Amor entre Balas III
Capítulo 19 — O Preço da Vingança
por Mateus Cardoso
Capítulo 19 — O Preço da Vingança
O vento uivava pelas ruas de São Paulo, um lamento frio que parecia prenunciar a tempestade que Dante estava prestes a desencadear. O galpão, antes um centro de operações, agora era um túmulo silencioso, o cheiro de morte e pólvora ainda pairando no ar, um lembrete sombrio da noite anterior. Dante estava ali, sozinho, em meio aos escombros e aos corpos dos homens que ousaram traí-lo. Seus olhos escuros, antes cheios de um fogo controlado, agora queimavam com a chama voraz da vingança.
Angelo. O nome ecoava em sua mente, um veneno que ele desejava extirpar completamente. A traição de Angelo não era apenas um ataque aos seus negócios, era um ataque à sua honra, à família que ele lutou para construir. E Dante não era um homem que deixava pontas soltas.
Seus homens estavam nas ruas, vasculhando cada beco, cada antro de perdidos, seguindo cada pista, cada sussurro. A caçada a Angelo havia se tornado uma obsessão, um imperativo moral. Ele não podia descansar, não podia dormir, até que Angelo estivesse em suas mãos, pagando pelo preço de sua audácia.
Isabella estava em casa, em seu apartamento, tentando manter a normalidade em meio ao caos. Mas a cada toque do telefone, a cada batida na porta, seu coração acelerava. Ela sabia que Dante estava em perigo, que a guerra estava se intensificando. E, apesar de seus medos, ela sentia um desejo crescente de estar ao lado dele, de compartilhar o fardo, de ser mais do que apenas a mulher que ele protegia.
Ela se lembrou das palavras do intruso em seu apartamento. “O homem que o ama… vai acabar te entregando.” Aquelas palavras eram como um veneno em sua mente, semeando a dúvida. Era possível que a lealdade de Dante tivesse um preço que ela não estava disposta a pagar? Era possível que seu amor por ele a colocasse em uma posição onde ela tivesse que fazer uma escolha impossível?
Enquanto pensava nisso, o celular tocou. Era Dante. A voz dele, embora um pouco rouca, trazia um alívio imediato.
“Bella, estou bem. Encontrei um contato. Ele sabe onde Angelo está se escondendo.”
“Onde?”, Isabella perguntou, a voz cheia de apreensão.
“Em um antigo armazém na zona portuária. Ele acha que está seguro, mas está enganado.” A voz de Dante se tornou mais fria, carregada de uma determinação implacável. “Eu estou indo para lá agora. Fique onde está. Não saia por nada.”
“Dante, não vá sozinho!”, Isabella implorou. “Deixe que seus homens o acompanhem.”
“É melhor que eu vá sozinho, Bella. Para resolver isso de uma vez por todas. Sem testemunhas, sem complicações.” Havia um tom final em sua voz que a fez tremer. Ele estava prestes a cometer um ato de vingança que poderia mudar tudo.
“Por favor, tenha cuidado”, ela sussurrou, as lágrimas brotando em seus olhos.
“Sempre”, ele respondeu, antes de desligar.
O armazém na zona portuária era um lugar desolado, um labirinto de contêineres enferrujados e sombras profundas. O cheiro salgado do mar misturava-se ao odor metálico de abandono. Dante avançou com cautela, seus sentidos aguçados, cada movimento calculado. Ele não estava ali para negociar. Estava ali para cobrar uma dívida de sangue.
Ele encontrou Angelo em uma sala nos fundos do armazém, cercado por alguns de seus homens mais leais, mas visivelmente assustados. Angelo, antes o braço direito de Dante, agora parecia um rato encurralado, o medo estampando seu rosto pálido.
“Dante…”, Angelo murmurou, a voz trêmula. “Eu… eu posso explicar.”
Dante riu, um som seco e sem humor. “Explicar o quê, Angelo? Explicar como você tentou me matar? Explicar como você traiu a única pessoa que te deu uma chance?”
“Eu não tive escolha!”, Angelo implorou, dando um passo hesitante para trás. “Eles me pressionaram. Eles prometeram me dar tudo o que você tem.”
