Seduzida pelo Perigo II
Seduzida pelo Perigo II
por Rodrigo Azevedo
Seduzida pelo Perigo II Autor: Rodrigo Azevedo
Capítulo 21 — O Sussurro da Traição em Lisboa
O aroma salgado do Atlântico invadia os pulmões de Isabella, uma fragrância que, até então, a acalmava. Mas agora, em Lisboa, sob o manto úmido da noite, cada brisa parecia trazer consigo um eco de perigo, um prenúncio das revelações que a assombravam. A cidade, com suas ruelas estreitas e o fado melancólico que pairava no ar, parecia espelhar a tormenta em seu peito. Ela estava sentada em um dos miradouros de Alfama, o vinho do Porto esquecido em suas mãos, a paisagem iluminada de São Jorge mal conseguia desviar sua atenção das palavras de Lorenzo.
"Ele sabia, Bella. Luca sabia de tudo."
A voz de Lorenzo, geralmente tão firme e cheia de uma autoridade reconfortante, agora soava rouca, carregada de uma dor que ela raramente presenciava. A verdade que ele desvendara em Veneza, entre os canais sombrios e os segredos ancestrais da família, era um veneno que se espalhava rápido. Luca, o homem que ela um dia amou, o homem que ela acreditava ser seu protetor, era, na verdade, o fio condutor de uma teia de traição que se estendia até os seus próprios pais.
"Não... não pode ser, Lorenzo", Isabella sussurrou, a voz embargada pela incredulidade. A imagem de Luca, com seus olhos castanhos profundos e um sorriso que a desarmava, se chocava violentamente com a figura do traidor que Lorenzo descrevia. Ele, que a tirara das garras de seus inimigos, que a defendera com unhas e dentes, que a amava... ou que fingia amar? A dúvida era um abismo sem fundo.
Lorenzo se aproximou, o corpo tenso como uma corda de violino prestes a romper. Ele se ajoelhou diante dela, buscando o olhar que ela teimava em desviar. "Isabella, eu sei que é difícil de aceitar. A mim também custou. Mas as provas são irrefutáveis. Luca não era seu protetor. Ele era o carcereiro."
Ele tirou um pequeno envelope de couro de dentro do paletó. O material estava desgastado, como se tivesse sido guardado por anos. Com as mãos trêmulas, ele entregou a ela. "Este era de seu pai. Ele o escondeu, com medo. Medo de Luca. Medo do que ele poderia fazer com você."
Isabella abriu o envelope. Dentro, havia um pedaço de papel amassado, escrito com a caligrafia elegante, mas apressada, de seu pai. As palavras, escritas em italiano, falavam de um pacto secreto, de dívidas antigas, de uma promessa feita a Luca que envolvia Isabella como um peão em um jogo muito maior. Falava da ascensão da família De Luca e do preço que os Conti teriam que pagar.
"Ele te usou, Isabella. Desde o início. Ele precisava de você para consolidar seu poder. E seus pais... eles permitiram." A voz de Lorenzo era um lamento. "Eles sabiam que ele te levaria para longe, que te isolaria, que te faria esquecer quem você é. Tudo para mantê-los seguros, ou pelo menos, era o que eles pensavam."
As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Isabella, quentes e amargas. A traição não vinha apenas de Luca. Vinha de seus pais, as pessoas que deveriam amá-la incondicionalmente. O amor deles era condicional? Era uma barganha? A dor se intensificava, dilacerando seu peito em pedaços.
"Por quê?", ela murmurou, o olhar fixo nas luzes distantes da cidade, como se buscasse respostas no próprio céu. "Por que fariam isso comigo?"
"Medo, Isabella. Medo e uma dose perigosa de ambição. Luca os manipulou, prometendo proteção e prosperidade, mas cobrando o preço mais alto: sua liberdade e seu futuro." Lorenzo segurou suas mãos, as suas, frias e suadas. "Ele os ameaçou, eu tenho certeza. E seus pais, em sua fraqueza, acabaram cedendo. Escolheram o mal menor para eles, mas o mal maior para você."
A noite avançava, e com ela, a escuridão dentro de Isabella se aprofundava. Ela pensou em todos os momentos com Luca, em cada toque, em cada beijo, em cada promessa sussurrada. Era tudo uma farsa? Uma performance cuidadosamente orquestrada para mantê-la sob controle? A ideia era excruciante.
"E você, Lorenzo?", ela perguntou, a voz tensa, a desconfiança se instalando como um parasita. "Como você se encaixa nisso tudo? Você me salvou, mas se Luca é o inimigo, por que você não me contou antes? Por que deixar que eu vivesse nessa mentira por tanto tempo?"
Lorenzo suspirou, um som carregado de resignação. "Por duas razões, Isabella. Primeira: eu precisava ter certeza absoluta. As informações que eu tinha eram fragmentadas. Eu precisava das provas que encontramos em Veneza. Segunda... e essa é a mais difícil de admitir... eu tinha medo de te perder. Medo de que a verdade te afastasse de mim. Medo de que, ao descobrir quem Luca realmente era, você o defendesse. Você o amava, Isabella. E eu... eu comecei a te amar também."
As últimas palavras dele ecoaram no silêncio da noite, um eco surpreendente que fez Isabella erguer os olhos para ele. O amor. Era uma palavra que, nos últimos tempos, parecia ter sido corroída pela desconfiança e pela dor. Ver o olhar de Lorenzo, tão sincero, tão vulnerável, fez uma pequena faísca de esperança acender em meio à escuridão.
"Você me ama?", ela perguntou, a voz um sussurro rouco.
Lorenzo assentiu, os olhos fixos nos dela. "Mais do que a minha própria vida. Por isso lutei para te proteger, por isso investi tudo para desmascarar Luca. Porque eu não suportaria te ver presa a ele, vivendo uma mentira."
Isabella olhou para o pedaço de papel em sua mão, para as palavras escritas por seu pai, para as palavras de Lorenzo. A traição era profunda, dolorosa, mas a revelação de Lorenzo também trazia consigo uma promessa. A promessa de um amor que não era condicionado, que não era um jogo.
"O que fazemos agora?", ela perguntou, a voz mais firme, a decisão começando a se formar em seu olhar.
Lorenzo apertou suas mãos. "Agora, Isabella, nós lutamos. Nós lutamos pela sua liberdade. Nós lutamos pela sua vingança. E nós lutamos pelo nosso futuro. Luca e seus fantoches não vão escapar impunes. Lisboa é apenas o começo. O mundo inteiro saberá quem eles são."
A cidade de Lisboa, antes um refúgio de melancolia, agora se tornava um campo de batalha. Isabella sentiu uma nova força emergir de dentro dela, uma força forjada na dor, mas temperada pela verdade. A sombra de um passado sombrio ainda pairava, mas agora, ao lado de Lorenzo, ela se sentia pronta para enfrentá-la.