Cap. 16 / 17

O Anjo Caído

O Anjo Caído

por Nathalia Campos

O Anjo Caído

Capítulo 16 — O Despertar de Um Pecado

O ar da noite em São Paulo, normalmente denso e carregado de umidade com o prenúncio de chuva, parecia mais espesso do que nunca naquela madrugada. No apartamento luxuoso, com vista panorâmica para o mar de luzes da metrópole, Clara sentia cada respiração como um esforço. Deitada na cama macia, o lençol de seda fria grudado à pele suada, ela lutava contra uma força invisível que a prendia, a esmagava. Eram pesadelos, mas de uma intensidade que desafiava a compreensão. Visionava um céu de um azul profundo rasgado por uma tempestade de fogo, anjos com asas de ébano caindo em espiral, gritos etéreos ecoando em seu ser. Em meio a essa cataclismo celestial, um rosto. O rosto de Elias. Não o Elias gentil e atormentado que ela conhecia agora, mas um Elias de uma beleza perigosa, olhos flamejantes, um sorriso que prometia tanto êxtase quanto ruína.

De repente, um arrepio percorreu sua espinha, mais gelado que o toque da morte. Seus olhos se abriram com um sobressalto. O quarto estava escuro, a lua, tímida por trás das nuvens carregadas, lançava sombras fantasmagóricas. O silêncio era quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo tique-taque insistente do relógio na mesinha de cabeceira. Ela levou a mão ao peito, sentindo as batidas frenéticas do coração. Aquilo não era um simples pesadelo. Era uma memória. Uma memória que não deveria existir.

"Elias...", sussurrou, a voz rouca e embargada. A cada vez que o nome dele ecoava em seus lábios, uma corrente de energia sutil, mas inconfundível, percorria seu corpo. Era como um fio invisível que a ligava a ele, um eco de algo muito mais antigo e poderoso do que ela ousava admitir.

Sentou-se na cama, o corpo trêmulo. As visões da noite anterior a assombravam, gravadas em sua mente com a nitidez de um filme. O anjo caído. Elias era o anjo caído. A ideia era absurda, fantástica demais para ser real. Mas o que mais explicaria aquelas visões, a conexão inexplicável que sentia com ele desde o primeiro momento em que o vira, a forma como ele parecia conhecer seus medos mais profundos, como se pudesse ler sua alma?

Ela se levantou, os pés descalços tocando o tapete persa macio. Caminhou até a janela, a silhueta esguia recortada contra a pouca luz. O brilho distante das luzes da cidade parecia um consolo pálido para a escuridão que se instalara em seu coração. Precisava entender. Precisava saber a verdade, por mais terrível que fosse.

Seu olhar caiu sobre o pequeno crucifixo de prata que Elias lhe dera. Ajoelhou-se, pegando-o com dedos trêmulos. O metal frio parecia queimar em sua mão. Uma onda de náusea a atingiu, e ela fechou os olhos com força, lutando contra o impulso de vomitar. Era a mesma sensação que sentia quando ele estava perto, uma repulsa instintiva que ela sempre atribuíra ao seu próprio medo de se entregar. Mas agora, com a clareza brutal da madrugada, sabia que era algo mais. Era a repulsa do sagrado pelo profano, do divino pelo corrompido.

"Ele não pode ser...", murmurou para si mesma, a voz quase inaudível. A ideia de Elias, o homem que a protegia, que a amava com uma intensidade avassaladora, ser um ser celestial caído, um anjo expulso do paraíso, era demais para processar.

Mas as lembranças não cessavam. Os olhos dele, outrora cheios de uma melancolia profunda, agora pareciam arder com uma chama antiga e proibida. A forma como ele a tocava, um toque que era ao mesmo tempo carinhoso e possessivo, como se ele reivindicasse algo que lhe pertencia há eras. E o sorriso... aquele sorriso perigoso que surgia em seus sonhos, um sorriso que falava de poder, de tentação, de um pecado primordial.

Ela se lembrou do dia em que o conheceu. A forma como ele a salvou daquele assalto brutal, a velocidade e a força sobre-humanas com que agiu. Na época, atribuíra aquilo a um treinamento especial, a uma adrenalina incomum. Mas agora, com o véu da ignorância rasgado, via a verdade sobrenatural por trás daqueles gestos.

