Cap. 1 / 17

O Anjo Caído

O Anjo Caído

por Nathalia Campos

O Anjo Caído

Capítulo 1 — O Sussurro na Chuva Fria

A chuva caía impiedosa sobre o asfalto de São Paulo, transformando as ruas em rios escuros e espelhando as luzes neon em reflexos distorcidos. Dentro do seu velho Passat, Giovanna apertava o volante com os nós dos dedos brancos, sentindo a ansiedade subir como bile. As gotas de chuva escorriam pelo para-brisa, cada uma delas parecendo zombar da sua pressa. Era quase meia-noite e o barulho incessante da tempestade parecia um prenúncio, uma trilha sonora dramática para o desespero que a consumia.

Ela não deveria estar ali. Não naquela noite. O convite chegara há uma semana, um pedaço de papel grosso e perfumado, com a caligrafia elegante e sinuosa que ela reconheceria em qualquer lugar. Um convite para a festa de aniversário de Ricardo. Ricardo, o homem que fora seu primeiro amor, seu primeiro tudo. E agora, o homem que estava prestes a se casar com sua melhor amiga.

Giovanna apertou os lábios. A dor era uma velha conhecida, um fantasma que a assombrava desde o dia em que descobriu a traição. Mas era a dor da humilhação que a corroía agora. Ver Ricardo, o homem a quem dedicara anos de sonhos e planos, nos braços de Ana Clara, sua confidente, sua irmã de alma, era um golpe de misericórdia. E mesmo assim, ela estava ali, dirigindo em direção à mansão dos pais dele nos Jardins, como se buscasse uma tortura autoimposta.

O rádio chiava, a voz do locutor tentando, em vão, trazer um sopro de leveza para a noite. Giovanna desligou-o, preferindo o rugido da chuva e o bater frenético do seu coração. Ela lembrava-se de Ricardo como um raio de sol, um sorriso que desarmava qualquer defesa, um abraço que aquecia a alma. Longe dos holofotes e das aparências, ele era um mistério, um enigma que ela jurara decifrar. Mas o enigma, ela descobriu da pior maneira, era complexo demais para ela. Ou talvez, ela fosse simplesmente incapaz de competir com a promessa de estabilidade e o nome de família que Ana Clara podia oferecer.

A mansão surgiu em meio à escuridão, um colosso de luzes e sombras, com a chuva açoitava as árvores centenárias que a cercavam. Carros de luxo espelhavam os faróis molhados, e a música vibrante, abafada pela tempestade, escapava pelas janelas altas. Giovanna estacionou o Passat a uma distância segura, observando a movimentação. A cada convidado que adentrava a mansão, sentia um aperto no peito. Ela não pertencia àquele mundo de glamour e sorrisos forçados. O seu lugar era outro, um lugar que ela já não sabia encontrar.

Respirou fundo, o ar úmido e frio preenchendo seus pulmões. A decisão de vir fora impulsiva, uma mistura de saudade, raiva e uma necessidade desesperada de ver com os próprios olhos o que perdera, e, talvez, o que nunca fora verdadeiramente seu. Ela precisava confrontar a imagem de Ricardo e Ana Clara juntos, um quadro que se repetia em seus pesadelos, para finalmente rasgá-lo em pedaços.

Saiu do carro, o vestido de seda azul escuro grudando na pele com a umidade. O vento gelado chicoteou seus cabelos, espalhando-os ao redor do seu rosto pálido. Era a primeira vez que voltava àquela casa desde o fim. Desde a verdade. Seus olhos percorreram a fachada imponente, as janelas iluminadas, e uma onda de memórias a atingiu com a força de um maremoto. O cheiro de terra molhada, o som das risadas deles ecoando pelos jardins, o toque da mão de Ricardo na sua. Tudo parecia tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante.

Hesitou por um momento na entrada de pedra, a chuva escorrendo pelo seu rosto como lágrimas. Uma serva, com um guarda-chuva preto reluzente, abriu a porta de madeira maciça.

“Boa noite, senhorita”, disse a serva, com um leve sotaque carregado. “Seja bem-vinda.”

Giovanna forçou um sorriso. “Obrigada.”

Ao cruzar o umbral, o calor e o burburinho da festa a envolveram. A decoração era opulenta, com arranjos florais exuberantes, lustres de cristal e um som de jazz suave que contrastava com a violência da tempestade lá fora. As pessoas conversavam animadamente, com taças de champanhe em mãos, alheias à sua angústia. Ela sentiu-se um peixe fora d’água, uma intrusa naquele universo de felicidades simuladas.

Seu olhar varreu o salão, procurando-os. E então, ela os viu. Ricardo, impecável em seu smoking, com um sorriso radiante, estava ao lado de Ana Clara, que brilhava em um vestido vermelho esmeralda, a mão dele acariciando suavemente as costas dela. Eles pareciam um quadro perfeito, digno de capa de revista. A visão a atingiu como um soco no estômago. Por um instante, o mundo pareceu parar. O burburinho da festa, a música, tudo se dissolveu em um zumbido distante. Apenas eles dois existiam, alheios ao seu sofrimento, alheios à tempestade que se formava dentro dela.

Um nó se formou na sua garganta. Era mais difícil do que imaginara. A realidade era uma faca afiada, cravando-se em seu peito com cada olhar que trocavam, cada gesto de carinho. Ela se sentiu encolher, invisível, embora estivesse ali, presente, respirando o mesmo ar. Aquele ar que parecia roubar-lhe o fôlego.

