Seduzida pelo Perigo 58
Capítulo 23 — O Abraço das Sombras
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 23 — O Abraço das Sombras
O salão principal da mansão de Matteo, em um condomínio fechado de luxo em Santa Teresa, era um monumento à ostentação e ao poder. Mármore italiano polido, obras de arte de valor inestimável e lustres de cristal que pareciam capturar a própria essência da opulência emolduravam o jantar íntimo. Matteo, impecavelmente vestido em um terno sob medida, era a personificação da elegância fria e implacável. Ao seu lado, Isabella, em um vestido de seda esmeralda que realçava seus olhos, lutava para manter uma fachada de normalidade. Cada sorriso, cada palavra, era uma performance cuidadosamente ensaiada.
O jantar, marcado sob o pretexto de uma trégua temporária, era na verdade um campo minado. Matteo a convidara para discutir os "assuntos pendentes", uma frase vaga que deixava Isabella em estado de alerta constante. O encontro na doca ainda a assombrava. A maneira como ele a encarou, o silêncio carregado de acusações não ditas... ela sabia que ele desconfiava, mas não sabia o quanto. E era esse desconhecido que a deixava em pânico.
"Você parece pensativa esta noite, Isabella," Matteo disse, a voz suave como veludo, mas com um toque de sarcasmo que ela não conseguia ignorar. Ele levantou sua taça de vinho tinto, o reflexo das luzes dançando no líquido escuro. "Algo te aflige, meu amor?"
O "meu amor" soou oco em seus ouvidos, uma arma disfarçada de carinho. Isabella forçou um sorriso. "Apenas o cansaço, Matteo. Os negócios têm sido... intensos."
"Ah, os negócios," ele suspirou teatralmente, recostando-se na cadeira. "Sempre tão... exigentes. Mas você sempre soube como lidar com eles, não é? Uma mulher forte, decidida. É por isso que me encanto por você."
As palavras dele eram um jogo perigoso, um flerte com a verdade que ela tentava esconder. Ele sabia que ela tinha aliados. Sabia que ela estava agindo contra ele. A questão era: o quanto ele sabia? E o que ele planejava fazer com essa informação?
Ela bebeu um gole de seu vinho, o sabor amargo contrastando com a doçura aparente de suas palavras. Ela se lembrou de Marco, de sua investigação sobre André Bastos. Marco jurara encontrar provas, mas o tempo era curto. Cada momento que passava com Matteo era um risco calculado, um passo em falso que poderia significar sua ruína.
"Você tem sido muito generoso comigo ultimamente, Matteo," Isabella disse, tentando desviar o assunto. "Tanto em termos de negócios quanto... de sua companhia."
"A generosidade é uma virtude que aprecio," ele respondeu, seus olhos fixos nos dela, intensos e penetrantes. "E você, Isabella, me inspira a ser ainda mais generoso. Você é um tesouro, um que eu quero manter seguro. Protegido de todo e qualquer perigo."
O abraço das sombras, Isabella pensou. Era assim que ela se sentia. Envolvida em sua aura de poder, sufocada por suas atenções, mas incapaz de escapar. Ele a cercava com uma teia de promessas e ameaças, e ela estava presa no centro, lutando para não sucumbir.
"Eu aprecio a sua preocupação, Matteo," ela disse, a voz controlada. "Mas eu sei me cuidar."
Um sorriso malicioso brincou em seus lábios. "Eu sei que você sabe. Mas às vezes, até os mais fortes precisam de um pouco de... proteção. Especialmente quando há forças sombrias à espreita. Forças que buscam prejudicá-la, que a invejam."
Ele estava jogando com ela, sugerindo que ela era a vítima, quando na verdade, ela era a ameaça. A ironia era cruel.
"Forças sombrias?" Isabella perguntou, fingindo surpresa. "Que forças, Matteo?"
"Ah, você sabe," ele disse, com um gesto vago da mão. "O submundo é um lugar traiçoeiro. Pessoas com interesses escusos. Inveja. Ganância. Você atraiu muita atenção, meu amor. E nem toda essa atenção é... benéfica."
Ele estava testando-a, tentando fazê-la revelar algo. Mas Isabella estava preparada. Ela o olhou nos olhos, sem vacilar. "Eu confio nas pessoas certas, Matteo. E sei quem está do meu lado."
A declaração foi um desafio velado. Matteo a encarou por um longo momento, um silêncio carregado de tensão se instalando entre eles. Ele parecia ponderar suas palavras, a mente calculista trabalhando a todo vapor.
"É bom ouvir isso," ele disse finalmente, a voz voltando ao seu tom suave e sedutor. "A lealdade é uma qualidade rara e preciosa. E eu valorizo a lealdade acima de tudo. Especialmente a sua, Isabella."
Ele estendeu a mão sobre a mesa, seus dedos roçando os dela. A eletricidade que percorreu seu corpo foi inegável, um lembrete perigoso da atração que ainda existia entre eles. Ela lutou para não recuar, para manter a compostura.
"Você me fascina, Isabella," ele confessou, o olhar escuro fixo no dela. "Você é um enigma que eu não consigo decifrar completamente. E isso me excita."
Era um jogo de sedução perigoso, um que Isabella estava jogando com o diabo. Ela sabia que ele a queria, não apenas como amante, mas como um troféu, uma posse. E ele estava determinado a mantê-la sob seu controle.
"Matteo," ela disse, a voz baixa e firme, "temos assuntos pendentes para discutir. Não é? Sobre os carregamentos. Sobre a expansão dos negócios."
Ele sorriu, satisfeito com a mudança de assunto. "Ah, sim. Os carregamentos. Parece que houve alguns... contratempos. Pequenas perturbações. Nada que não possamos resolver. Com a sua ajuda, é claro."
Ele estava insinuando. Ele sabia que algo estava errado com os carregamentos. Sabia que ela estava por trás disso. Mas ele não a acusava diretamente. Ele preferia deixar que ela se afogasse em suas próprias mentiras.
"Eu estou trabalhando nisso," Isabella respondeu, a voz firme. "Quero garantir que tudo ocorra sem problemas."
"Eu sei que sim," ele disse, seus olhos brilhando com uma intensidade que a fez estremecer. "E é por isso que eu confio em você. Mas é importante que você entenda, meu amor, que a confiança é uma via de mão dupla. E que a traição... ah, a traição é algo que eu não perdoo. Nunca."
As palavras dele eram uma ameaça velada, um aviso sombrio. Isabella sentiu o sangue gelar. Ele sabia. Ele sabia mais do que ela imaginava. A noite estava longe de terminar, e cada palavra trocada era uma peça no intrincado quebra-cabeça que Matteo estava montando. Ela precisava sair dali. Precisava encontrar Marco. Precisava de provas. Porque o abraço de Matteo, por mais sedutor que fosse, era o abraço das sombras, e ela sentia que estava se afogando nele. A cada sorriso, a cada toque, ele a prendia mais em sua teia, e a linha entre o amor e o perigo, entre a sedução e a destruição, tornava-se cada vez mais tênue.