Seduzida pelo Perigo 58
Capítulo 20 — A Armadilha no Caís
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 20 — A Armadilha no Caís
O amanhecer tingia o céu de tons pálidos e acinzentados quando Isabella chegou à velha doca abandonada. O ar estava frio e úmido, carregado com o cheiro de sal e peixe. A ferrugem corroía os contêineres empilhados e as madeiras apodrecidas, criando um cenário desolador que parecia um presságio. Cada passo no cascalho solto ecoava na quietude da manhã, amplificando a sensação de isolamento e perigo. Ela sentiu a mão apertar o pequeno telefone no bolso de seu casaco, um lembrete constante de que Matteo e seus homens estavam por perto, em alerta máximo.
Giuseppe a esperava perto de um velho guindaste enferrujado, sua figura magra encolhida contra o frio. Seus olhos, arregalados de apreensão, vasculhavam os arredores a cada instante. Isabella se aproximou dele com passos firmes, tentando projetar uma calma que ela não sentia completamente.
"Você veio", Giuseppe sussurrou, um misto de alívio e medo em sua voz.
"Eu disse que viria", Isabella respondeu, mantendo a voz baixa e firme. "Você tem o que preciso?"
Giuseppe assentiu freneticamente, tirando uma pequena pasta de couro de dentro de seu casaco. Ela parecia velha e desgastada, assim como tudo naquele lugar. Ele a entregou a Isabella com mãos trêmulas.
"São os registros. Os registros das contas de Carmine. Todos os fluxos de dinheiro, as transações secretas. Tudo. Ele usa esse cassino como lavanderia para seu tráfico de drogas e armas. E os registros mostram para onde o dinheiro está indo. Para quem ele está pagando para obter influência. Incluindo alguns nomes que você vai querer ver." Giuseppe olhou para ela com urgência. "Há mais. Ele está planejando um grande golpe. Algo que vai abalar a cidade. Ele quer desestabilizar o mercado financeiro, criar o caos para assumir o controle. E ele tem um cúmplice. Um policial de alto escalão. Ele se chama Valerius. Foi ele quem vazou as informações para a polícia sobre as operações de seu pai."
O nome Valerius fez Isabella gelar. Era um nome que Matteo já havia mencionado, um fantasma que pairava sobre eles. A peça que faltava no quebra-cabeça da traição.
"Valerius?", Isabella repetiu, a voz embargada.
"Sim. Carmine o está usando para obter informações privilegiadas. E para desviar as investigações. Ele disse que Valerius tem um ponto fraco. Uma filha. Ele a ama mais do que a tudo. Carmine está usando isso para controlá-lo." Giuseppe engoliu em seco, a voz tornando-se um sussurro. "Carmine pretende usar a filha de Valerius para forçar o policial a fazer o que ele quer. Se Valerius hesitar, a garota… bem, ele disse que ela seria um sacrifício necessário."
O estômago de Isabella revirou. O ciclo de violência, de ameaças, de vidas usadas como moeda de troca, a sufocava. Ela olhou para a pasta em suas mãos, sentindo o peso da responsabilidade. Aqueles papéis eram a chave para desmantelar o império de Carmine, para expor a verdade.
"Obrigada, Giuseppe", ela disse, sua voz firme. "Matteo vai honrar o acordo. Você estará seguro."
Giuseppe apenas assentiu, seus olhos ainda cheios de medo. "Por favor, senhorita. Certifique-se de que eu não seja esquecido."
Assim que Isabella terminou de falar, um ruído metálico ecoou no silêncio. Sons de passos se aproximando, não apenas de um, mas de vários homens. Isabella se virou abruptamente, o coração disparado. Giuseppe soltou um grito abafado.
Do meio da névoa e das sombras, emergiram figuras. Eram homens de Carmine. E entre eles, com um sorriso cruel e os olhos brilhando de triunfo, estava o próprio Carmine.
"Ora, ora. A bela Isabella", Carmine disse, sua voz carregada de escárnio. "Pensou que poderia me enganar? Que poderia fugir com minhas informações e meu dinheiro? Que tola."
Isabella sentiu um arrepio de terror. Ela fora emboscada. A armadilha não era para Carmine, era para ela. Matteo não estava aqui. Ou pior, ele havia sido enganado.
"Você não sabe com quem está lidando, Carmine", Isabella disse, tentando soar mais corajosa do que se sentia. Ela segurou a pasta com firmeza.
Carmine riu, um som rouco e desagradável. "Oh, eu sei exatamente com quem estou lidando. Uma garotinha que se acha esperta. Mas você é apenas uma peça no jogo. Uma peça que eu, e não Matteo, vou usar para conseguir o que quero." Ele fez um gesto para seus homens. "Peguem-na. E a pasta."
Os homens avançaram, mas Isabella não ficou parada. Ela correu, a pasta apertada contra o peito. Ela sabia que não podia lutar contra eles, mas podia tentar ganhar tempo. Correu entre os contêineres enferrujados, o som dos passos de seus perseguidores ecoando atrás dela.
"Não adianta fugir, Isabella!", Carmine gritou. "Valerius já nos contou tudo sobre você. Ele disse que você é a paixão de Matteo. Que você é a fraqueza dele. E nós vamos usar isso contra você."
A menção a Valerius, a traição, a descoberta de que ele havia revelado sua identidade a Carmine, a atingiu como um golpe físico. Ela tropeçou, quase caindo, mas se recuperou. Ela precisava chegar ao telefone.
Ela avistou o guindaste enferrujado, uma estrutura alta e sinistra contra o céu pálido. Havia uma pequena plataforma no topo. Talvez ela pudesse se esconder lá por um tempo. Ela correu em direção a ele, os homens de Carmine cada vez mais perto.
Quando estava prestes a alcançá-lo, uma figura surgiu das sombras. Era Matteo. Ele apareceu de repente, como um fantasma vindo do nada, seus olhos escuros faiscando de fúria. Ele parecia ter saído do nada, um anjo vingador surgindo para protegê-la.
"Você não vai tocá-la, Carmine!", Matteo rosnou, sua voz cheia de uma raiva contida que era mais aterrorizante do que qualquer grito.
Carmine parou, seu sorriso desaparecendo. "Matteo. Chegou bem a tempo. Para assistir a queda da sua amada."
Uma troca de olhares intensos entre os dois homens. Matteo sabia que havia caído em uma armadilha. E Isabella sabia que, apesar de sua coragem, ela havia se tornado o centro de um confronto mortal. A pasta em suas mãos, os segredos que continham, agora eram a razão de sua própria provação. O jogo de sombras havia se transformado em uma batalha aberta, e Isabella estava no meio do campo de batalha, a paixão que a unia a Matteo sendo o fio que a prendia ao perigo. Ela se perguntou se essa era a força que ele via nela, ou apenas mais uma prova de sua vulnerabilidade. A verdade, ela sabia, estava prestes a ser revelada, em meio ao caos e à violência que agora a cercavam.