Decidiu que não podia ficar ali, presa naquele sofrimento mudo. Precisa de ar, de um refúgio. Desviou-se da multidão, buscando um lugar mais tranquilo. Encontrou uma porta entreaberta que levava a uma varanda, protegida parcialmente pelo telhado. O vento ainda açoitava, mas era um alívio da opulência do salão.

Parou na beira da varanda, observando a chuva lavar a cidade. As luzes distantes pareciam estrelas caídas em um mar de escuridão. O cheiro de terra e chuva era um bálsamo para sua alma atormentada. Ela se perguntou o que estava fazendo ali. O que esperava encontrar? Uma explicação? Um pedido de desculpas? Talvez, apenas a confirmação de que o fim era real, e que era hora de, finalmente, seguir em frente.

“Linda noite, não é?”, uma voz grave e rouca ecoou ao seu lado.

Giovanna sobressaltou-se, virando-se rapidamente. Um homem estava ali, apoiado no parapeito, com uma taça de uísque na mão. Ele era alto, com ombros largos e um rosto marcado pelo tempo, mas com um olhar penetrante e enigmático. Havia algo nele que a intrigava, uma aura de mistério e poder. Seus cabelos escuros eram salpicados por fios grisalhos nas têmporas, e seus olhos, de um azul profundo como a noite que os cercava, pareciam sondar sua alma.

“Depende do ponto de vista”, respondeu Giovanna, tentando controlar a voz que tremia levemente.

O homem deu um sorriso discreto, que não alcançou seus olhos. “Para alguns, a chuva limpa. Para outros, apenas afoga as esperanças.” Ele tomou um gole do uísque. “E você, senhorita? O que a chuva afoga em você?”

Giovanna hesitou. Havia algo naquela pergunta, naquele homem, que a desarmava. Uma sinceridade brutal que a fez sentir-se exposta. “Apenas a vontade de estar em outro lugar”, respondeu, a voz mais firme agora.

“Entendo. A vontade de estar em um lugar onde as mágoas não pesam tanto quanto a água que cai do céu.” Ele a observou com intensidade. “Mas às vezes, os lugares que mais nos assombram são aqueles que nos deixamos levar pela correnteza. E você parece estar lutando contra ela.”

Ela o encarou, desconfiada. “E quem é você para saber disso?”

“Eu sou um observador”, respondeu ele, com um sorriso que parecia guardar segredos milenares. “Um espectador do drama humano. E às vezes, os dramas mais interessantes não estão no palco principal, mas nas sombras, nos cantos escuros, onde as almas se debatem.” Ele estendeu a mão. “Meu nome é Gabriel.”

Giovanna hesitou antes de apertar a mão dele. Era fria, estranhamente fria. “Giovanna.”

“Giovanna… Um nome que soa como uma melodia suave em meio ao caos”, disse Gabriel, com um tom de admiração genuína. Ele apertou sua mão por um instante a mais do que o necessário. “Vejo que a tempestade lá fora não é a única que te aflige.”

Os olhos azuis dele pareciam enxergar através dela, desvendando suas dores mais profundas. Era perturbador e, ao mesmo tempo, estranhamente reconfortante. Pela primeira vez naquela noite, ela sentiu que alguém a via, realmente a via, além das aparências.

“Algumas tempestades são inevitáveis”, Giovanna murmurou, desviando o olhar para a chuva que caía com fúria.

“Mas a forma como reagimos a elas é a nossa escolha”, disse Gabriel, sua voz um sussurro que a envolveu. “Podemos nos deixar afogar, ou podemos aprender a nadar. E, às vezes, encontramos correntes inesperadas que nos levam a lugares que jamais sonharíamos alcançar.”

Ele deu um passo para mais perto, o aroma sutil de madeira antiga e algo mais, algo indescritível, pairando no ar. “Não se deixe consumir pela chuva, Giovanna. Encontre a força dentro de si para abraçar a tempestade. Pois é no meio dela que as transformações mais profundas acontecem.”

Giovanna o olhou, fascinada pela intensidade do seu olhar. Havia algo de sobrenatural em Gabriel, algo que transcendia a simples presença humana. Era como se ele fosse feito de sombras e mistérios, um anjo caído flutuando nas margens do seu desespero. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um misto de medo e atração.

“Não sei se sou forte o suficiente”, confessou ela, a voz embargada pela emoção.

Gabriel sorriu, um sorriso que, desta vez, parecia carregar um vislumbre de compaixão. “Todo mundo é mais forte do que pensa. Às vezes, só precisamos de um pequeno empurrão… ou de um sussurro na chuva fria para nos lembrar disso.”

Ele se afastou, deixando-a com seus pensamentos e o rugido da tempestade. Giovanna permaneceu ali, sentindo o frio da varanda e o calor estranho que a presença de Gabriel deixara. O anjo caído, ela pensou. Ele era como um anjo caído, flutuando nas margens do seu desespero, oferecendo palavras que pareciam vir de outro plano.

A festa continuava lá dentro, um palco de alegrias que pareciam falsas para ela. Mas ali, na varanda, com a chuva como testemunha e a voz enigmática de Gabriel ecoando em sua mente, algo dentro dela começava a mudar. Uma pequena brasa de esperança, acesa no meio da escuridão. Ela ainda não sabia o que o futuro lhe reservava, mas sabia que a noite, e a presença daquele homem misterioso, haviam marcado o início de algo novo. Algo que ela ainda não conseguia nomear, mas que sentia pulsar em seu peito.

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