Seduzida pelo Perigo II

Seduzida pelo Perigo II

por Rodrigo Azevedo

Seduzida pelo Perigo II

Autor: Rodrigo Azevedo

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Capítulo 11 — A Fuga Desesperada

O ar em Milão cheirava a fumaça e a desespero. O barulho dos tiros ainda ecoava nos meus ouvidos, como fantasmas de um passado que eu teimava em reescrever. O corpo de Antonio, meu Antonio, jazia inerte no chão frio daquele armazém. A dor era um punhal cravado no meu peito, dilacerando cada pedaço da minha alma.

Eu o amava. Amava a sua força bruta, o seu olhar que escondia tempestades, a sua proteção feroz. Amava o homem que ele era, mesmo sabendo do mundo em que ele navegava. E agora, tudo isso me era tirado, levado pela violência que um dia jurei combater.

As mãos tremiam enquanto eu pegava a arma que ele, num último gesto, empurrou para perto de mim. Era pesada, fria, um espelho sombrio do destino que nos unira e agora nos separava. A adrenalina corria pelas minhas veias, misturada com o veneno da perda. Precisava sair dali. Precisava sobreviver. Por ele.

“Isabella! Anda!” A voz rouca de Marco me puxou de volta à realidade. Ele estava com a porta do carro aberta, o motor rugindo como um animal selvagem, pronto para nos levar para longe daquele inferno.

Entrei no carro, o cheiro de couro e o perfume de Antonio ainda pairando no ar. Marco acelerou, os pneus cantando no asfalto molhado. Olhei para trás, para o armazém, para o local onde meu coração se partiu. As sirenes já se aproximavam, um coro macabro anunciando o fim de uma era.

“Para onde vamos?”, perguntei, a voz embargada pelo choro que eu lutava para conter.

“Para longe daqui. Para um lugar seguro. Precisamos pensar.” Marco dirigia com uma intensidade que espelhava a minha própria angústia. Ele também havia perdido alguém naquele confronto. Seu irmão, um dos homens de confiança de Antonio, tombara lutando bravamente.

O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo som da respiração ofegante e pelo som do motor. Cada quilômetro percorrido nos afastava de Milão, mas me aproximava de um futuro incerto, sombrio. O luxo de Veneza parecia um sonho distante, uma miragem de um tempo em que a esperança ainda ousava florescer.

Marco parou o carro em um posto de gasolina isolado, no meio do nada. Desligou o motor e virou-se para mim. Seus olhos, normalmente tão firmes, estavam marejados. Ele era um homem de poucas palavras, mas a dor em seu semblante era eloquente.

“Isabella, eu sei que é difícil. Antonio… ele era um homem incrível. Um líder. Mas nós não podemos nos entregar ao desespero. Precisamos ser fortes. Por ele. Por nós.”

Ele segurou minhas mãos, as suas ásperas e calejadas, um contraste com a delicadeza que ele tentava me oferecer. “Temos inimigos. Muitos. Se eles descobrirem que você sobreviveu, ela virão atrás de você.”

As palavras de Marco caíram sobre mim como pedras. Eu sabia que não seria fácil. A vida que eu havia escolhido, ao lado de Antonio, era perigosa. Mas a magnitude da perda era algo que eu não havia previsto.

“Eu não tenho para onde ir, Marco. Tudo o que eu tinha estava com ele.” As lágrimas finalmente caíram, quentes e salgadas, desfazendo a barreira que eu tentei erguer.

Marco me abraçou, um gesto que parecia estranho vindo de um homem tão reservado. “Você tem a mim, Isabella. Eu prometo. Vamos encontrar um lugar, um novo começo. E vamos honrar a memória de Antonio. Vamos fazer com que ele se orgulhe de nós.”

Passamos a noite em um motel barato, o cheiro de mofo e cigarro impregnado nas paredes. Eu mal consegui dormir, as imagens de Milão rodando em minha mente. A cada barulho, meu corpo se encolhia, esperando a próxima ameaça.

Pela manhã, o sol tentava romper as nuvens cinzentas. Marco já estava lá fora, arrumando as poucas coisas que conseguimos salvar. Ele me contou sobre um refúgio seguro, uma casa isolada nas montanhas, longe de olhares curiosos. Um lugar onde poderíamos nos reerguer.