“E você acreditou neles?”, Dante questionou, seus olhos fixos nos de Angelo. “Você achou que eles te ajudariam? Eles só te usaram, Angelo. E agora, você é apenas um estorvo para eles.”
Os homens de Angelo começaram a se mover, seus olhares inquietos. Eles sabiam que estavam encurralados, que a situação era desesperadora.
“Não faça isso, Dante”, Angelo implorou. “Podemos voltar. Podemos fazer as pazes.”
“Paz?”, Dante repetiu, a voz carregada de desprezo. “Você não sabe o que é paz, Angelo. Você só conhece a traição. E a traição tem um preço.”
Dante ergueu a arma, o metal frio brilhando na penumbra. Os homens de Angelo se prepararam para lutar, mas era tarde demais. Dante era mais rápido. A primeira bala atingiu um dos homens, derrubando-o com um grito. A segunda atingiu outro. O armazém se encheu de tiros, um caos ensurdecedor.
Angelo, paralisado pelo medo, viu seus homens caírem um a um. Ele se virou para fugir, mas Dante já estava em seu caminho. Em um movimento rápido, Dante desarmou Angelo e o jogou contra o chão.
“Você me traiu, Angelo”, Dante disse, a voz baixa e perigosa, ajoelhado sobre ele. “Você se vendeu. E agora, você vai pagar.”
Angelo engasgou, o pânico tomando conta de seus olhos. “Não… Dante, por favor!”
Dante apertou a arma contra a têmpora de Angelo. “Você me tirou tudo o que eu tinha. Agora, eu vou tirar tudo o que você tem.”
E, com um som seco e final, a vingança foi consumada. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de morte e arrependimento. Dante se levantou, o corpo tenso, o olhar vazio. Ele havia feito o que precisava ser feito, mas a satisfação da vingança era amarga, oca.
De volta ao apartamento, Isabella esperava ansiosamente. Cada minuto que passava a deixava mais apreensiva. Ela sabia que Dante estava arriscando tudo. E, se algo acontecesse com ele…
O som da porta se abrindo a fez sobressaltar. Dante entrou, o rosto pálido, os olhos escuros e distantes. Ele estava ferido, um corte profundo no braço, mas parecia mais abatido em espírito do que em corpo.
“Dante!”, Isabella correu para ele, a preocupação transbordando. Ela o abraçou, sentindo a tensão em seus ombros. “Você está bem?”
Ele assentiu fracamente. “Sim. Acabou.”
“O quê… acabou?”, ela perguntou, o coração apertado.
“Angelo. Ele não vai mais nos incomodar.”
Isabella fechou os olhos, um misto de alívio e horror tomando conta dela. Ele havia feito isso. Ele havia matado Angelo. A vingança estava completa, mas a que custo?
Dante a afastou gentilmente, segurando seu rosto. “Eu fiz o que precisava ser feito, Bella. Por nós. Para que pudéssemos ter um futuro.”
Ele a beijou, um beijo que misturava paixão, dor e um profundo cansaço. Isabella retribuiu, sentindo a fragilidade dele, a carga que ele carregava.
“Você está machucado”, ela disse, tocando o corte em seu braço.
“É só um arranhão”, ele respondeu, mas seus olhos diziam outra coisa.
“Dante, o que vai acontecer agora?”, ela perguntou, o medo voltando. “A polícia…”
“Eles vão vir atrás de mim. Eu sei. Mas eu sou mais esperto que eles. E eu tenho você.” Ele a puxou para perto. “E isso é o mais importante.”
Ele a segurou em seus braços, a força dele agora um consolo, um refúgio. Isabella se permitiu relaxar, por um breve instante. Mas, enquanto sentia o batimento cardíaco de Dante contra o seu, ela não conseguia deixar de pensar nas consequências. A vingança poderia ser completa, mas a paz… a paz ainda parecia distante. E a sombra da desconfiança que pairava sobre eles, alimentada pelas palavras de um homem desconhecido, ainda ameaçava consumir o amor que ela sentia por aquele homem perigoso e fascinante que, para protegê-la, estava disposto a cruzar qualquer linha.