O Chefe da Máfia III
Capítulo 7 — A Rede de Mentiras se Apertando
por Mateus Cardoso
Capítulo 7 — A Rede de Mentiras se Apertando
A fuga de Isabella pela noite carioca foi um borrão de desespero e adrenalina. As ruas, antes um cenário familiar e reconfortante, agora pareciam um labirinto hostil. Cada sombra parecia esconder um perigo, cada sirene distante soava como um prenúncio de sua captura. Ela corria sem rumo, o coração martelando no peito como um tambor de guerra, o ar rarefeito queimando seus pulmões. O peso da traição, da verdade avassaladora sobre Dante, era quase insuportável. A carta, a fotografia, os recortes de jornal – tudo se misturava em sua mente em um turbilhão de dor e confusão.
Ela sabia que não podia voltar para casa. Sabia que Dante a encontraria, que seus homens a trariam de volta, seja para puni-la ou para silenciá-la. A imagem de seus pais, antes um refúgio de saudade, agora era um gatilho para uma dor aguda, uma perda que Dante havia orquestrado.
Enquanto corria por um beco escuro, tropeçou em uma lata de lixo, caindo de joelhos no asfalto sujo. Um gemido de dor escapou de seus lábios, mas o medo a impulsionou a se levantar rapidamente. Precisava de um lugar para se esconder, um lugar seguro. Mas onde, em um mundo dominado pela influência de Dante, ela poderia encontrar refúgio?
Sua mente correu pelos rostos que conhecia. Havia o Giovanni, o braço direito de Dante, leal e perigoso. Havia a Sofia, a amiga fiel, mas que também dependia de Dante para sua própria segurança. E havia o Dr. Almeida, o médico da família, um homem íntegro, mas idoso e aparentemente inofensivo. Seria ele uma opção?
Lembrou-se de uma conversa casual com Sofia meses atrás, sobre um antigo colega de faculdade dela, que se tornou um advogado criminalista renomado. Um homem conhecido por defender casos difíceis, por sua sagacidade e por um certo idealismo. O nome dele era Lucas Rocha. Seria ele o único a quem ela poderia recorrer?
Com os poucos trocados que tinha na carteira, conseguiu pegar um táxi. As ruas ainda estavam movimentadas, mas a madrugada avançava e a cidade começava a adormecer. Isabella pediu ao motorista que a levasse para um endereço em um bairro mais afastado, um lugar que Dante não frequentava, um lugar onde ele talvez não tivesse olhos e ouvidos. O escritório de Lucas Rocha.
Ao chegar, a fachada do prédio era discreta, sem ostentações. O portão estava fechado, mas a luz fraca do poste iluminava uma pequena placa com o nome do advogado. Ela desceu do carro, o corpo dolorido pela corrida e pela queda, a mente exausta pela tensão. Bateu na porta de vidro com os nós dos dedos, o som abafado ressoando no silêncio da rua.
Para sua surpresa, a porta se abriu alguns segundos depois, revelando um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos nas têmporas e um olhar cansado, mas perspicaz. Era Lucas Rocha.
"Posso ajudá-la?", ele perguntou, a voz rouca de sono.
Isabella o encarou, as lágrimas voltando a brotar. "Senhor Rocha? Eu sou Isabella Rossi. Eu preciso da sua ajuda. É uma questão de vida ou morte."
Lucas a observou por um momento, notando a aflição em seus olhos, a roupa amarrotada, o ar de quem estava fugindo. Algo em sua expressão a convenceu. Ele abriu a porta mais. "Entre, por favor. O que está acontecendo?"
Enquanto Isabella contava sua história, a voz embargada pelo choro, o advogado ouvia com atenção. Ela hesitou em revelar todos os detalhes sobre Dante, temendo que ele pudesse se assustar com o nome do poderoso chefe da máfia. Mas a urgência da situação a forçou a ser o mais transparente possível. Ela falou sobre a fotografia, sobre a carta, sobre a sensação de ter sido usada.
Lucas a ouviu pacientemente, sua expressão se tornando cada vez mais séria. Ele sabia quem era Dante. Todos no Rio de Janeiro sabiam. Era um homem a quem se devia respeito e, acima de tudo, medo. Mas ele também via a sinceridade e o desespero nos olhos de Isabella. Ele viu uma mulher em apuros, uma vítima de um jogo cruel.
"Isabella", ele disse, após um longo silêncio. "O que você está me contando é extremamente grave. Envolve o homem mais poderoso e perigoso do país. O risco para nós dois é imenso."
"Eu sei", ela sussurrou. "Mas eu não tenho mais para onde ir. Ele vai me encontrar. Ele vai me machucar."
Lucas suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele podia sentir o peso da decisão. Ajudar Isabella significava entrar em confronto direto com Dante. Significava colocar sua carreira, sua vida, em perigo. Mas ele era um homem de princípios. E os princípios, às vezes, exigiam sacrifícios.
"Você tem provas?", ele perguntou, o olhar fixo no dela. "A fotografia, a carta... você as trouxe?"
Isabella balançou a cabeça. "Eu deixei cair quando fugi do escritório dele. Mas eu me lembro de tudo que estava escrito."
"Isso pode ser um problema", Lucas ponderou. "Sem provas concretas, será difícil confrontá-lo. Mas não impossível. Precisaremos ser muito cuidadosos." Ele se levantou e começou a andar pela sala. "Primeiro, precisamos de um lugar seguro para você. Alguém em quem você confie implicitamente? Alguém que Dante não possa alcançar?"
Isabella pensou. Sua família em São Paulo estava longe, e mesmo assim, Dante tinha alcance. Seus amigos mais próximos estavam, em sua maioria, ligados de alguma forma ao mundo de Dante. A única pessoa que lhe ocorreu foi uma antiga babá, Dona Lurdes, que morava em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais. Uma mulher simples, mas de coração puro, que a amava como a uma neta.
"Minha antiga babá", Isabella disse, com um fio de esperança na voz. "Dona Lurdes. Ela mora em uma cidade pequena, distante daqui. Dante nunca a veria como uma ameaça."
"É uma boa ideia", Lucas concordou. "Precisaremos organizar sua viagem discretamente. E você precisará se manter em silêncio absoluto. Ninguém deve saber onde você está. E, Isabella...", ele a olhou com seriedade, "você precisará ser forte. Enfrentaremos o homem mais temido do Brasil. Não haverá espaço para hesitação."
Enquanto o sol começava a despontar no horizonte, pintando o céu de tons alaranjados e rosados, Isabella sentiu um misto de alívio e apreensão. Ela havia dado o primeiro passo para se livrar das garras de Dante. Mas a rede de mentiras e poder que ele construíra era vasta e perigosa. A batalha pela sua liberdade e pela verdade sobre o passado estava apenas começando. E Lucas Rocha, o advogado idealista, acabara de se tornar seu único aliado em um mundo de sombras.