A viagem foi longa e silenciosa. A paisagem mudava gradualmente, as cidades dando lugar a florestas densas e montanhas imponentes. Era como se o mundo estivesse nos engolindo, nos escondendo de tudo e de todos.

Quando finalmente chegamos, a casa era exatamente como Marco descreveu: rústica, mas acolhedora. Um lugar onde o tempo parecia ter parado. Olhei para as montanhas que cercavam a casa, sentindo um misto de alívio e apreensão. Estávamos a salvo, por enquanto. Mas o perigo ainda espreitava nas sombras.

A dor da perda ainda era um fardo pesado, mas a promessa de Marco e a força que ele me transmitia começavam a acender uma pequena chama de esperança. Eu precisava me reerguer. Por Antonio. Por mim. A vingança não era a resposta, mas a sobrevivência era. E eu sobreviveria. Para um dia, talvez, encontrar a paz.

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Capítulo 12 — O Refúgio na Solidão

A casa nas montanhas era um santuário de madeira e pedra, aninhada entre pinheiros altíssimos que sussurravam segredos ao vento. O ar era puro, cortante, um bálsamo para os pulmões feridos pela fumaça e pelo caos de Milão. Marco, com sua habitual discrição, garantiu que tudo estivesse pronto para a nossa estadia: lenha empilhada na lareira, mantimentos básicos na despensa e um silêncio quase absoluto quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelo murmúrio distante de um riacho.

Eu me movia pelos cômodos com a lentidão de quem anda sobre ovos. Cada passo parecia pesar toneladas. A cama de dossel no quarto principal era enorme, um convite ao descanso que eu tanto necessitava, mas meu sono era fragmentado, assombrado por flashes daquele armazém em Milão. O rosto de Antonio, o brilho de seus olhos antes de… A cena se repetia incansavelmente, um pesadelo do qual eu não conseguia despertar.

Marco, percebendo minha agitação, tentava me distrair com tarefas simples. “Precisa de lenha para a lareira, Isabella. O inverno aqui pode ser rigoroso.” Ele dizia com a voz baixa, como se temesse quebrar o silêncio frágil que nos envolvia. E eu o seguia, carregando toras pesadas, sentindo a queimação nos músculos, uma dor física que, de certa forma, era bem-vinda por me tirar daquela tortura mental.

Naquela primeira noite, sentados em frente à lareira crepitante, o calor dançando em nossos rostos, o silêncio se tornou mais confortável. Marco preparou um caldo quente, um aroma reconfortante que preencheu o ar.

“Ele te amava muito, Isabella”, Marco disse, a voz embargada. Ele não precisou especificar de quem falava. “Antonio não era um homem de demonstrar sentimentos, mas com você… era diferente. Ele via em você algo que poucas pessoas conseguiam ver. Uma força, uma inteligência, uma luz.”

Eu olhei para as chamas, o reflexo delas dançando em meus olhos. “Eu o amava, Marco. Mais do que imaginei ser possível.” As palavras saíram com um suspiro, um misto de saudade e dor. “Ele era o meu porto seguro, mesmo sabendo do perigo que ele trazia.”

Marco assentiu, um gesto sombrio. “O perigo era parte dele, Isabella. E essa parte, infelizmente, o consumiu. Mas não podemos deixar que consuma você também.” Ele segurou minha mão fria sobre a mesa rústica. “Você é forte. Mais forte do que pensa. Antonio sabia disso.”

Nos dias que se seguiram, tentamos estabelecer uma rotina. Eu explorava os arredores da casa, maravilhada com a beleza selvagem da natureza. Caminhava pelas trilhas, sentindo o cheiro de terra e folhas molhadas, tentando encontrar um pouco de paz em meio à solidão. Marco se ocupava com os preparativos para o nosso futuro, trabalhando em um computador portátil, conectando-se ao mundo de forma discreta, buscando informações, planejando os próximos passos. Ele me contou que estava usando os contatos que Antonio havia deixado, buscando desvendar quem estava por trás daquele ataque brutal.

