, antes um santuário de poder e estratégia, agora parecia pequena demais para conter a fúria que borbulhava dentro dele. As brasas na lareira crepitavam, lançando sombras dançantes que distorciam os contornos dos móveis caros, como se a própria casa compartilhasse de sua angústia.
“Enzo…” A voz de Marco saiu rouca, um sussurro carregado de mágoa e incredulidade. “Como pôde?”
Sofia, sua esposa, permanecia em silêncio, os olhos marejados, a mão apertando o lenço de seda contra os lábios. Ela sentia a dor do marido, mas também um medo gélido se instalando em seu estômago. Sabia que a raiva de Marco era um vulcão adormecido, e agora, a lava começava a subir.
“Não há desculpas, Marco,” a voz de Isabella, a filha mais velha, soou firme, mas com um tremor subjacente. Ela estava de pé, de frente para a lareira, o corpo rígido, as mãos finas entrelaçadas. “Ele nos traiu. A todos nós.”
Marco virou-se abruptamente, encarando a filha. Seus olhos, geralmente penetrantes e calculistas, agora ardiam com uma fúria que a assustou. “Traiu? Isabella, ele não apenas nos traiu. Ele comprometeu tudo o que construímos! A segurança da família! A nossa própria vida!”
Um silêncio denso se instalou, quebrado apenas pelo tique-taque incessante de um relógio antigo na parede. Marco deu um passo à frente, sua sombra projetada na parede parecendo um monstro.
“Ele achou que poderia jogar dos dois lados,” Marco rosnou, a voz baixa e perigosa. “Que poderia nos vender para aqueles ratos dos Moretti e ainda sair ileso. Que ingênuo.”
Sofia deu um passo hesitante em direção ao marido. “Marco, por favor. Precisamos pensar com clareza. Não podemos agir impulsivamente.”
Marco riu, um som seco e sem alegria. “Impulsividade? Sofia, este não é um momento para sutilezas. Este é um momento para mostrar quem manda. Para que ninguém mais pense em nos desrespeitar ou nos trair.”
Ele caminhou até a mesa de bebidas, serviu-se de um uísque forte, o líquido âmbar brilhando sob a luz fraca. Bebeu um gole generoso, o fogo descendo por sua garganta.
“Os Moretti…” Marco cuspiu o nome como se fosse veneno. “Eles se acham os donos desta cidade. Sempre tentaram. E agora, Enzo lhes deu a chance que tanto queriam. Acha que eles nos deixarão em paz depois disso?”
Isabella franziu a testa. “O que pretende fazer, pai?”
Marco colocou o copo na mesa com um baque. “O que precisa ser feito. Enzo pagará. Os Moretti pagarão. E ninguém, absolutamente ninguém, vai se esquecer do preço de se voltar contra os Falcone.”
Ele se aproximou da janela, olhando para a noite escura que envolvia a cidade. As luzes distantes pareciam zombar dele, cada ponto luminoso representando um inimigo, um traidor, um desafio.
“Eu construí este império com suor, sangue e sacrifício,” Marco murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. “Não vou permitir que um verme como Enzo o destrua por dentro. E os Moretti não vão dar o golpe de misericórdia.”
Ele se virou, os olhos fixos em Isabella. “Chame Alessia. Quero que ela prepare a equipe. Temos trabalho a fazer.”
Alessia, a chefe de segurança leal e implacável dos Falcone, era a extensão da vontade de Marco. Uma mulher de poucas palavras, mas de ação decisiva. Isabella assentiu, um nó na garganta. Sabia o que aquilo significava. O perdão não era uma opção.
Sofia agarrou o braço de Marco. “Marco, pense nas consequências! A polícia…”
“A polícia faz vista grossa para o que nos convém,” Marco interrompeu, sua voz carregada de desprezo. “E para o que não nos convém, eles não ousarão chegar perto. Nós somos os Falcone. E ninguém mexe impunemente com os Falcone.”
Ele se virou para sair da sala, seu passo firme e determinado. Isabella e Sofia se entreolharam, a apreensão estampada em seus rostos. A fúria de Marco era um vendaval, e elas sentiam que seriam apanhadas em sua trajetória destrutiva.
“Vamos acabar com isso,” Marco declarou, sua voz ecoando nos corredores silenciosos. “De uma vez por todas.”
Enquanto Marco se dirigia para seu escritório, a mente já traçando planos sombrios, uma sensação de desespero tomou conta de Sofia. Aquele não era o homem que ela amava, não o homem que construíra um império com inteligência e cautela. Era um vulcão prestes a explodir, e o mundo, mais uma vez, sentiria os tremores.
Marco entrou em seu escritório, a porta se fechando com um clique definitivo. O ambiente era impecável, organizado, mas agora, parecia um campo de batalha em potencial. Ele foi até a mesa, seus dedos deslizando sobre os papéis que antes representavam a prosperidade e o poder. Agora, eram apenas lembretes de uma ferida profunda.
Ele pegou um pequeno objeto de prata sobre a mesa, um isqueiro antigo que pertencia a seu pai. Acendeu-o, a chama dançando. Olhou para a chama por um longo momento, como se pudesse encontrar nela a resposta para tudo.
“Enzo… Você me fez fazer isso,” Marco sussurrou, a voz embargada. “Você me forçou a ser o monstro que eu tento, em vão, não ser.”
Ele apagou o isqueiro, mas a chama em seus olhos permaneceu. Uma chama de determinação, de vingança, de um amor distorcido que se transformava em ódio. Ele pegou o telefone, discando um número que sabia de cor.
“Alessia,” ele disse, a voz fria e sem emoção. “Prepare todos os ativos. Quero o Enzo localizado e contido. E os Moretti… Quero que eles sintam o nosso poder. De uma forma que eles jamais esqueçam.”
A resposta do outro lado foi um simples e eficiente “Sim, Senhor.”
Marco desligou o telefone. Ele sabia que a noite seria longa. E que as consequências de seus atos seriam sentidas por todos, inclusive por ele mesmo. Mas naquele momento, a única coisa que o impulsionava era a necessidade de restaurar a ordem, a honra, e a supremacia dos Falcone. Uma supremacia que Enzo, em sua loucura, ousara desafiar. A fúria incontrolável de Marco Falcone estava prestes a se manifestar, e a cidade de São Paulo tremeria com seus ecos.