A Caçadora de Vampiros II
Capítulo 22 — O Jantar com o Diabo e a Essência da Noite
por Luna Teixeira
Capítulo 22 — O Jantar com o Diabo e a Essência da Noite
O caminho para a Floresta Negra era uma sinfonia de rangidos de galhos, o farfalhar de folhas secas sob os pés e o uivo distante de animais noturnos. A lua, uma lasca pálida e indiferente no céu, oferecia pouca luz, forçando Aurora, Léo e Sofia a se guiarem pelas sombras e pela memória dos antigos mapas. O ar úmido e frio da floresta penetrava suas roupas, mas não o calor da urgência que os impulsionava. A antiga ruína, um lugar envolto em lendas sombrias, aguardava no coração da mata, um convite macabro que Aurora não podia recusar.
Eles avançavam em silêncio, cada um concentrado em suas próprias apreensões. Léo, com a mão sempre próxima ao cabo de sua adaga, mantinha-se alerta a qualquer movimento suspeito entre as árvores retorcidas. Sofia, apesar de sua juventude, demonstrava uma calma surpreendente, seus olhos atentos examinando o terreno em busca de ervas medicinais ou sinais de perigo. Aurora, no entanto, estava imersa em um mundo próprio, sua mente lutando para decifrar os sussurros da floresta, buscando qualquer resquício da presença de Drácula ou de seu irmão.
“Estamos perto”, sussurrou Elias, que, apesar de sua idade, insistira em acompanhá-los, um farol de conhecimento e cautela. Sua voz, embora fraca, carregava uma autoridade inquestionável. “As árvores aqui são diferentes. Mais antigas. Mais… sombrias.”
Aurora sentiu. Uma energia opressora emanava da direção que Elias apontava. Não era apenas a escuridão da noite, mas uma escuridão palpável, densa, que parecia sugar a própria vida do ambiente. Era a aura de um lugar tocado pelo mal, um lugar onde a própria terra suspirava de dor.
Ao contornarem um aglomerado de rochas cobertas de musgo, a ruína surgiu diante deles. Era um espetáculo de desolação: pedras em ruínas que um dia formaram um castelo imponente, agora desmoronadas e engolidas pela vegetação. Heras venenosas serpenteavam pelas paredes quebradas, e as poucas torres que ainda se erguiam pareciam dedos esqueléticos apontando para o céu escuro. Um silêncio sepulcral pairava sobre o lugar, um silêncio que parecia desafiar a própria existência.
“É aqui”, disse Aurora, a voz embargada pela força da energia que emanava do local. “O ‘jardim’ de Drácula. Sinto a presença dele… forte. E algo mais… algo fraco, mas familiar.”
Um arrepio percorreu a espinha de todos. Era a presença de Rafael. Fraca, assustada, mas presente. Era como um fio de esperança, teimoso em se manter vivo em meio à escuridão avassaladora.
“Tenham cuidado”, advertiu Elias. “Drácula não o traria para cá apenas para exibi-lo. Ele quer te atrair, Aurora. Ele quer te ver sofrer, te ver desesperada. Este lugar é uma armadilha projetada para a sua alma.”
Eles adentraram a ruína com cautela, cada passo ecoando no silêncio opressor. O interior era ainda mais sombrio e desolado do que o exterior. Paredes desmoronadas, mobília em decomposição e um cheiro de mofo e algo mais… algo metálico e adocicado que Aurora reconheceu com um calafrio: sangue.
“Ele está brincando conosco”, Léo sibilou, os olhos fixos em um grande salão central, onde uma mesa longa e majestosa, surpreendentemente intacta, estava posta com uma opulência macabra. Velas negras derretiam lentamente, lançando uma luz fantasmagórica sobre taças de cristal repletas de um líquido escarlate e pratos que continham… Aurora não queria pensar no que continham.
No centro da mesa, sentado em uma cadeira ornamentada, estava ele. Drácula.
Ele não era como Aurora imaginava. Não era um monstro grotesco, mas um homem de beleza perturbadora. Sua pele era pálida como mármore, seus olhos, de um vermelho profundo e hipnotizante, pareciam carregar séculos de sabedoria e malícia. Vestia roupas elegantes, de um tecido escuro que parecia absorver a pouca luz, e um sorriso sutil brincava em seus lábios bem desenhados. Ele parecia um anfitrião acolhedor, prestes a receber convidados ilustres.
E ao lado dele, amarrado a uma cadeira, desacordado e com o rosto machucado, estava Rafael.
O grito de Aurora foi contido por um som gutural que escapou de sua garganta. A visão de seu irmão em tal estado apertou seu coração com uma dor lancinante.