“Não foi um golpe aleatório, Isabella”, ele disse em uma tarde, enquanto observávamos o pôr do sol tingir as montanhas de tons alaranjados e púrpuras. “Antonio havia mexido em muita coisa nos últimos tempos. Havia descoberto informações que incomodavam pessoas muito poderosas. Pessoas que não hesitam em usar a violência para manter seus impérios.”

A ideia de que Antonio fora traído, de que ele fora vítima de uma conspiração, me causava um novo tipo de dor, misturada com a raiva. “Quem?”, perguntei, a voz um sussurro de fúria contida.

Marco suspirou, o olhar distante. “Ainda estou juntando as peças. Mas há um nome que se repete em algumas conversas… um homem chamado Vincenzo Moretti. Ele é conhecido por sua crueldade e sua ambição desmedida. Acredita-se que ele esteja expandindo seus negócios para áreas que antes pertenciam a Antonio.”

Vincenzo Moretti. O nome ecoou em minha mente, um presságio sombrio. Eu nunca o havia encontrado, mas as histórias sobre ele eram suficientes para gelar o sangue. Um homem que não media esforços para alcançar seus objetivos, implacável e sem escrúpulos.

“Antonio o enfrentou?”, perguntei.

“Ele estava prestes a fazê-lo. Descobriu algumas operações ilegais de Moretti, informações que poderiam acabar com ele. Acho que Moretti agiu primeiro, para se proteger e para eliminar um obstáculo.” Marco apertou os punhos. “E ele conseguiu. Mas não pense que acabou. Antonio deixou um legado, Isabella. E nós vamos honrá-lo.”

A promessa de Marco, a determinação em seus olhos, me deu um novo propósito. Eu não seria apenas uma vítima fugitiva. Eu precisava entender o que havia acontecido, precisava garantir que a morte de Antonio não fosse em vão.

As noites na montanha eram frias, mas o fogo da lareira e a conversa com Marco me aqueciam. Falávamos sobre Antonio, sobre os planos que ele tinha, sobre o futuro que ele sonhava construir. Ele me contava histórias engraçadas dele, momentos de leveza que eu não sabia que existiam. E eu, por minha vez, compartilhava com ele as minhas próprias visões, os meus medos e as minhas esperanças. Aos poucos, a solidão se transformou em um espaço de cura, onde as feridas emocionais começavam a cicatrizar.

Um dia, Marco me mostrou um pequeno cofre que ele havia encontrado no escritório de Antonio. Dentro, havia documentos e um pendrive. “Antonio era precavido”, disse Marco. “Ele sempre pensava em todos os cenários possíveis.”

O pendrive continha informações detalhadas sobre as operações de Vincenzo Moretti, provas irrefutáveis de seus crimes. E-mails, gravações, transações financeiras. Era a arma que Antonio havia reunido para derrubá-lo.

“Ele nos deixou o caminho, Isabella”, Marco disse, o olhar fixo no monitor. “Agora, precisamos ter a coragem de segui-lo.”

A sensação de perigo ainda estava presente, um arrepio constante na espinha. Mas agora, misturada a ela, havia uma determinação crescente. Não era vingança o que eu buscava, mas justiça. Uma justiça que Antonio merecia. E eu, ao lado de Marco, estava pronta para lutar por ela. A vida nas montanhas estava nos preparando, nos fortalecendo. O refúgio era apenas um interlúdio antes de voltarmos para o campo de batalha.

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Capítulo 13 — O Legado Sombrio de Antonio

O peso dos documentos no pendrive parecia mais real do que qualquer peso físico. Cada arquivo aberto revelava um novo capítulo da teia criminosa de Vincenzo Moretti, um homem que se movia nas sombras, controlando seus negócios com mão de ferro e uma crueldade que beirava o sádico. Marco e eu passávamos horas em frente ao computador, a luz azulada iluminando nossos rostos tensos, decifrando as informações que Antonio havia coletado com tanto risco.

“Ele estava investigando o tráfico de armas em larga escala”, Marco murmurou, os olhos fixos em uma planilha complexa. “Antonio descobriu que Moretti estava usando rotas de transporte que ele mesmo controlava para contrabandear armamentos para grupos terroristas em todo o mundo. Isso… isso era um passo muito perigoso, mesmo para ele.”

A adrenalina corria em minhas veias, um misto de indignação e um respeito profundo por Antonio. Ele não era apenas um líder da máfia, mas alguém que, à sua maneira, tentava equilibrar a balança, combatendo um mal ainda maior.

