Cap. 17 / 17

O Anjo Caído

Capítulo 17 — As Cinzas da Revelação

por Nathalia Campos

Capítulo 17 — As Cinzas da Revelação

A voz de Elias, do outro lado da linha, pairava no ar como uma sentença. "Você está pronta para ouvir a verdade, Clara?" A pergunta não era uma pergunta, era um convite, um desafio, uma porta aberta para um abismo de conhecimento que ela, em sua ingenuidade humana, jamais imaginara existir. Clara, com o crucifixo pressionado contra a palma da mão, sentia o metal frio contrastar com o calor febril que a consumia. O medo era um nó apertado em seu estômago, mas uma força antiga, algo que pulsava em seu sangue e a ligava a Elias de maneiras inexplicáveis, a impelia a prosseguir.

"Eu preciso saber, Elias. Por favor. Preciso saber quem você é." A súplica em sua voz era genuína, um grito mudo de uma alma que se sentia perdida na névoa da incerteza.

Houve um silêncio longo e pesado. Clara podia sentir a energia dele do outro lado, um campo de força invisível que parecia estender-se pela cidade, alcançando-a em seu apartamento isolado. Ela imaginou seus olhos, aqueles olhos que em um momento podiam transbordar de melancolia e em outro arder com uma intensidade proibida, fitando um ponto distante, talvez o céu escuro, talvez o reflexo de seu próprio passado turbulento.

"A verdade, Clara...", ele começou, a voz baixa, um murmúrio rouco que parecia vir de um lugar muito antigo, "é uma arma de dois gumes. Ela liberta, mas também destrói. Você tem certeza de que quer ser libertada, sabendo que a libertação pode significar a perda de tudo o que você conhece?"

Cada palavra dele era como uma punhalada, ecoando as visões da noite anterior, os anjos caindo em chamas, o desespero celestial. Era a voz dele, mas não era apenas ele. Era a voz de algo mais antigo, algo que carregava o peso de milênios de pecado e arrependimento.

"Eu... eu não sei se estou pronta", ela admitiu, a voz tremendo. "Mas eu não posso mais viver com essa dúvida. Essa... essa sensação de que há algo mais, algo que eu não entendo."

"Você sente, Clara", ele disse, um tom de reconhecimento em sua voz. "Você sente a essência do que eu sou. É por isso que você me vê em seus sonhos, é por isso que o sagrado em você se retorce quando estou perto. Não é repulsa, Clara. É o choque entre duas naturezas que não deveriam se cruzar."

Naturezas. A palavra reverberou em sua mente. Ele não falava de raça, de espécie. Falava de algo mais fundamental. "Que naturezas, Elias?"

Ele riu, um som sem alegria. "A natureza da luz e a natureza das sombras, Clara. A natureza do céu e a natureza do abismo. Eu fui um de Seus anjos, Clara. Um dos primeiros. Destinado a portar a luz, a defender a glória. Mas a glória pode ser cega, e a luz pode queimar."

O coração de Clara deu um salto doloroso. Era verdade. As visões, as sensações, tudo se encaixava em um padrão terrível e fascinante. "Você... você é um anjo caído." A frase saiu como um sussurro incrédulo, um reconhecimento silencioso do destino sombrio que ele carregava.

"Caído é uma palavra gentil", ele respondeu, a voz carregada de uma amargura que fez o sangue de Clara gelar. "Fui expulso. Jogado para fora. Minha rebelião não foi por maldade, Clara. Foi por questionamento. Por acreditar que o livre-arbítrio, mesmo que doloroso, era um dom maior do que a obediência cega. Mas o Criador não me ouviu. E minhas asas foram arrancadas antes mesmo que eu pudesse voar em direção ao que acreditava."

Clara imaginou a cena: a beleza aterradora de um anjo com asas imensas sendo arrancadas, a dor, a queda. A imagem era tão vívida que ela quase podia sentir o vento uivante em seus ouvidos.

"Mas se você foi expulso, por que... por que está aqui? Por que está na Terra?"

"A Terra é um campo de batalha, Clara", ele disse, a voz adquirindo um tom mais sombrio. "Um lugar onde a luz e as sombras duelam incessantemente. Fui condenado a vagar entre os mortais, a observar, a testemunhar a luta das almas. Mas, às vezes... às vezes, a tentação é grande demais. E a linha entre observar e participar se torna tênue."

