Seduzida pelo Perigo II
Capítulo 23 — A Teia de Aranha em Casablanca
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 23 — A Teia de Aranha em Casablanca
O cheiro de sal e flores de laranjeira pairava no ar de Casablanca, uma fragrância agridoce que em nada aliviava a tensão nos ombros de Isabella. A fuga de Marraquexe tinha sido um turbilhão de adrenalina e perigo, um lembrete brutal de quão implacável era o mundo em que haviam mergulhado. Eles haviam escapado por um triz, deixando para trás um rastro de caos e a certeza de que Luca sabia que eles estavam atrás dele. Agora, em Casablanca, a rede de informações parecia se apertar.
Lorenzo estava sentado a uma mesa em um café pitoresco na Corniche, observando o movimento das pessoas com um olhar atento e desconfiado. Isabella, com um lenço cobrindo seus cabelos e óculos escuros que escondiam parte de seu rosto, tentava parecer o mais anônima possível, embora a energia em seu corpo gritasse alerta.
"As informações sobre Al-Nadir são escassas", Lorenzo disse, a voz baixa, quase inaudível sob o burburinho do café. "Ele é um fantasma, Isabella. Aparece em negócios, fecha acordos, mas nunca deixa rastros. É como tentar pegar fumaça."
"Mas Luca não é um fantasma", Isabella rebateu, a frustração em sua voz começando a transparecer. "Ele é a chave. E se Al-Nadir é o financiador, então é através dele que podemos chegar a Luca de verdade, desmantelar o império que ele está construindo."
Desde o confronto na riad, eles sabiam que não podiam mais confiar apenas em seus próprios instintos. A máfia internacional era uma hidra com muitas cabeças, e eles precisavam de aliados, de alguém que pudesse navegar nesse labirinto de interesses e traições. E em Casablanca, um caldeirão de culturas e negócios, eles tinham uma chance de encontrar essa ajuda.
Um homem se aproximou da mesa deles, um senhor de idade, com rugas profundas em seu rosto e um olhar que denotava sabedoria e cautela. Ele se sentou sem ser convidado, um gesto que normalmente seria interpretado como audácia, mas que, naquele contexto, parecia um sinal.
"Vocês estão procurando por algo que não deveriam", disse o homem, sua voz um sussurro rouco. Ele falou em árabe, mas Lorenzo, com seu dom para línguas, entendeu perfeitamente.
Lorenzo respondeu em árabe, mantendo a compostura. "Talvez estejamos apenas procurando por um bom chá. Mas se você tiver alguma informação que possa nos ajudar a encontrar um homem chamado Luca De Luca, ficaremos muito gratos."
O homem sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Luca De Luca... um nome com muitos ecos nesta cidade. Um homem perigoso, com conexões perigosas. Vocês estão brincando com fogo."
"Nós sabemos disso", Isabella interveio, a voz firme, apesar da apreensão. "Mas o fogo é a única coisa que pode purificar a podridão. Quem é você?"
"Eu sou apenas um homem que já viu muitas guerras e muitas traições", respondeu o homem. "Meu nome é Hassan. E eu não gosto de ver jovens imprudentes se jogando no abismo." Ele olhou para Isabella com uma intensidade que a fez se sentir exposta. "Você tem o fogo em seus olhos, moça. O fogo da vingança. Mas a vingança cega, e a cegueira leva à destruição."
"Nós não buscamos apenas vingança", Lorenzo disse. "Buscamos justiça. E queremos desmantelar uma organização criminosa que está prejudicando muitas vidas."
Hassan suspirou, um som carregado de resignação. "Justiça... um conceito nobre, mas raramente alcançado neste mundo. No entanto, eu posso oferecer uma pista. Luca De Luca tem um contato aqui em Casablanca. Uma mulher. Ela é a porta de entrada para os negócios dele na África. Se vocês conseguirem chegar até ela, talvez consigam uma brecha."
"Quem é ela?", Isabella perguntou, a esperança florescendo em seu peito.