“E essas outras transações? Com quem ele estava negociando?”, perguntei, apontando para uma série de transferências bancárias para contas offshore.

Marco franziu a testa. “Parece que Moretti estava lavando dinheiro em uma escala gigantesca. Usando empresas de fachada, investindo em imóveis, em arte… tudo para ocultar a origem do dinheiro. E há indícios de que ele estava envolvido com políticos corruptos em altos escalões. Isso explica por que era tão difícil pegá-lo.”

A cada nova descoberta, a imagem de Antonio se tornava mais complexa em minha mente. Ele era um homem de contrastes, capaz de amar profundamente e de comandar um império de violência. Mas sua luta contra Moretti revelava um lado que eu ainda não conhecia, um lado que, de certa forma, me enchia de orgulho.

Marco, por sua vez, estava mais focado em desvendar os detalhes do ataque em Milão. Ele analisava imagens de segurança, relatórios de informantes que Antonio mantinha. “Acredito que a informação sobre o encontro vazou de dentro do nosso próprio círculo, Isabella. Alguém avisou Moretti. Alguém que estava em quem Antonio confiava.”

A traição. Essa palavra, mais do que qualquer arma, era capaz de dilacerar. A ideia de que alguém próximo a Antonio o havia entregado me causava uma náusea profunda.

“Precisamos descobrir quem foi”, eu disse, a voz firme, carregada de uma nova determinação. “Não podemos deixar que essa traição fique impune. Antonio merece mais do que isso.”

Marco assentiu, o olhar sombrio. “Estou trabalhando nisso. Mas não vai ser fácil. Há muitas pessoas envolvidas, muitos interesses em jogo.”

Nos dias seguintes, a nossa rotina na montanha se intensificou. Marco, com sua habilidade em tecnologia e sua rede de contatos, trabalhava incansavelmente para confirmar as informações, encontrar brechas, planejar uma forma de expor Moretti. Eu me dedicava a entender o máximo possível do negócio de Antonio, suas fraquezas, seus pontos fortes, para que pudéssemos agir de forma estratégica.

Uma noite, enquanto examinávamos um mapa detalhado das rotas de tráfico de armas de Moretti, Marco parou, os olhos fixos em um ponto específico. “Essa rota… ela passa perto de um antigo depósito que Antonio usava. Um lugar que ele mantinha em segredo absoluto. Acho que ele pode ter escondido algo lá. Algo que ele não quis trazer para cá.”

A ideia de algo mais, algo que Antonio considerava de extrema importância, acendeu uma faísca de esperança em mim. Se havia mais informações, mais provas, talvez pudéssemos ter uma chance real de desmantelar o império de Moretti.

“Precisamos ir até lá, Marco”, eu disse, a voz cheia de urgência. “Precisamos encontrar o que quer que ele tenha deixado.”

Marco hesitou por um momento, o olhar avaliador. “É arriscado, Isabella. A área pode estar sob vigilância. E não sabemos quem mais pode estar envolvido.”

“Antonio confiou em nós. Ele nos deixou essas informações, ele nos guiou até aqui. Não podemos desistir agora.” A paixão em minha voz transbordava, um reflexo da força que o amor por Antonio me dava.

No dia seguinte, nos preparamos para a expedição. Marco pegou o jipe mais robusto, carregou suprimentos e armas. Eu me senti uma guerreira, equipada não apenas com metal, mas com a força de um amor que transcendia a morte.

A viagem até o antigo depósito foi tensa. Percorremos estradas de terra batida, contornamos riachos e atravessamos florestas densas. A cada curva, a apreensão aumentava. Finalmente, avistamos o local: um galpão antigo, em ruínas, escondido entre a vegetação. Parecia abandonado há anos.

Descemos do carro, em silêncio. Marco sacou uma arma, seus olhos varrendo os arredores. Eu o seguia de perto, o coração batendo forte no peito. A entrada do galpão estava parcialmente bloqueada por entulhos. Tivemos que forçar a passagem.