"Participar de quê?"

"De tudo, Clara. Da dor, do prazer, do amor, da perda. Do pecado. Somos seres de emoção, os anjos caídos. E a emoção humana... é um veneno doce e intoxicante para nós."

Clara sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Ela se apaixonara por um ser de emoção proibida, de pecado e tentação. A paixão avassaladora que sentia por Elias, a conexão profunda que os unia, era real? Ou era apenas o reflexo de um desejo sombrio e ancestral?

"E eu, Elias? O que eu sou para você? Por que eu? Por que você se aproximou de mim?" A pergunta era carregada de medo, mas também de uma esperança desesperada.

O silêncio do outro lado era ensurdecedor. Clara podia sentir a hesitação, a luta interna dele. Ele, um ser de poder inimaginável, parecia contido por algo que ela, uma simples mortal, representava.

"Você, Clara...", ele começou, a voz um sussurro rouco, "você carrega uma luz. Uma luz pura, mas também uma chama. Uma chama que me lembra do que eu perdi, e do que eu jamais terei novamente. Quando eu a vi, algo em mim... despertou. Algo que eu pensava estar morto para sempre."

"O quê? O quê despertou?"

"O desejo", ele confessou, a voz embargada pela emoção. "O desejo de sentir novamente. O desejo de amar. De ser amado. Você me fez lembrar que, mesmo na escuridão, ainda existe a possibilidade de redenção. Ou de uma queda ainda mais profunda."

As palavras dele a atingiram como um raio. Redenção. Queda mais profunda. Ela não era apenas um objeto de curiosidade para ele. Ela era a chave para algo. Algo que poderia salvá-lo ou condená-lo ainda mais.

"Mas se você é um anjo caído, Elias... por que você me protege? Por que você se importa?"

"Porque você é diferente, Clara. Você não se curva à escuridão. Você a desafia. E em seus olhos, eu vejo uma força que me fascina e me assusta. Você é um paradoxo, Clara. Um anjo com a capacidade de cair, e um demônio com a capacidade de amar. E eu... eu me perdi em você."

A confissão dele a deixou sem fôlego. Ela se perdeu nele. A intensidade daquele amor, que antes a encantava, agora a aterrorizava. O amor de um anjo caído não era como o amor humano. Era possessivo, voraz, capaz de consumir tudo em seu caminho.

"Eu não posso te dar o que você procura, Elias. Eu sou humana. Eu sou frágil."

"Frágil?", ele riu, um som mais suave agora, mas ainda carregado de uma melancolia profunda. "Você é a criatura mais forte que eu já conheci, Clara. Sua força não está em músculos ou em poder, mas em sua alma. E é essa alma que me atrai."

Clara fechou os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem por seu rosto. A verdade era esmagadora, aterradora, mas também... libertadora. Ela sabia quem Elias era. E, de certa forma, sabia quem ela era também. Uma mulher que se apaixonou por um anjo caído, e que, de alguma forma, havia despertado algo nele.

"O que vai acontecer agora, Elias?"

"Eu não sei, Clara", ele admitiu, a voz embargada. "Mas uma coisa é certa. A partir de agora, o seu mundo e o meu estão irrevogavelmente entrelaçados. Você abriu a porta para a minha verdade, e agora... agora você faz parte dela."

O sol começava a despontar no horizonte, tingindo o céu de São Paulo com tons de laranja e rosa. A beleza da aurora era um contraste cruel com a escuridão que se instalara em seu coração. Ela desligou o telefone, a mão ainda tremendo. As revelações da noite haviam abalado os alicerces de sua existência. Elias não era apenas o homem por quem ela se apaixonara. Ele era um ser de outra esfera, um rebelde celestial, um anjo caído.

Ela olhou para o crucifixo em sua mão. O metal frio agora parecia um símbolo de sua própria fé em perigo. O amor que sentia por Elias era uma tentação, um pecado? Ou era a prova de que, mesmo na escuridão, a esperança de redenção podia florescer? Ela não sabia. Mas uma coisa era certa: a partir daquele momento, ela não poderia mais fugir de quem Elias era, nem de quem ela estava se tornando ao lado dele. As cinzas da revelação haviam se espalhado, e o futuro, antes claro, agora se apresentava como um labirinto sombrio e incerto, onde o amor e o perigo dançavam em um eterno embate.

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