Seduzida pelo Perigo 58

Capítulo 22 — A Sombra de um Passado Negro

por Rodrigo Azevedo

Capítulo 22 — A Sombra de um Passado Negro

O barulho incessante do trânsito carioca parecia uma melodia distante para Marco, imerso na penumbra do seu escritório, um refúgio improvisado em uma antiga casa colonial no Cosme Velho. O cheiro de livros empoeirados e um leve aroma de aguardente pairavam no ar. Ele observava a cidade através da janela gradeada, a paisagem urbana, outrora vibrante e cheia de promessas, agora se assemelhava a um labirinto intrincado, cheio de becos sem saída e perigos ocultos. A reunião na doca o deixara apreensivo. A maneira como Matteo encarou Isabella, a tensão palpável no ar... ele sentia que algo havia escapado do controle.

Marco era um homem de poucas palavras, mas de ações calculadas. Crescera nas ruas do Rio, aprendera a ler as entrelinhas, a sentir o perigo antes mesmo que ele se materializasse. Sua lealdade a Isabella era inabalável, forjada em anos de cumplicidade e respeito mútuo. Ele a via como a irmã que nunca teve, a promessa de um futuro onde a ordem prevalecesse sobre o caos que ele conhecera em sua juventude. Mas a presença de Matteo em suas vidas era uma anomalia perigosa, um predador que ameaçava destruir o frágil equilíbrio que eles tentavam construir.

Ele pegou uma garrafa de uísque pela metade e serviu-se de um copo, o líquido âmbar brilhando à luz fraca. Cada gole era um convite à reflexão, um diluente para a ansiedade que começava a corroê-lo. Isabella o havia chamado para uma conversa urgente, e o tom em sua voz, mesmo através do telefone, era de uma gravidade que ele não ouvia há muito tempo. A suspeita de traição dentro de seus próprios círculos era um pensamento que o assombrava, mas que ele se recusava a aceitar.

"Alguém falou," Isabella havia dito, a voz tensa. "E você é o único em quem confio para me ajudar a descobrir quem."

Marco sabia que não era um trabalho fácil. Havia muitas pontas soltas, muitos interesses em jogo. Matteo era um mestre em manipulação, capaz de virar aliados contra inimigos com um sussurro bem colocado. E Isabella, por mais forte que fosse, estava vulnerável. O amor que ela sentia por Matteo era um ponto fraco que o italiano explorava com crueldade.

Ele se levantou e começou a andar pelo escritório, os passos firmes ecoando no silêncio. Precisava pensar como Matteo. O que o motivava? Poder, controle, e acima de tudo, a aniquilação de qualquer um que ousasse desafiá-lo. Ele havia construído um império sobre pilhas de cadáveres e traições, e Marco sabia que a história se repetiria se eles não fossem cuidadosos.

Uma imagem surgiu em sua mente: um rosto familiar, um sorriso que escondia algo sombrio, uma ambição que Marco conhecia bem demais. Era o rosto de um homem que ele havia tentado proteger Isabella de há anos, um fantasma de um passado que Marco pensara ter deixado para trás. O nome era André Bastos. Um mercador de influência, um homem que prosperava na sombra dos poderosos, trocando informações por favores e dinheiro. André tinha acesso a todos, sabia de tudo. E ele era conhecido por sua falta de escrúpulos.

Marco parou abruptamente, o copo de uísque esquecido em sua mão. André. A ideia era perigosa, mas fazia sentido. André sempre foi um camaleão, adaptando-se a qualquer ambiente, a qualquer mestre. Ele se aproximava de quem estava no topo, oferecendo seus serviços, suas informações. E Matteo, com sua vasta rede e seu poder implacável, seria um prato cheio para alguém como André.

Ele se lembrou de uma conversa antiga com Isabella, quando ela ainda estava se recuperando da perda de seus pais e a máfia tentava tomar o controle de seus negócios. André havia se oferecido para ajudar, para ser o "olho e ouvido" dela no submundo. Isabella, na época, estava desesperada, mas algo em André a incomodara, uma frieza que a fez recusar seus serviços. Marco, com sua intuição aguçada, sentira o mesmo. Algo em André não cheirava bem.

"André Bastos," Marco murmurou para si mesmo, o nome soando como um aviso. Ele sabia que André tinha uma dívida com Matteo, um favor antigo que nunca fora completamente pago. Matteo era conhecido por cobrar suas dívidas com juros altos e crueldade.

A possibilidade de André ter traído Isabella para se livrar de suas obrigações com Matteo, ou talvez para ganhar a confiança do chefão da máfia, era assustadoramente real. André não era leal a ninguém além de si mesmo. Sua única moeda era a informação, e ele a vendia para o maior lance.

Marco pegou o telefone. Precisava falar com Isabella imediatamente. Não podia esperar. A cidade lá fora continuava sua sinfonia caótica, mas para ele, o tempo havia se esgotado. Ele precisava agir.

"Isabella," ele disse, a voz firme e calma quando ela atendeu. "Eu sei quem pode ter falado. E não é alguém que você esperaria."

Ele explicou sua teoria sobre André Bastos, a antiga dívida com Matteo, a natureza traiçoeira do homem. Isabella ficou em silêncio por um momento, o choque em sua voz palpável.

"André?" ela finalmente perguntou, a voz embargada. "Mas... por quê? Ele não tinha nada a ganhar com isso. Ele não faz parte do nosso círculo."

"Ele não faz parte do nosso círculo, Isabella. Mas ele está no círculo de Matteo. Ele é um parasita, e Matteo é o hospedeiro perfeito para alguém como ele. Ele pode ter oferecido informações sobre você em troca de segurança, ou talvez Matteo o tenha chantageado." Marco respirou fundo. "O fato é que ele tem o conhecimento e a motivação para fazer isso. E ele é exatamente o tipo de pessoa que Matteo usaria para nos desestabilizar."

Um tremor percorreu a voz de Isabella. "Isso significa que Matteo sabe que estou envolvida em algo contra ele. Ele sabe que eu estava na doca planejando... ele sabe que eu tenho aliados."

"Exatamente. E ele vai usá-la contra nós. Ele vai tentar nos isolar, nos enfraquecer. Temos que ser mais fortes agora, Isabella. E temos que ter certeza de quem está do nosso lado."

A ligação ficou em silêncio novamente, mas desta vez, era um silêncio de estratégia, não de desespero. Marco podia sentir a mente de Isabella trabalhando, a força de vontade que a tornava tão perigosa.

"Precisamos de provas, Marco," ela disse, a voz agora com um tom gélido que ele conhecia bem. "Não podemos agir com base em suspeitas. Precisamos de algo concreto para confrontar André. E precisamos de algo para expor Matteo."

"Eu sei," Marco respondeu. "Eu vou investigar André. Vou descobrir o que ele está escondendo. E vou encontrar a prova que precisamos."

Ele desligou o telefone, sentindo o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. A sombra de um passado negro havia retornado, e ele sabia que a luta seria longa e brutal. Mas ele não estava sozinho. Isabella estava com ele, e juntos, eles enfrentariam qualquer coisa. Ele olhou para a cidade, para o labirinto de ruas e edifícios. A verdade estava escondida em algum lugar ali, e ele a encontraria. Por Isabella, ele faria o que fosse preciso. A confiança era um luxo que eles não podiam mais se dar, mas a determinação, essa, era uma arma que eles possuíam em abundância.

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