O interior era escuro e úmido, o cheiro de mofo e poeira pairando no ar. Teias de aranha cobriam tudo, como véus de um passado esquecido. Marco acendeu uma lanterna, o feixe de luz varrendo o espaço. Havia caixas de madeira velhas, ferramentas enferrujadas, e o eco dos nossos passos era a única coisa que quebrava o silêncio sepulcral.

Seguimos para os fundos, onde Marco indicou que Antonio poderia ter escondido algo. Havia um piso de concreto, e em um canto, ele notou uma área com marcas de terra revolvida. “Aqui”, ele disse, a voz baixa.

Com as mãos, começamos a cavar. A terra estava dura, úmida. A cada pá, a esperança se renovava. Depois de alguns minutos, a pá bateu em algo sólido. Era uma caixa de metal, antiga e enferrujada.

Com esforço, a trouxemos à superfície. Marco usou uma das ferramentas para forçar a fechadura. O som metálico ecoou pelo galpão. Dentro, não havia armas ou dinheiro. Havia um diário, encadernado em couro escuro, e algumas cartas.

Peguei o diário. As primeiras páginas eram datadas de anos atrás, repletas da caligrafia firme de Antonio. Ele escrevia sobre sua ascensão, sobre as dificuldades, sobre as escolhas que teve que fazer. Mas, à medida que avançava, o tom mudava. Ele falava sobre cansaço, sobre o desejo de uma vida diferente, sobre a esperança que Isabella havia trazido para sua vida.

“Ele estava escrevendo isso para você, Isabella”, Marco disse, a voz emocionada. “Ele sabia que você era o seu futuro.”

As cartas eram dirigidas a mim também. Falavam sobre o amor dele, sobre o medo de me perder, sobre o plano de se afastar de tudo, de construir uma vida nova, longe do perigo. Ele detalhava seus planos de como expor Moretti, como desmantelar o império dele para poder, finalmente, ter paz. Ele confessava que a operação em Milão era o último grande passo, o confronto final.

“Ele estava planejando tudo isso para nós”, eu disse, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, misturando-se com a poeira. “Ele queria um final feliz para nós.”

Marco colocou a mão em meu ombro. “E nós vamos dar isso a ele, Isabella. Vamos honrar o sacrifício dele.” Ele pegou uma das cartas. “Ele também deixou instruções detalhadas sobre como usar as informações do pendrive. E sobre quem ele desconfiava ter sido o traidor.”

O nome que Marco leu, gravado nas palavras de Antonio, me atingiu como um raio. O traidor não era alguém que esperávamos, mas alguém que esteve bem perto de nós o tempo todo. A dor da perda se misturou à dor da traição, e uma raiva fria e calculista começou a tomar conta de mim.

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Capítulo 14 — A Teia da Traição Revelada

O nome sussurrado por Marco na penumbra fria do antigo depósito ecoou em minha mente como um trovão. Não era um nome que eu esperava, não era um rosto que eu associava à traição. Era um nome que, até aquele momento, representava lealdade, confiança. Aquele que eu pensava ser um aliado inabalável, agora se revelava o arquiteto da minha dor, o cúmplice da morte de Antonio.

“Não pode ser”, eu murmurei, a voz trêmula, incapaz de processar a informação. As palavras de Antonio, escritas anos atrás com a esperança de um futuro juntos, agora se chocavam brutalmente com a realidade cruel da traição.

Marco, com a firmeza que o caracterizava, assentiu. Ele me entregou a carta. A caligrafia de Antonio, tão familiar, parecia agora fria e distante, relatando os fatos com uma objetividade dolorosa. Ele descrevia suas suspeitas, os pequenos detalhes que o levaram a desconfiar de quem menos esperava. O homem que serviu fielmente a ele por anos, que compartilhara de seus segredos, que demonstrava um ódio profundo por Moretti.

“Ele sabia, Isabella”, Marco disse, a voz grave. “Antonio desconfiava que havia um infiltrado, mas ele não tinha provas concretas. Ele achava que Moretti tinha alguém de dentro que estava passando informações. E ele estava certo.”

