Amor entre Balas III
Capítulo 23 — Sussurros na Noite Paulistana
por Mateus Cardoso
Capítulo 23 — Sussurros na Noite Paulistana
O apartamento de Isabella, antes um refúgio de paz, agora parecia um palco de incertezas. A visita de Sofia ecoava em sua mente, cada palavra um prenúncio sombrio. "Pessoas do passado estão voltando." Aquela frase simples carregava o peso de décadas de segredos e conflitos. Isabella sabia que o mundo de Dante era povoado por figuras complexas, marcadas pela violência e pela traição, mas a ideia de que fantasmas antigos estavam ressurgindo, ameaçando o delicado equilíbrio que ele lutava para manter, a apavorava.
Ela se moveu pela sala, os passos hesitantes emoldurando a inquietação que a consumia. O pingente em seu pescoço parecia mais frio contra sua pele, um lembrete constante de Dante e do perigo que o cercava. A última vez que o vira, ele estava marcado pela exaustão, mas sua determinação era inabalável. Agora, as palavras de Sofia sugeriam que essa determinação estava sendo posta à prova de formas que ela sequer podia conceber.
O celular em sua mão vibrou, tirando-a de seus devaneios. Era uma mensagem de texto, curta e enigmática: "Amanhã, à meia-noite. Ponte Estaiada. Sozinha." Sem remetente. Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era Dante? Ou seria uma armadilha? A incerteza era torturante. A decisão de ir era arriscada, mas a necessidade de vê-lo, de saber se ele estava bem, era mais forte.
Ela passou o resto do dia em um turbilhão de emoções. Tentou ligar para Dante, mas o número estava indisponível. O medo a corroía. Se fosse uma armadilha, quem estaria por trás dela? A concorrência? Ou algo mais pessoal, algo ligado àquelas "pessoas do passado" que Sofia mencionara?
Ao anoitecer, Isabella tomou sua decisão. Ela não podia ficar parada, esperando o pior. Ela precisava saber. Vestiu uma roupa discreta, mas elegante, que não chamasse atenção. Um casaco escuro, sapatos confortáveis. Pegou apenas sua bolsa, com o celular e um pequeno objeto que ela guardava para emergências – um spray de pimenta que Dante insistira em dar-lhe meses atrás, uma lembrança de sua preocupação.
A noite paulistana era um espetáculo de luzes e sombras. O tráfego ainda intenso, mas o ar mais fresco, portando o cheiro característico da cidade que misturava poluição, maresia e o aroma de comida de rua. Isabella dirigiu com cuidado, o coração batendo forte no peito a cada curva, a cada farol vermelho. A Ponte Estaiada, imponente e iluminada, se erguia contra o céu estrelado, um farol em meio à vastidão urbana.
Ela estacionou o carro a uma distância segura e caminhou em direção à ponte. O vento soprava forte, agitando seus cabelos. O silêncio era quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo barulho distante dos carros e pelo som das ondas batendo nas margens do rio Tietê. Havia uma solidão melancólica naquele lugar, uma beleza austera que contrastava com a urgência de seu encontro.
De repente, uma figura emergiu das sombras perto de um dos pilares da ponte. Era ele. Dante.
Seu coração disparou. Ele estava mais magro, os olhos fundos, mas a intensidade em seu olhar era a mesma que ela conhecera. A visão dele, ali, em meio à escuridão, a fez sentir um misto de alívio e pavor.
"Dante", ela sussurrou, a voz falhando.
Ele se aproximou, seus passos ecoando no concreto. Não havia um sorriso em seu rosto, apenas a seriedade que a preocupava. "Isabella. Você veio."
"Por que aqui? Por que assim?", ela perguntou, a ansiedade tomando conta.
"Não podíamos nos encontrar em outro lugar. É perigoso demais." Ele segurou seus braços, seus olhos buscando os dela. "Sofia te contou alguma coisa?"
Isabella assentiu. "Ela disse que pessoas do passado estão voltando. Que você está em perigo."
Dante suspirou, um som pesado e cansado. "Não são apenas pessoas, Isabella. São fantasmas. E eles estão mais vivos do que nunca. A morte do meu pai foi apenas o começo. O que está por vir é muito pior."
Ele a puxou para mais perto, seus corpos se tocando em um abraço apertado. Isabella sentiu a tensão em seus músculos, o peso que ele carregava. O cheiro familiar dele, uma mistura de couro e uma fragrância amadeirada, trouxe um conforto momentâneo, mas a realidade da situação a assombrava.
"Quem são eles, Dante?", ela perguntou, a voz abafada contra seu peito.
"Uma velha guarda. Pessoas que achávamos que estavam fora do jogo há anos. Eles não esqueceram. E querem vingança. Querem o que eles acham que lhes é devido." Ele afastou-se ligeiramente, seu olhar fixo em algo além dela, nas sombras da cidade. "Eles estão mirando em mim. Mas o alvo principal... é o que eu construí. E quem eu amo."
As últimas palavras foram ditas com uma gravidade que gelou Isabella até os ossos. Ela sabia que ela estava incluída nesse "quem eu amo".
"O que você quer que eu faça, Dante?", ela perguntou, a voz firme, apesar do medo. Ela não era mais a garota indefesa que ele conhecera. As provações a haviam endurecido.
Ele a olhou com uma intensidade que a fez corar. "Quero que você fique segura. Quero que você se afaste. Mas eu sei que você não vai."
Um sorriso fraco brincou em seus lábios. "E você está certo. Eu não vou."
Dante tocou seu rosto, seus dedos frios contra sua pele. "Eu preciso que você confie em mim, Isabella. Eu vou proteger você. Custe o que custar."
"E eu vou estar ao seu lado", ela respondeu, sem hesitar. "Não importa o que aconteça."
Um silêncio pairou entre eles, preenchido pela imensidão da noite e pela promessa tácita de sua união. A ponte Estaiada, testemunha silenciosa, parecia engolir suas palavras, seus medos e suas esperanças.
"Eu tenho que ir", Dante disse, sua voz tensa. "O tempo está contra nós. Mas nós vamos nos ver de novo. Eu prometo."
Ele lhe deu um beijo rápido, um selo em sua promessa, antes de desaparecer nas sombras tão rapidamente quanto surgiu. Isabella ficou ali, sozinha sob o céu estrelado, o eco de seus passos se perdendo na noite. O encontro fora breve, mas as palavras de Dante e a sombra dos antigos inimigos haviam lançado uma nova e aterrorizante perspectiva sobre o futuro. A batalha de Dante estava apenas começando, e ela sabia, com uma certeza sombria, que não seria uma espectadora. Ela era parte integrante desse turbilhão, e sua própria sobrevivência, assim como a dele, dependia das escolhas que fariam juntos, ou separadamente, nas próximas semanas sombrias.