Seduzida pelo Perigo II
Capítulo 24 — O Gelo e o Fogo nos Alpes Suíços
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 24 — O Gelo e o Fogo nos Alpes Suíços
O ar rarefeito e gelado dos Alpes Suíços picava os pulmões de Isabella, uma sensação de pureza contrastante com o turbilhão de emoções que a consumia. A paisagem era de uma beleza austera e imponente, picos nevados que pareciam tocar o céu, um silêncio quebrado apenas pelo uivo do vento. Mas sob essa fachada de tranquilidade, um perigo iminente pairava. A informação de Samira, obtida em Casablanca, os havia levado até ali, a um mosteiro isolado, refúgio do irmão de Luca, o único ponto fraco conhecido do implacável chefe da máfia.
Lorenzo, com seu corpo robusto e a determinação em seus olhos, parecia imune ao frio, focado unicamente na missão. Ele estudava os arredores do mosteiro, uma estrutura antiga de pedra, com uma aura de paz e isolamento.
"O local é bem protegido, considerando o isolamento", Lorenzo comentou, a voz baixa. "Monges, mas com um sistema de segurança discreto. Luca não brinca em serviço quando se trata de seu irmão."
"Eu sei", Isabella respondeu, a voz tensa. A ideia de um irmão, um inocente pego no meio da guerra deles, a assombrava. Luca, o homem que a traíra, o homem que a usara, tinha um ponto fraco. E esse ponto fraco, irônico ou não, era uma chance de confrontá-lo. "Precisamos ter certeza de que ele está seguro. Não quero que ele se torne mais uma vítima de Luca."
Eles passaram os próximos dias observando o mosteiro de longe, disfarçados de turistas, coletando informações sobre os horários dos monges, as rondas de segurança e as rotas de acesso. A frieza da montanha parecia ter penetrado em Isabella, endurecendo sua determinação. Ela sentia a urgência de agir, de resgatar o irmão de Luca antes que o próprio Luca, em sua paranoia crescente, decidisse que o refúgio não era mais seguro.
Finalmente, a oportunidade surgiu. Uma nevasca inesperada desceu sobre as montanhas, cobrindo os rastros e diminuindo a visibilidade, criando o manto perfeito para uma infiltração.
"É agora, Isabella", Lorenzo disse, seus olhos encontrando os dela. "A nevasca nos dá cobertura. Mas também significa que precisamos ser rápidos. Se formos pegos, a neve pode se tornar nossa tumba."
Sob o manto branco e caótico da nevasca, eles se moveram em direção ao mosteiro. O frio era cortante, o vento uivava como um lobo faminto, e a neve se acumulava rapidamente, dificultando cada passo. Mas a adrenalina e o propósito os impulsionavam.
Eles conseguiram se infiltrar sem serem vistos, movendo-se pelas sombras e corredores silenciosos do mosteiro. O ar era pesado com o cheiro de incenso e cera de vela. Encontraram o quarto do irmão de Luca, um jovem chamado Marco, pálido e assustado, mas com uma centelha de curiosidade em seus olhos. Ele era o reflexo involuntário da crueldade de seu irmão mais velho.
"Marco?", Isabella chamou suavemente, aproximando-se dele. "Nós não estamos aqui para te machucar. Viemos para te proteger."
Marco olhou para eles com desconfiança. "Quem são vocês? Luca disse que não devo confiar em ninguém."
"Luca te disse isso porque ele tem medo", Lorenzo explicou, sua voz firme e reconfortante. "Ele tem medo que você seja usado contra ele. E ele tem razão. Mas nós queremos te tirar desse perigo. Queremos te levar para um lugar seguro, onde Luca não possa te alcançar."
A conversa foi tensa, repleta de dúvidas e medos. Marco era uma vítima da guerra de seu irmão, um peão em um jogo que ele não entendia. Isabella, vendo sua vulnerabilidade, sentiu um aperto no coração. Ela sabia o que era ser usada, ser manipulada.
De repente, um barulho distante quebrou o silêncio. Tiros. Eram altos, abafados pela neve, mas inconfundíveis. Alguém estava atacando o mosteiro.
"Luca", Isabella sussurrou, a compreensão atingindo-a como um golpe. "Ele não confiava na segurança. Ele enviou seus próprios homens para 'proteger' Marco. Ou para garantir que ele não fugisse."
O caos explodiu. Gritos, o som de luta, o estilhaçar de vidro. O mosteiro, que antes exalava paz, transformou-se em um campo de batalha.
"Precisamos sair daqui, agora!", Lorenzo gritou, puxando Marco. "Marco, você vai conosco. Luca não vai mais controlar seu destino."
Eles lutaram para sair do mosteiro, enfrentando os homens de Luca, homens que pareciam ter ordens claras: impedir a fuga de Marco a qualquer custo. A neve lá fora, antes uma aliada, agora era um obstáculo traiçoeiro. Mas Isabella e Lorenzo lutaram com a fúria de quem tem algo a perder.
Em meio ao caos, Isabella se viu cara a cara com Luca. Ele estava ali, em pessoa, o rosto marcado pela raiva e pela surpresa. Seus olhos, antes tão cheios de uma paixão que ela acreditara ser real, agora ardiam com uma frieza calculista.
"Bella?", Luca disse, a voz carregada de incredulidade e uma raiva contida. "O que você está fazendo aqui? E quem é esse?" Ele apontou para Marco, que se encolheu atrás de Lorenzo.
"Eu estou recuperando o que você me tirou, Luca", Isabella disse, a voz firme, a dor transformando-se em força. "Minha vida. E a liberdade do seu irmão."
"Liberdade?", Luca riu, um som seco e cruel. "Ele não sabe nada sobre liberdade. Ele é minha responsabilidade. E você... você não tem o direito de interferir."
"Eu tenho o direito de lutar contra você!", Isabella retrucou. "Você me usou, me traiu, destruiu minha família! E agora você quer controlar a vida do seu próprio irmão?"
A luta começou. Uma luta desesperada sob a tempestade implacável. Lorenzo cuidava de Marco, mantendo-o afastado do perigo, enquanto Isabella enfrentava Luca. Era uma batalha de emoções, de traições, de um amor que se transformara em ódio.
Luca era habilidoso, cruel, implacável. Mas Isabella, fortalecida pela verdade e pela dor, lutava com uma ferocidade que ele não esperava. Ela usava a paisagem a seu favor, a neve e o gelo, transformando-os em aliados.
Em um momento crucial, Marco, vendo a luta entre Isabella e seu irmão, gritou: "Luca, para! Você não precisa fazer isso!"
O grito de Marco pareceu abalar Luca. Por um instante, a fúria em seus olhos diminuiu, substituída por uma expressão de conflito. Mas a máscara caiu rapidamente.
"Ele não entende", Luca disse, a voz rouca. "Ninguém entende."
Com um último esforço, Isabella conseguiu desarmar Luca. Ele caiu na neve, derrotado. Mas não vencido.
"Isso não acabou, Isabella", ele disse, a voz cheia de ódio. "Você me tirou tudo. Eu vou te tirar ainda mais."
Lorenzo e Isabella, com Marco entre eles, recuaram na nevasca, deixando Luca para trás, sozinho em sua derrota temporária. Eles haviam resgatado Marco, mas sabiam que a guerra contra Luca De Luca estava longe de terminar. O gelo dos Alpes tinha testemunhado o confronto, mas o fogo da vingança ainda ardia dentro de Isabella, prometendo uma tempestade ainda maior.