As palavras de Antonio na carta eram precisas:

“Minha querida Isabella, se você estiver lendo isso, significa que meu plano final não deu certo como eu esperava. Significa que Moretti agiu antes de mim, ou pior, que fui traído por alguém em quem confiava cegamente. Tenho minhas suspeitas, e elas recaem sobre um homem que sempre esteve ao meu lado, mas cujas ambições, percebo agora, eram maiores do que sua lealdade. Seu nome é… [Nome do Traidor]. Ele se sentia subestimado, ressentido. E Moretti, com sua lábia e promessas, soube explorar essa ferida. Cuide-se, meu amor. Use as informações que deixei no pendrive e no cofre. Exponha Moretti. E, por favor, perdoe a mim e a ele. O mundo é um lugar sombrio, e as escolhas que fazemos nele têm um preço alto demais.”

A carta não revelava apenas a identidade do traidor, mas também um plano de contingência, detalhes sobre como usar as provas coletadas para desmantelar a rede de Vincenzo Moretti de forma definitiva. Antonio havia previsto tudo, exceto a profundidade da traição.

O nome do traidor me atingiu como um golpe físico. Era alguém que eu conhecia bem, alguém que esteve conosco em Milão, que lamentou conosco a morte de Antonio, que nos ajudou a fugir. A ironia era cruel, a dor lancinante.

“Ele… ele estava conosco. Em Milão”, eu disse, a voz embargada pela emoção. “Ele nos ajudou a sair. Como isso é possível?”

Marco suspirou, um som pesado de resignação. “Talvez ele quisesse garantir que Moretti não fosse pego antes dele. Talvez quisesse assumir o controle depois que Antonio e Moretti se eliminassem. A ambição pode cegar qualquer um, Isabella. Mesmo aqueles que parecem mais leais.”

A raiva que eu sentia por Vincenzo Moretti agora se multiplicava, voltando-se para este homem que me enganara tão cruelmente. A vontade de confrontá-lo, de exigir uma explicação, era quase insuportável. Mas Antonio nos havia guiado para um caminho mais estratégico: a exposição.

“Precisamos agir rápido”, Marco disse, a voz voltando ao tom profissional, mas com uma intensidade renovada. “Com essas informações, podemos destruir Moretti. Mas precisamos ser cuidadosos. O traidor ainda pode estar por perto, tentando limpar seus rastros ou pior, tentando nos silenciar.”

Voltamos para a casa nas montanhas, o clima pesado com a descoberta. A atmosfera de refúgio seguro agora parecia um campo minado. Não podíamos confiar em ninguém. O círculo de Antonio era menor do que imaginávamos, e a traição havia rompido o pouco que restava.

Nos dias seguintes, trabalhamos febrilmente. Marco usou seus contatos para obter informações sobre o traidor, sua localização atual, seus movimentos. Descobrimos que ele estava se preparando para fugir, para desaparecer com o dinheiro que Moretti lhe dera.

“Ele não vai escapar, Marco”, eu disse, os olhos fixos no mapa. “Antonio não permitiria. E eu também não.”

Decidimos que a melhor forma de honrar Antonio e garantir sua justiça seria usar as provas que ele coletou para expor Moretti para o mundo. Marco já havia estabelecido contato com um jornalista confiável, que estava disposto a publicar a história, mas precisávamos de mais. Precisávamos de provas irrefutáveis, e o traidor era a chave para isso.

“Precisamos pegá-lo, extrair dele o que ele sabe sobre o plano de Moretti e usar isso como prova final”, Marco disse, traçando um plano audacioso.

A ideia era arriscada, mas era a única maneira de garantir que a verdade viesse à tona. Sabíamos que o traidor estaria em alerta, mas também sabíamos que ele estaria obcecado em fugir, em se salvar. E era nesse momento de desespero que ele seria mais vulnerável.

Enquanto Marco organizava a logística, eu me perdi nos escritos de Antonio. Li suas cartas, seu diário, e me senti mais próxima dele do que nunca. Ele falava sobre o amor que sentia por mim, sobre o desejo de uma vida simples, longe da violência. Ele sonhava com um futuro onde eu pudesse sorrir sem medo, onde pudéssemos envelhecer juntos. Essas palavras eram um bálsamo para a minha alma ferida, mas também um combustível para a minha determinação.

“Eu vou te dar a paz que você tanto queria, Antonio”, eu sussurrei para o vento, sentindo a presença dele ao meu lado. “Eu vou garantir que sua memória seja honrada.”