O peso da verdade começou a esmagá-la. Se Elias era um anjo caído, o que isso significava para ela? Ela se apaixonara por um demônio? Por uma entidade capaz de tamanha queda, de tanta rebeldia? E aquela conexão que sentia, aquela atração magnética que a prendia a ele, era realmente amor ou era uma armadilha, uma sedução orquestrada por uma criatura acostumada a brincar com as almas humanas?

Levantou-se abruptamente, a mente girando em um turbilhão de medo e confusão. Precisava de respostas. Precisava confrontá-lo. Mas como? Como perguntar a um ser que talvez fosse a personificação do próprio pecado se ele era um anjo caído? O medo a paralisava. E se ele a machucasse? E se a verdade fosse ainda mais terrível do que imaginava?

O peso do crucifixo em sua mão era um lembrete constante do que estava em jogo. A fé, a salvação, a própria alma. Ela olhou para o espelho, o reflexo de seu rosto pálido e assustado. As olheiras profundas denunciavam a noite de tormento. Mas nos olhos, algo mais brilhava. Uma determinação sombria, alimentada pela necessidade de saber a verdade.

Ela pegou o celular. A tela iluminou o quarto, mostrando a hora: 4:17 da manhã. Elias estaria dormindo em seu apartamento, talvez sonhando com os mesmos céus em chamas que a assombravam. Ou talvez, com o poder que ele possuía, ele não precisasse dormir. Talvez ele estivesse simplesmente... observando.

Com um suspiro trêmulo, discou o número dele. O toque soou pela linha, cada repetição parecendo um martelar em seu peito. A cada toque, ela se perguntava se estava cometendo o maior erro de sua vida. E se ele atendesse? O que ela diria?

"Alô?" A voz dele, profunda e rouca, soou do outro lado. O simples som de sua voz, mesmo naquela hora da madrugada, enviou um arrepio de prazer e terror por sua espinha.

Clara engoliu em seco, a garganta apertada. As palavras pareciam presas. Finalmente, com um esforço colossal, ela disse: "Elias... sou eu, Clara."

Houve uma pausa, um silêncio carregado de expectativas. Ela imaginou a expressão em seu rosto, a surpresa, talvez até um leve divertimento.

"Clara? São quatro da manhã. Aconteceu alguma coisa?" A preocupação em sua voz era genuína, mas Clara não conseguia mais acreditar em nada.

"Eu... eu tive um pesadelo", ela mentiu, sentindo o peso da falsidade. "Um pesadelo muito real. Com anjos caindo e... e com você."

Outra pausa, mais longa desta vez. O silêncio dele era quase mais assustador do que qualquer resposta que ele pudesse dar.

"Anjos caindo?", ele finalmente perguntou, a voz baixa, um tom que ela não soube decifrar. Havia curiosidade? Surpresa? Ou algo mais sombrio?

"Sim. E eu vi você, Elias. Vi você de uma forma... diferente. Uma forma que me assusta." A verdade estava escapando, gota a gota, em meio às suas mentiras.

Um leve riso, um som baixo e gutural, escapou dele. "Você está me assustando, Clara."

"Eu não sei o que está acontecendo, Elias. Mas eu preciso saber. Preciso que você me diga a verdade. Quem é você? De verdade?" A pergunta pairava no ar, carregada com todo o peso de seus medos e esperanças.

O silêncio retornou, mais denso e opressor do que antes. Clara podia sentir a presença dele do outro lado da linha, uma força gravitacional que a puxava para a escuridão.

"Você está pronta para ouvir a verdade, Clara?", a voz dele era um sussurro rouco, carregado de uma promessa perigosa.

Clara apertou o crucifixo com tanta força que sentiu a prata afundar em sua palma. O medo era palpável, mas a necessidade de saber era maior. Ela respirou fundo.

"Eu preciso saber, Elias. Por favor. Preciso saber quem você é."

E, na calada da noite, sob o olhar tímido da lua, a verdade sobre o anjo caído estava prestes a ser revelada, e Clara sabia que, a partir daquele momento, nada mais seria como antes. O seu mundo, antes tão seguro e previsível, estava prestes a desmoronar diante da realidade sobrenatural que a cercava.

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