Seduzida pelo Perigo 58
Capítulo 17 — O Rastro do Veneno
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 17 — O Rastro do Veneno
O silêncio do escritório de Matteo era um abismo. Isabella sentia o eco de seus próprios batimentos cardíacos no peito, um tambor frenético que parecia ecoar o perigo iminente. A arma em suas mãos era um peso alienígena, fria e pesada, um símbolo da realidade brutal que ela agora habitava. O aroma de couro e o leve cheiro de charuto, antes reconfortantes por estarem associados a Matteo, agora pareciam sufocantes, impregnados com a tensão e a ameaça.
Ela se moveu para a janela, espiando através das finas cortinas de seda. O jardim iluminado pelas luzes de segurança parecia um palco sinistro, cada sombra um potencial assassino. A imagem de Carmine com seu sorriso cruel e olhos famintos a assombrava. Ele era um lobo em pele de cordeiro, e ela sentia que ele a via como uma joia a ser cobiçada, ou talvez, uma peça a ser eliminada para alcançar seus próprios fins.
De repente, um som abafado ecoou pelo corredor. Isabella se assustou, o corpo tenso. Ela levantou a arma, as mãos tremendo. Seria Matteo voltando? Ou seria um intruso? O som se repetiu, desta vez mais próximo. Era um arrastar pesado, seguido por um gemido abafado.
Com um misto de terror e determinação, Isabella se dirigiu para a porta. Hesitou por um instante, respirando fundo, e girou a maçaneta com cuidado. O corredor estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que escapava do escritório. Ela podia ver uma figura caída perto da escada principal.
Ao se aproximar, a luz fraca revelou a identidade da figura. Era o homem que havia sussurrado no ouvido de Matteo mais cedo, o homem corpulento e de olhar vazio. Ele estava deitado de bruços, uma poça escura se espalhando sob seu corpo. O sangue.
O estômago de Isabella revirou. Ela nunca tinha visto algo assim de perto. Era real. A violência que antes parecia distante, parte do universo sombrio de Matteo, agora estava ali, pulsando em suas veias. Ela se ajoelhou ao lado do homem, hesitando em tocá-lo. Ele ainda respirava, mas com dificuldade, um chiado áspero escapando de seus lábios.
"Me ajude…", ele murmurou, a voz fraca.
Isabella olhou ao redor freneticamente. Precisava de ajuda, mas quem? Matteo estava ocupado com algo urgente. Não havia mais ninguém por perto.
Nesse momento, uma sombra surgiu do topo da escada. Era Carmine. Ele desceu os degraus com uma agilidade surpreendente, seus olhos fixos na figura no chão. Um sorriso cruel se alargou em seu rosto.
"Ora, ora. O que temos aqui?", ele disse, sua voz calma contrastando com a cena macabra. "Parece que alguém cometeu um erro."
Isabella se levantou, posicionando-se entre Carmine e o homem ferido. A adrenalina a impulsionava, substituindo o medo pela raiva. "O que você quer?", ela exigiu, a voz surpreendentemente firme.
"Eu? Eu quero ver o que está acontecendo, claro", Carmine respondeu, seus olhos escuros faiscando. Ele se aproximou do homem caído, ignorando o olhar de Isabella. Ele tirou um pequeno frasco de um bolso interno de seu paletó e o colocou delicadamente na mão do homem ferido. "Apenas um pequeno remédio para aliviar a dor. Para que ele possa nos contar quem o traiu."
Isabella observou horrorizada. "O que é isso?", ela perguntou, a voz tensa.
Carmine a ignorou, concentrando-se no homem ferido. "Beba, meu amigo. Diga-nos quem te colocou nessa situação. Diga-nos quem nos traiu."
O homem pegou o frasco com dedos trêmulos e levou-o aos lábios. Antes que Isabella pudesse impedi-lo, ele bebeu o líquido escuro. Seus olhos se arregalaram em pânico. Ele começou a tossir violentamente, espuma branca saindo de seus lábios.
"Não… o que você…", ele engasgou, sua respiração falhando.
Carmine observou a cena com uma frieza calculista. Seus olhos encontraram os de Isabella, e neles ela viu a resposta. Não era um remédio. Era veneno.
"Um golpe de misericórdia", Carmine explicou calmamente, como se estivesse comentando o clima. "Ele não podia falar. E se não pode falar, não pode nos trair. Ou pior, não pode contar a Matteo quem o mandou fazer o quê."
Isabella recuou, horrorizada. "Você… você o matou!"
Carmine deu de ombros, um gesto despreocupado. "Ele já estava morrendo. Eu apenas acelerei o processo. Agora, Matteo não terá que lidar com um informante. E eu… eu posso continuar meus negócios em paz."
Nesse momento, Matteo apareceu no topo da escada, seu rosto uma máscara de fúria contida. Ele viu a cena: Isabella, a arma ainda em suas mãos, o homem ferido morrendo a seus pés, e Carmine, com um sorriso sinistro nos lábios.
"Carmine!", Matteo rosnou, sua voz carregada de ameaça.
Carmine se virou lentamente, um sorriso desafiador em seu rosto. "Matteo. Chegou bem na hora. Seu homem estava prestes a nos contar tudo."
Matteo desceu os degraus com pressa, seus olhos fixos em Carmine. "Você o envenenou."
"Eu apenas garanti que ele não falasse. Uma precaução necessária, você não acha?", Carmine respondeu, sua voz calma e provocadora.
Matteo parou a poucos passos de Carmine, o corpo tenso. "Você ultrapassou o limite, Carmine. Você sabe disso."
"Eu protejo meus interesses, Matteo. Assim como você protege os seus. E às vezes, os interesses se chocam." Carmine lançou um olhar para Isabella, um olhar que ela sentiu atravessá-la. "E às vezes, as mulheres no meio… pagam o preço."
A fúria nos olhos de Matteo era palpável. Ele parecia prestes a explodir. Mas antes que ele pudesse agir, Isabella deu um passo à frente, colocando-se entre os dois homens.
"Chega!", ela gritou, sua voz ecoando pelo salão. "Não mais sangue. Não mais violência." Ela olhou para Matteo, seus olhos suplicando. "Matteo, por favor. Acabe com isso."
Matteo olhou para Isabella, a raiva em seus olhos diminuindo um pouco, substituída por uma preocupação que ele tentava esconder. Ele sabia que ela estava certa. Mais violência apenas criaria mais problemas.
Ele se virou para Carmine, um olhar gélido em seus olhos. "Você vai se arrepender disso, Carmine. Você e todos que estão com você."
Carmine apenas sorriu, um sorriso que não prometia nada de bom. "Veremos, Matteo. Veremos."
Enquanto Carmine se afastava, Isabella sentiu o peso da arma em suas mãos. Ela a largou no chão, o som metálico ecoando como um grito de desespero. O rastro do veneno de Carmine se espalhara, não apenas no corpo do homem ferido, mas nas almas de todos ali presentes, manchando a mansão Rossi com uma escuridão ainda mais profunda. Ela era uma sobrevivente, sim, mas a que custo? O que mais ela teria que testemunhar e suportar para se manter viva e perto de Matteo? O perigo não estava mais à espreita; ele havia se instalado em sua vida, com a frieza de um veneno silencioso.