A noite em que planejamos a emboscada foi fria, mas a tensão em nossos corpos nos aquecia. Marco havia rastreado o traidor até um pequeno aeroporto privado, onde ele estava prestes a embarcar em um jato particular.

“Será rápido e preciso”, Marco disse, enquanto ajustava seu equipamento. “Não podemos nos dar ao luxo de erros.”

Eu assenti, pegando a arma que Antonio me dera. Ela parecia pesada em minhas mãos, um símbolo da responsabilidade que eu carregava. Não era mais sobre vingança. Era sobre justiça. Sobre honrar o homem que me amou e que lutou contra um mal maior.

Enquanto esperávamos o momento certo, olhei para as montanhas iluminadas pela lua. O refúgio que nos acolheu agora nos dava a força que precisávamos. Eu não era mais a Isabella que se sentia perdida e assustada em Milão. Eu era a mulher que Antonio amou, a mulher que carregava seu legado. E estava pronta para enfrentar o perigo, para desvendar a teia da traição e trazer a verdade à luz.

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Capítulo 15 — O Confronto na Pista de Pouso

A noite pairava sobre o aeroporto privado como um manto negro, pontilhado pelo brilho gélido das estrelas. O vento frio chicoteava nossos rostos, carregando o cheiro de querosene e a promessa de uma tempestade iminente. Marco e eu nos escondíamos atrás de um hangar abandonado, os corações batendo em uníssono com a tensão do momento. O jatinho particular, uma máquina reluzente e cara, aguardava na pista, o motor já rugindo baixo, pronto para levá-lo para longe.

“Ele está na torre de controle, terminando os preparativos”, Marco sussurrou, a voz rouca pelo silêncio tenso. “Quando ele sair, teremos a nossa chance.”

Meus dedos apertavam o cabo da pistola, a arma de Antonio parecendo um prolongamento do meu próprio braço. A imagem do seu rosto, a última vez que o vi vivo, se sobrepunha à figura do traidor, [Nome do Traidor], aquele que havia planejado sua morte e me enganado com lágrimas de crocodilo. A raiva que ardia em meu peito era um fogo purificador, alimentado pela dor e pela promessa feita a Antonio.

“Ele não vai escapar”, eu disse, a voz firme, contrastando com a fragilidade que eu ainda sentia por dentro. “Não depois de tudo.”

Marco lançou um olhar para mim, um misto de preocupação e admiração em seus olhos. Ele também havia sido enganado pelo traidor, e a amargura da descoberta ainda estava presente. “Vamos fazer isso juntos, Isabella. Por Antonio.”

Vimos a figura do traidor emergir da torre de controle. Ele andava com pressa, o olhar desconfiado varrendo os arredores. Parecia mais magro, mais assustado do que eu me lembrava. Aquele que um dia parecia tão seguro, agora demonstrava os sinais da sua própria consciência culpada. Ele vestia roupas discretas, mas caras, um conjunto de fuga bem pensado.

“Agora!”, Marco gritou, e saímos do nosso esconderijo.

O traidor nos viu. O choque em seu rosto foi momentâneo, rapidamente substituído pelo pânico. Ele tentou correr em direção ao jatinho, mas era tarde demais. Marco, com sua agilidade surpreendente, bloqueou seu caminho.

“Parado aí, [Nome do Traidor]!”, Marco rosnou, a arma apontada firmemente para ele.

O traidor parou, as mãos para o alto, o rosto pálido. “O que… o que vocês querem? Como me encontraram?”

Eu me aproximei lentamente, cada passo medido. A dor em meus olhos era visível, a raiva latente. “Queremos a verdade, [Nome do Traidor]. A verdade que você negou a todos nós. A verdade sobre a morte de Antonio.”

Ele engoliu em seco, evitando meu olhar. “Eu não matei Antonio. Eu juro!”

“Você não o matou com suas próprias mãos, talvez”, eu disse, a voz carregada de desprezo. “Mas você o traiu. Você vendeu as informações para Moretti. Você facilitou a morte dele. Isso é pior do que qualquer tiro.”

O traidor gaguejou, tentando se defender. “Eu… eu não tive escolha. Moretti me ameaçou. Ele disse que mataria minha família se eu não cooperasse.”

