Amor entre Balas III

Romance: Amor entre Balas III

por Mateus Cardoso

Romance: Amor entre Balas III Autor: Mateus Cardoso

Capítulo 11 — A Teia Se Aperta

A noite em São Paulo parecia ter um fôlego próprio, um pulso acelerado que ecoava as batidas frenéticas de meu coração. O ar, pesado com a umidade e o cheiro de concreto molhado após a chuva fina que caíra horas antes, parecia sufocar. Eu estava no topo do terraço de um prédio abandonado na Zona Leste, um lugar que antes servia de esconderijo para almas perdidas e que agora, ironicamente, se tornara meu refúgio. Abaixo, as luzes da cidade cintilavam como um mar de diamantes espalhados sobre um veludo escuro, uma beleza cruel que contrastava com a escuridão que me consumia.

Há semanas que o sono se tornara um luxo esquecido. Cada sombra parecia carregar um vulto, cada rangido de porta, um prenúncio de perigo. O atentado contra o meu pai, o atentado que quase me levou junto, deixara marcas profundas, não apenas físicas, mas na alma. E o pior: as suspeitas que pairavam no ar, as sussurros perigosos dentro da própria famiglia, eram um veneno lento e doloroso.

Ele chegou em silêncio, como sempre. A figura esguia de Rafael, o homem que se tornara meu braço direito, meu confidente e, de forma perigosa, meu anjo da guarda. Seus passos eram leves no concreto rachado, quase inaudíveis, mas eu o senti antes mesmo de vê-lo.

“Sem sono, Don Rafael?” Sua voz era um murmúrio rouco, quase uma pergunta retórica.

Virei-me, os olhos cansados fixando-se nos dele. Rafael tinha a serenidade de quem já vira o inferno e voltara, as cicatrizes escondidas sob a pele impecável e o olhar que parecia ler os pensamentos mais sombrios.

“O sono é para os que têm paz, Rafael. E a paz, meu amigo, parece ter nos abandonado há muito tempo.” Respirei fundo, o ar frio pinicando meus pulmões. “Alguma novidade sobre o ataque?”

Ele balançou a cabeça negativamente, o rosto impassível, mas seus olhos carregavam uma centelha de algo que não consegui decifrar. “Nada concreto. A polícia está investigando, mas é a nossa palavra contra a deles. E, como sabemos, a nossa palavra nem sempre vale o que deveria.”

“Mas você acha que foi alguém de dentro, não é?” Minha voz baixou, tensa. A desconfiança corroía tudo.

Rafael hesitou por um instante. “Os sinais são fortes, Don Rafael. A precisão do ataque, o conhecimento das nossas rotas de fuga, a ousadia de atingir um alvo tão próximo ao coração da famiglia… Isso não é trabalho de amadores.”

“E quem teria o conhecimento? Quem teria a coragem?” Fui até a beirada do terraço, observando as luzes distantes. O peso do império que meu pai construíra, e que agora ameaçava desmoronar sob meus pés, era esmagador. “Thiago? Ou talvez… alguém do conselho?”

O nome de Thiago, meu tio, pairava como uma nuvem negra. Ele sempre fora ambicioso, sempre sentira a necessidade de provar seu valor, de ocupar o espaço que, em sua mente doentia, lhe fora negado. Mas um ataque direto ao meu pai? Parecia audacioso demais, até para ele.

“Thiago tem motivos, sim. Mas a frieza… a frieza me incomoda. Pareceu mais… estratégico. Uma jogada de xadrez, não um ataque de raiva.” Rafael se aproximou, sua voz baixa e intensa. “E o conselho… eles nos observam, Don Rafael. Observam cada movimento. Se eles sentirem que a liderança está enfraquecida, alguns não hesitarão em dar o bote.”

Um arrepio percorreu minha espinha. A lealdade era uma moeda rara no nosso mundo, e o medo, um catalisador poderoso para a traição.

“Precisamos de provas, Rafael. Provas irrefutáveis. Algo que possamos usar contra quem quer que esteja tramando isso.” Olhei para ele, buscando um fio de esperança em seus olhos. “Você investigou as finanças? Algum movimento estranho, alguma conta secreta que possa ligar alguém a esse ataque?”

Rafael assentiu. “Estive ocupado com isso. Há… algo. Uma série de transações incomuns nos últimos meses, desviando fundos para uma offshore nas Ilhas Cayman. Os valores são altos, mas os nomes por trás são ainda mais preocupantes.”

Meu olhar se fixou nele. “Quem?”

“Nomes de baixo escalão, para não levantar suspeitas. Mas um deles… um dos contatos… tem ligações tênues com alguém… bem mais acima.”

“Diga o nome, Rafael.” Meu tom era firme, quase um comando.

Ele respirou fundo. “Luizinho. O pequeno Luizinho. Aquele que trabalha no armazém da Zona Portuária. Pensei que fosse um peixe pequeno, mas ele parece ter sido a ponte para algo maior. E as transações… os valores batem com os gastos que teríamos para contratar mercenários de fora.”

Luizinho. O garoto que parecia tão inofensivo, tão leal, sempre com um sorriso no rosto e uma disposição incomum para ajudar. A ideia de ele estar envolvido em algo tão nefasto era nauseante. Mas a teoria de Rafael fazia sentido. Contratar mercenários de fora seria uma forma de mascarar a origem do ataque, de desviar as suspeitas para um inimigo externo.

“Mercenários de fora… Isso explicaria a habilidade, a falta de reconhecimento.” Murmurei para mim mesmo. “Quem teria acesso a esse tipo de pessoal? Quem teria os contatos e o dinheiro para pagar por um serviço tão… discreto?”

“Alguém que não quer ser visto, Don Rafael. Alguém que prefere que a sujeira seja feita por mãos alheias.” Rafael fez uma pausa. “Precisamos pressionar Luizinho. Descobrir quem o contratou.”

“E como faremos isso sem levantar suspeitas? Se ele for apenas um peão, o rei pode se assustar.”

“Eu tenho um plano.” Rafael sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. Era um sorriso de predador, e naquele momento, eu me senti aliviado por tê-lo ao meu lado. “Não podemos ir atrás dele diretamente. Mas podemos… atraí-lo.”

A teia se apertava, e eu sentia os fios invisíveis nos prendendo. O ataque ao meu pai não fora apenas um ataque à minha família, fora um ataque à nossa própria existência. E eu jurava, ali, no topo daquele prédio esquecido, sob o céu cinzento de São Paulo, que encontraria o responsável e faria com que pagasse, não com balas, mas com a mesma dor e o mesmo desespero que sentíamos agora. A vingança seria doce, mas a justiça… a justiça seria implacável.

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