Drácula inclinou a cabeça, seu sorriso se alargando. “Bem-vinda, Caçadora. Eu esperava por você. Sente-se, por favor. O jantar está servido.” Sua voz era suave como seda, mas continha uma corrente subterrânea de perigo.
Aurora deu um passo à frente, a raiva queimando em seu peito, mas a cautela a detendo. “Onde você o trouxe, Drácula? O que você fez com ele?”
“Ele está aqui, seguro”, Drácula respondeu com uma falsa gentileza. “E eu não fiz nada… que ele não tenha me permitido, de certa forma. A escuridão tem um apelo, não é mesmo? Uma promessa de poder, de liberdade das amarras mundanas.” Ele gesticulou para a cadeira vazia ao seu lado. “Você deve estar cansada. A viagem deve ter sido árdua. Por que não se une a nós? Um jantar entre família.”
Léo avançou, mas Aurora o segurou. Ela sabia que ele queria proteger, mas era um jogo que ela precisava jogar. “Família?”, ela repetiu, a voz trêmula de uma fúria controlada. “Você sequestrou meu irmão! Você é um monstro!”
Drácula riu, um som que parecia ecoar pelas ruínas antigas. “Monstro? Talvez. Mas um monstro com um paladar refinado. A carne humana é… previsível. Mas a alma… ah, a alma é o verdadeiro banquete. E a sua alma, Caçadora, transborda com a angústia de uma mãe que perdeu o filho, de uma irmã que teme pela vida do irmão. É um sabor que eu anseio.” Ele deu uma leve batida na taça com seu dedo longo e pálido. “Esta noite, vamos celebrar a sua chegada. E a inevitabilidade da escuridão.”
Sofia, que observava tudo atentamente, notou algo. As velas negras não emitiam calor. E o líquido nas taças… não parecia vinho. Parecia… escuridão líquida. Ela olhou para Elias, que assentiu com um olhar grave.
“Drácula não se alimenta apenas de sangue, Aurora”, Elias sussurrou, baixo o suficiente para que apenas Aurora e Sofia ouvissem. “Ele se alimenta da essência da noite. Da dor, do desespero, da própria escuridão que reside em nós. Ele aprisiona as almas de suas vítimas e as usa para alimentar seu poder.”
Aurora sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Ela entendeu. Drácula não queria apenas torturá-la; ele queria devorá-la, consumir sua força vital, sua esperança. O “jardim” dele não era apenas um lugar de sofrimento, mas um receptáculo de almas perdidas, um lugar onde ele se alimentava da própria noite.
“E você acha que eu vou sentar e participar do seu banquete, Drácula?”, Aurora disse, sua voz ganhando força, a fúria finalmente superando o medo. Ela se aproximou da mesa, mas manteve uma distância segura. “Você acha que eu vou entregar a minha alma para você?”
“A alma não é algo que se entrega, Caçadora”, Drácula respondeu, seus olhos vermelhos fixos nos dela. “É algo que se perde. E você está prestes a perdê-la, quando perceber que não há esperança para o seu irmão.”
Ele fez um gesto com a mão, e como se atendendo a um comando silencioso, duas figuras sombrias surgiram das sombras. Eram criadas de Drácula, suas formas indistintas na escuridão, mas a energia sinistra que emanava delas era inconfundível. Elas se posicionaram ao lado de Rafael, e uma delas tocou seu braço, fazendo-o gemer.
Rafael abriu os olhos, fracos e cheios de dor. Ele olhou para Aurora, um pedido silencioso em seu olhar. “Aurora… me ajude…”
A visão de seu irmão em agonia quebrou as últimas barreiras de controle de Aurora. Ela levantou sua espada, a lâmina brilhando com uma luz interna, um reflexo de sua determinação. “Eu não vim para jantar, Drácula. Eu vim para buscar o que é meu.”
Drácula riu novamente. “Tão apaixonada. Tão… comestível. Você acha que pode lutar contra mim aqui, no meu domínio? No meu jardim?” Ele se levantou, sua figura alta e imponente. A atmosfera na ruína tornou-se ainda mais pesada, a escuridão parecendo se adensar ao seu redor. “Você não entende, Caçadora. Este lugar é feito de almas perdidas. E você, com seu desespero, com seu amor, está prestes a se tornar mais uma delas.”
Ele estendeu a mão para Rafael, e um fio tênue de escuridão se estendeu de seus dedos até o irmão de Aurora. Era um ato de possessão, de corrupção. Aurora viu aquilo e soube que não podia mais hesitar. O jantar com o diabo havia começado, e ela não seria a convidada, mas a combatente. A essência da noite estava ao redor deles, mas a essência de sua coragem, de seu amor, era ainda mais forte.