Seduzida pelo Perigo 58
Capítulo 9 — A Teia de Mentiras
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 9 — A Teia de Mentiras
A noite em São Paulo, antes palco de uma perigosa perseguição, agora se tornava um labirinto de aço e concreto, onde as sombras pareciam se estender infinitamente. Dimitri, ao volante de seu Mercedes-Benz, observava a van preta desaparecer em meio ao tráfego noturno. A carga em seu porta-malas era apenas uma fração do que fora roubado, um lembrete amargo da audácia de Anastasya e do "Russo".
Marco, no banco do passageiro, ajustava o rádio, tentando captar alguma comunicação, mas o silêncio era absoluto. "Eles sumiram, Dimitri. Como fantasmas."
"Fantasmas que deixam rastros," Dimitri respondeu, o tom de sua voz carregado de uma frieza calculista. "Anastasya não é idiota. Ela não vai se esconder em qualquer lugar. Ela tem um plano."
Ele parou o carro em um viaduto, a cidade se estendendo abaixo deles como um tapete cintilante. A adrenalina da perseguição começava a dar lugar a uma análise fria da situação. A traição de Anastasya o atingira de uma forma que nenhuma ameaça externa jamais conseguira. Ele a havia visto como algo diferente, uma anomalia em seu mundo de interesses puramente egoístas.
"Vladimir," Dimitri murmurou, o nome ecoando em sua mente. "Ele é a chave. Ele pode ter mais informações sobre os planos de Anastasya e do 'Russo'."
"Concordo. Mas ele está assustado, Dimitri. Pode ser difícil tirar mais alguma coisa dele."
"Não se trata de tirar. Trata-se de fazê-lo entender que a sua lealdade a mim é menos perigosa do que a sua lealdade a eles."
De volta ao luxuoso apartamento que servia como base de operações de Dimitri, Vladimir estava sentado em uma cadeira, visivelmente abalado. Seus olhos percorriam o ambiente com desconfiança, como se esperasse a qualquer momento que a porta se abrisse e os homens do "Russo" o levassem.
Dimitri entrou na sala, sentou-se em frente a ele, e serviu-se de um copo de uísque. O silêncio se prolongou, tenso, até que Dimitri finalmente quebrou o gelo.
"Você tem sorte, Vladimir," Dimitri disse, a voz calma, mas carregada de uma ameaça implícita. "Sua sorte é que eu prefiro a inteligência à violência desnecessária. Por enquanto."
Vladimir engoliu em seco. "Eu... eu não sei mais nada, Dimitri. Eu juro."
"Você sabe. Você só tem medo de falar. Medo de quem te comprou, e medo do que Anastasya pode fazer. Mas você também sabe que eu posso ser... muito mais implacável." Dimitri inclinou-se para frente, o olhar fixo no homem. "O que Anastasya disse a você sobre mim? O que ela te convenceu a acreditar?"
Vladimir hesitou, mas a determinação fria nos olhos de Dimitri o forçou a falar. "Ela disse que você a usou. Que você a descartou. Que ela precisava se defender. E que o 'Russo' era a única pessoa que poderia lhe dar uma nova vida."
"Uma nova vida," Dimitri repetiu, um sorriso amargo se formando em seus lábios. "Ela acha que o 'Russo' é um salvador. Ele é um predador, Vladimir. E ela é a presa mais fácil."
"Mas ela tinha informações sobre você, Dimitri. Informações sobre os seus contatos em outros países. Ela planejava usá-las para negociar. Para conseguir mais poder com o 'Russo'."
"Ela é uma idiota ambiciosa," Dimitri disse, balançando a cabeça. "Ela pensa que pode brincar com fogo sem se queimar. Ela vai se queimar, Vladimir. E quando isso acontecer, ela vai querer alguém para culpar."
"Eu não quero ser essa pessoa, Dimitri," Vladimir disse, a voz trêmula.
"Então me diga. Onde eles podem estar se escondendo? Onde Anastasya se sentiria segura? Onde o 'Russo' teria um refúgio seguro?"
Vladimir pensou por um momento, o suor escorrendo por sua testa. "Há um lugar. Um antigo armazém que o 'Russo' usa como base de operações. É no interior, a algumas horas de São Paulo. Um lugar isolado, longe dos olhos da polícia."
"Preciso das coordenadas exatas, Vladimir. E de quem mais está com eles. Anastasya tem aliados?"
"Ela disse que o 'Russo' tem alguns homens de confiança. Mas ela não mencionou mais ninguém. Ela estava muito focada em obter o que queria."