“Mentira!”, Marco interveio. “Antonio sabia de suas ambições. Ele sabia do seu ressentimento. Moretti apenas te ofereceu a oportunidade que você esperava. A oportunidade de assumir o controle, de se livrar dele.”

Eu me aproximei mais, encarando-o nos olhos. “Onde estão os outros documentos, [Nome do Traidor]? Aqueles que Antonio mencionou em suas cartas? Aqueles que provam a ligação de Moretti com os políticos? Você os pegou, não foi? Para vender a quem pagasse mais?”

Ele hesitou, o medo estampado em seu rosto. “Eu… eu não sei do que você está falando.”

“Não me minta!”, eu gritei, a voz embargada pela emoção. “Antonio era meu mundo. E você o tirou de mim. Você nos tirou dele. Você vai nos dizer onde estão os documentos, ou vai enfrentar as consequências.”

Marco se aproximou, a arma apontada firmemente para o traidor. “Nós sabemos que você tem mais informações. E sabemos que você está planejando fugir. Mas não vai acontecer. Vamos entregar você e suas provas para a justiça. E a justiça, neste caso, será implacável.”

O traidor, percebendo que estava encurralado, começou a tremer. “Está bem, está bem! Eu… eu os peguei. Estão na minha mala, no jatinho. Mas vocês não podem me entregar. Por favor!”

“Você deveria ter pensado nisso antes de trair Antonio”, eu disse, a voz fria como o vento noturno. “Agora, você vai nos levar até eles.”

Com relutância, o traidor nos guiou até o jatinho. A tripulação, assustada com a situação, observava em silêncio. Marco o manteve sob mira enquanto eu procurava a mala. Dentro, encontrei o que Antonio havia descrito: mais documentos, gravações, e informações cruciais sobre a rede de Vincenzo Moretti.

Enquanto eu examinava os papéis, o traidor tentou uma última cartada. “Vocês não podem fazer isso! Moretti vai me matar se eu for pego! Ele não vai deixar pontas soltas!”

“Ele não terá a chance”, Marco disse, a voz firme. “Você vai cooperar, e nós vamos garantir sua proteção, se é que isso ainda é possível.”

A cooperação foi relutante, mas inevitável. O traidor, encurralado e sem saída, acabou revelando todos os detalhes que sabia sobre as operações de Moretti, as identidades dos políticos corruptos envolvidos, e a localização de outros esconderijos. As informações eram devastadoras.

Com as provas em mãos e o traidor sob controle, Marco fez o contato com o jornalista. A notícia explodiu como uma bomba. Vincenzo Moretti, o império que parecia inabalável, começou a ruir. A mídia estava sedenta por detalhes, e as provas coletadas por Antonio, amplificadas pela cooperação do traidor, eram irrefutáveis.

O traidor foi entregue às autoridades, com a promessa de proteção em troca de sua cooperação total. Sabíamos que ele pagaria pelo que fez, mas a justiça, para nós, era a exposição de Moretti.

Enquanto observávamos o sol nascer sobre as montanhas, pintando o céu com tons de esperança, senti um peso se dissipar dos meus ombros. A dor pela perda de Antonio ainda estava lá, uma cicatriz profunda em minha alma, mas agora, misturada a ela, havia a satisfação da justiça.

“Ele estaria orgulhoso, Isabella”, Marco disse, colocando a mão em meu ombro. “Antonio. Ele conseguiria o que queria. A verdade veio à tona.”

Eu assenti, olhando para o horizonte. O caminho à frente ainda era incerto. O mundo da máfia era implacável, e a queda de Moretti certamente criaria um vácuo de poder. Mas, por enquanto, havia paz. A paz de saber que havíamos honrado Antonio, que havíamos exposto o mal.

“O que faremos agora?”, perguntei, a voz calma, mas determinada.

Marco sorriu, um sorriso genuíno pela primeira vez em semanas. “Vamos começar de novo, Isabella. Longe de tudo isso. Vamos honrar o futuro que Antonio sonhava para nós. Um futuro com paz.”

Olhei para ele, para o homem que se tornou meu parceiro, meu amigo, meu pilar. E, pela primeira vez desde Milão, um sorriso verdadeiro despontou em meus lábios. O perigo havia mudado, a dor persistia, mas a esperança, essa sim, havia retornado. E com ela, a promessa de um novo amanhecer.

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