Seduzida pelo Perigo 58
Seduzida pelo Perigo 58
por Rodrigo Azevedo
Seduzida pelo Perigo 58
Autor: Rodrigo Azevedo
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Capítulo 21 — O Sussurro da Traição
O ar no apartamento de luxo de Isabella cheirava a desespero e a um café forte que já esfriara na xícara sobre a mesa de mogno. As cortinas pesadas, fechadas contra o sol forte do Rio de Janeiro, criavam uma penumbra que parecia aprisionar a própria luz. Isabella, com os olhos vermelhos e as mãos trêmulas, revivia cada segundo do encontro na doca. O silêncio que se seguiu à partida de Matteo era um grito em seus ouvidos. Ele se fora, deixando para trás o cheiro inebriante de seu perfume caro e a marca fria da desconfiança que ela agora sentia em cada fibra de seu ser.
Tudo parecia ter se desmoronado em questão de horas. O plano, tão cuidadosamente arquitetado por ela e por aqueles que juraram lealdade, desfiara-se como um tecido velho sob a pressão implacável de Matteo. Ele sabia. De alguma forma, ele sabia. E a frieza em seus olhos quando a encarou... não era apenas raiva. Era decepção. Uma decepção que a rasgava por dentro, mais do que qualquer ameaça física.
Seus dedos tamborilavam incessantemente na madeira polida da mesa. A imagem de Matteo, o homem que a seduzira com promessas de um futuro que parecia tão palpável, o homem que despertara nela um fogo que ela jamais imaginara ser capaz de sentir, agora era o reflexo de sua maior ruína. Ela o amava. Era uma confissão dolorosa que ela se negava a admitir em voz alta, mas que martelava em seu peito como um tambor tribal. E esse amor a tornara cega, fraca, vulnerável.
Um toque suave na porta a fez sobressaltar. Era Sofia, sua fiel governanta e confidente, com um prato de frutas frescas e um sorriso preocupado. Sofia a conhecia desde criança, vira-a crescer, tornar-se a mulher forte e determinada que era. Mas agora, Sofia via uma Isabella quebrada, perdida.
"Senhorita Isabella," Sofia disse, a voz embargada de ternura. "Você precisa comer alguma coisa. Passou a noite em claro."
Isabella apenas balançou a cabeça, incapaz de formar as palavras. As frutas pareciam sem cor, o cheiro doce uma afronta à sua amargura.
"Sofia," ela finalmente conseguiu murmurar, a voz rouca. "Ele sabe. Matteo sabe de tudo."
Os olhos de Sofia se arregalaram, a bandeja de frutas deslizando levemente em suas mãos. "Sabe o quê, senhorita? Do quê está falando?"
"Do plano. De nós. De tudo," Isabella respondeu, a voz quebrada. Ela se levantou, andando pela sala como um animal enjaulado. "Ele me encarou na doca. Com aquele olhar... como se eu fosse a única traidora no mundo. Como se ele nunca tivesse confiado em mim."
Sofia se aproximou, colocando a bandeja de lado e tocando o braço de Isabella com gentileza. "Senhorita, talvez ele tenha apenas suspeitas. Talvez ele esteja jogando com você."
"Jogando?" Isabella riu, um som seco e sem humor. "Sofia, o jogo dele é de outra natureza. E eu fui a peça mais tola que ele já moveu. Ele me disse coisas... promessas... e eu acreditei. Acreditei nele, no amor que ele dizia sentir." Um soluço escapou de seus lábios. "E agora ele me olha como se eu fosse o lixo que ele vai varrer para debaixo do tapete."
"Senhorita, você é forte," Sofia insistiu, segurando o rosto de Isabella entre as mãos. "Você sempre foi. Não se deixe abater. O que aconteceu na doca foi um baque, mas não é o fim. Quem mais sabe disso?"
Isabella pensou em Marco, em Ricardo, nos outros. A rede de apoio que ela havia montado, os homens que compartilhavam seu ódio por Matteo e o desejo de vingança. Mas quem poderia ter falado? Quem teria o acesso, a astúcia para entregar a Matteo o segredo mais bem guardado?
"Não sei," ela sussurrou, os olhos fixos em um ponto indefinido no horizonte que as cortinas impediam de ver. "Mas alguém falou. Alguém dentro do nosso círculo."
A ideia a corroía. A traição dentro de casa, vinda de alguém em quem ela confiou, era um veneno mais insidioso do que qualquer arma. Ela fechou os olhos, tentando clarear sua mente. Se Matteo sabia, então tudo estava em risco. Seus aliados, o plano, sua própria vida. Matteo não era um homem que perdoava. Ele destruía.
"Temos que ser cuidadosos, Sofia. Terrivelmente cuidadosos," Isabella disse, a voz recuperando um pouco de sua firmeza, mas tingida de um medo que ela não podia mais esconder. "Se ele sabe que eu estou envolvida nisso, ele não vai hesitar. Ele virá atrás de mim. E ele virá atrás de todos nós."
Sofia assentiu, a preocupação gravada em seu rosto. "Quem poderia ser, senhorita? Alguém que se beneficiaria com isso? Alguém que Matteo poderia subornar?"
Isabella balançou a cabeça lentamente. "Não se trata de dinheiro, Sofia. Se trata de poder. Ou de medo. Alguém se sentiu ameaçado por nós. Ou talvez... talvez Matteo tenha feito uma oferta que alguém não pôde recusar."
Ela se aproximou da janela, afastando as cortinas com um movimento brusco. A luz do sol invadiu o quarto, cegando-a por um momento. Lá fora, o Rio de Janeiro pulsava com vida, alheio ao turbilhão que se abatia sobre ela. Mas para Isabella, o sol agora parecia um reflexo do olhar de Matteo, brilhante, implacável, e perigoso.
"Marco," ela chamou de repente, o nome saindo como um suspiro. Marco era seu braço direito, o mais leal de todos. Ou assim ela pensava. Mas a sombra da dúvida já se instalara em seu coração. Ela precisava saber. Precisava confrontar. E precisava descobrir quem era o verme que estava apodrecendo sua organização por dentro, antes que Matteo usasse essa informação para aniquilá-los a todos. A noite na doca fora apenas o prelúdio. A verdadeira tempestade estava prestes a começar. E ela sabia, com uma certeza aterradora, que Matteo não pararia até ver tudo o que ela construiu desmoronar. E a maior dor era saber que ele, o homem que ela amava, seria o instrumento dessa destruição.