Dimitri se levantou. "Marco, prepare o avião. Vamos para o interior."
Ele sabia que era uma jogada arriscada. Ir diretamente para o esconderijo do inimigo. Mas ele não tinha tempo a perder. Anastasya estava se tornando uma ameaça cada vez maior, e ele precisava neutralizá-la antes que ela pudesse causar mais danos.
Enquanto o avião decolava, Dimitri olhou para as luzes de São Paulo se afastando. Ele pensou em Anastasya. Ele a havia trazido para perto, confiando nela, vendo nela algo que o fascinava. E ela o traiu. A dor era real, mas a determinação de Dimitri era ainda maior. Ele não era um homem que se permitia ser ferido sem revidar.
O destino era um velho casarão em ruínas, cercado por uma vasta propriedade rural. O lugar exalava um ar de decadência, mas Dimitri sabia que, por trás da fachada, havia uma fortaleza.
Ao chegarem, foram recebidos por um silêncio opressor. O sol da manhã pintava o céu com tons de laranja e rosa, mas o ambiente parecia sombrio e ameaçador. Dimitri desceu do avião, seguido por Marco e alguns homens de confiança.
Eles se aproximaram do casarão com cautela. As janelas estavam todas fechadas, as portas trancadas. Era como se o lugar estivesse abandonado. Mas Dimitri sentia a presença de pessoas ali dentro.
"Marco, rodeie o perímetro. Certifique-se de que ninguém saia," Dimitri ordenou.
Ele se aproximou da porta principal, a pistola em punho. Com um chute forte, ele a arrombou. O interior era escuro e empoeirado, mas com sinais claros de ocupação. Móveis luxuosos, mas desgastados, espalhados pelo salão principal.
"Anastasya! 'Russo'! Sei que estão aqui!" Dimitri gritou, a voz ecoando pelo casarão. "O jogo acabou!"
Um silêncio tenso se seguiu. Então, do fundo do casarão, surgiu a figura do "Russo", seguido por Anastasya. Ela parecia mais confiante agora, o olhar desafiador.
"Você é persistente, Dimitri. Mas imprudente," o "Russo" disse, um sorriso sarcástico nos lábios.
"Imprudente é achar que pode roubar o que é meu e sair impune," Dimitri respondeu, avançando. "E você, Anastasya. Você se arrependerá de cada palavra que disse contra mim."
Anastasya deu um passo à frente. "Eu não me arrependo de nada, Dimitri. Eu me livrei de você. E agora, com as informações que tenho, eu serei mais poderosa do que você jamais foi."
"Poderosa? Você é uma fantoche. Uma peça no jogo de alguém mais esperto." Dimitri sabia que ela estava mentindo, ou pelo menos acreditando em uma mentira. Ela não tinha o poder que pensava ter.
A troca de palavras se transformou em um confronto. Os homens do "Russo" emergiram das sombras, armados. Dimitri e seus homens estavam prontos.
A batalha começou. Tiros ecoaram pelo casarão, misturando-se aos gritos. Dimitri lutava com a fúria de um homem traído, cada movimento calculado, cada tiro certeiro. Ele via Anastasya nos olhos de seus adversários, o reflexo de sua própria dor e raiva.
No meio do caos, ele viu Anastasya tentando fugir pelos fundos. Ele a seguiu, determinado a não deixá-la escapar novamente. Eles se encontraram em um dos quartos mais isolados do casarão.
"Você não vai a lugar nenhum, Anastasya," Dimitri disse, a voz carregada de emoção.
Ela o olhou, os olhos marejados, mas com um brilho de desafio. "Você nunca vai me pegar, Dimitri. Eu sou mais esperta do que você pensa."
"Você não é esperta, Anastasya. Você é apenas uma manipuladora. E agora, você vai pagar."
Dimitri avançou, mas antes que pudesse alcançá-la, um tiro ecoou. Anastasya caiu, um fio de sangue escorrendo por sua testa. Dimitri olhou horrorizado para a cena. O "Russo" estava parado na porta, uma arma na mão.
"Eu não permito traidores no meu círculo, Dimitri," o "Russo" disse, um sorriso cruel nos lábios. "Nem mesmo aqueles que me trazem vantagens."
Dimitri sentiu o sangue gelar. Anastasya, que ele acreditava ser uma traidora implacável, era apenas mais uma peça no tabuleiro do "Russo". Ele havia sido manipulado, assim como ela. A teia de mentiras era mais complexa do que ele imaginava. E ele estava preso nela.