"O nome dela é Samira. Ela é conhecida por sua beleza e por sua astúcia. Opera um clube noturno de luxo chamado 'O Pavilhão Dourado'. É lá que os negócios mais sombrios são fechados." Hassan fez uma pausa, seus olhos fixos nos deles. "Mas cuidado. Samira é uma aranha. Ela tece sua teia com cuidado, e uma vez que você está nela, é difícil escapar. E ela não hesita em eliminar quem se torna um incômodo."
Com essa informação vital em mãos, Isabella e Lorenzo se dirigiram ao "O Pavilhão Dourado". O local era um espetáculo de luxo decadente, com lustres de cristal, móveis de veludo e uma atmosfera de sensualidade e perigo. A música era baixa e envolvente, e as pessoas pareciam pertencer a um submundo elegante e perigoso.
Eles encontraram Samira em seu camarote privado, um espaço opulento com vista para o salão principal. Ela era exatamente como Hassan a descrevera: linda, com olhos penetrantes e um sorriso que prometia tanto prazer quanto perigo.
"Senhoritas e senhores, que honra ter vocês em meu humilde estabelecimento", disse Samira, a voz melodiosa, mas com um toque de frieza. Ela parecia saber quem eles eram, ou pelo menos, suspeitava.
"Viemos em busca de negócios", Lorenzo disse, com um sorriso calculista. "Ouvi dizer que você é a melhor em Casablanca em fazer as coisas acontecerem."
Samira riu, um som cristalino. "Eu sou eficiente, eu diria. E discreta. E você, meu caro senhor, parece ter um gosto refinado para o perigo. E você, minha linda dama?", ela olhou para Isabella. "Você parece carregar o peso de muitas histórias."
Isabella encontrou o olhar de Samira, sem vacilar. "Eu busco paz, senhora. E às vezes, a paz só pode ser encontrada após a tempestade."
A conversa fluiu, um jogo de gato e rato, onde cada palavra era medida, cada silêncio carregado de significado. Samira era astuta, evasiva, mas Isabella sentia que estava se aproximando. Ela sabia que Luca confiava em Samira, e essa confiança era a vulnerabilidade que eles precisavam explorar.
"Ouvi dizer que você é uma parceira de negócios de um certo Luca De Luca", Isabella disse, jogando seu trunfo.
O sorriso de Samira vacilou por um instante, quase imperceptível. "Luca é um cliente valioso. Um homem com visão."
"Visão?", Isabella riu, um riso amargo. "Ou talvez ambição desmedida. Ele destruiu minha família. Ele me tirou tudo. Eu não vou descansar até que ele pague."
Um lampejo de algo que poderia ser compreensão, ou talvez apenas curiosidade, passou pelos olhos de Samira. "Ele é um homem de muitos segredos, sua história é complexa. Mas, às vezes, os segredos mais perigosos são aqueles que mantemos para nós mesmos."
"Que segredos?", Isabella insistiu, sentindo que estava perto.
Samira se aproximou, sua voz baixando para um sussurro. "Luca tem um ponto fraco. Algo que ele esconde de todos. Algo que, se revelado, poderia desmoronar todo o seu império." Ela fez uma pausa, seu olhar fixo em Isabella. "Ele tem um irmão. Um irmão que ele mandou para longe, para um lugar seguro, mas que está em perigo. Se algo acontecer a esse irmão, Luca fará qualquer coisa para protegê-lo. Qualquer coisa."
A revelação atingiu Isabella como um raio. Um irmão. Luca tinha um irmão. Essa era a sua alavancagem. A teia de aranha de Samira havia, finalmente, prendido sua presa.
"Onde ele está?", Isabella perguntou, a voz embargada pela emoção.
"Ele está em um mosteiro isolado nos Alpes Suíços", Samira respondeu. "Sob a proteção de monges. Mas a segurança não é infalível. E Luca está cada vez mais paranóico."
Lorenzo olhou para Isabella, seus olhos transmitindo uma mistura de preocupação e admiração. Eles haviam encontrado a brecha. Agora, teriam que correr contra o tempo, antes que Luca percebesse que sua teia de segredos estava sendo desvendada. A jornada para os Alpes Suíços seria perigosa, mas era a única chance que tinham de derrubar Luca De Luca de uma vez por todas.