Cap. 18 / 17

O Anjo Caído

Capítulo 18 — A Sombra do Passado Divino

por Nathalia Campos

Capítulo 18 — A Sombra do Passado Divino

O amanhecer em São Paulo, sempre vibrante e cheio de promessas, parecia tingido de uma melancolia cinzenta naquele dia. Clara, sentada à beira da cama, observava o sol nascer, mas sua mente estava longe, mergulhada nas profundezas da revelação que Elias lhe trouxera. As palavras dele, ecoando em sua mente como um mantra sombrio, a assombravam: "Fui expulso. Minha rebelião foi por questionamento." A ideia de um anjo, um ser de pura luz, sendo expulso por buscar a liberdade de pensamento, era um paradoxo que abalava suas próprias crenças sobre o bem e o mal.

O crucifixo ainda estava em sua mão, agora um peso familiar, um lembrete constante da dualidade que Elias representava. Ela o sentia quente, como se absorvesse a energia febril que a percorria. Se ele era um anjo caído, um ser que havia desafiado o próprio Criador, o que isso significava para ela, uma mortal que ousara se apaixonar por ele? Seria o amor deles uma bênção disfarçada, ou um prenúncio de desgraça?

Ela se levantou e caminhou até a janela, o corpo ainda vibrando com a adrenalina da noite. A cidade se desenrolava abaixo dela, um mar de concreto e aço, mas por trás da fachada mundana, Clara agora via um palco de batalhas invisíveis, de forças antigas em conflito. A Terra, como Elias dissera, era um campo de batalha. E ela, sem saber, havia se tornado uma peça nesse jogo cósmico.

A imagem de Elias, em sua mente, se transformava constantemente. Ora era o homem gentil e atormentado que a protegia, com olhos que transbordavam ternura e dor. Ora era a visão de seus sonhos, um ser de beleza perigosa, com olhos flamejantes e um sorriso que prometia tanto êxtase quanto ruína. Quem era o verdadeiro Elias? O anjo expulso por questionar, ou a criatura que vivia nas sombras, alimentando-se das emoções humanas?

Ela pegou o celular, a tela escura refletindo seu rosto pálido. Não ousava ligar para ele novamente. A conversa da madrugada fora intensa demais, a revelação brutal demais. Precisava de tempo para processar, para digerir a magnitude do que estava acontecendo. Mas o silêncio dele era quase tão perturbador quanto suas palavras. O que ele estaria fazendo? Estaria ele observando-a, esperando sua reação?

De repente, um movimento sutil na rua, lá embaixo, chamou sua atenção. Um carro escuro, parado por tempo demais, chamou sua atenção. Não era a primeira vez que notava uma presença discreta em torno de seu prédio nas últimas semanas, mas agora, com o conhecimento de que Elias era mais do que aparentava, sua percepção se aguçava. Seriam eles enviados por Elias? Ou eram inimigos que ele havia atraído com sua própria existência?

A paranoia começou a se instalar, um sentimento frio e arrepiante. Elias a havia alertado sobre as sombras. Seriam essas sombras uma ameaça direta a ela?

Enquanto isso, em um dos arranha-céus mais imponentes do centro de São Paulo, Elias observava a cidade com um olhar que transcendia a mera contemplação. A luz do sol que entrava pela janela panorâmica de seu escritório, em tons de dourado pálido, parecia fraca e insignificante em comparação com a tempestade de fogo que ele carregava em sua alma. A conversa com Clara havia sido um passo arriscado, uma abertura que ele raramente permitia. Mas a pureza dela, a força indomável que emanava de sua essência, o havia compelido a revelar parte de sua verdadeira natureza.

Ele sabia que havia a assustado, mas também sentia que ela não fugiria. Clara era diferente. Ela possuía a rara capacidade de ver além das aparências, de sentir a verdade que se escondia por trás das fachadas. E essa capacidade era ao mesmo tempo a sua maior força e a sua maior vulnerabilidade.

O toque do telefone em sua mesa o tirou de seus devaneios. Era uma das poucas pessoas em quem ele confiava, um aliado improvável em seu exílio terrestre.

"Elias", uma voz áspera e familiar soou do outro lado. "Ouvi dizer que você teve uma noite agitada."

Elias suspirou, passando a mão pelo rosto. "Mais agitada do que o normal, Marcus. A mortal está começando a ver além do véu."

Marcus era um demônio, um ser de poder e astúcia, mas com um código de honra peculiar que o tornava um aliado valioso. Eles compartilhavam um desdém mútuo pela hierarquia celestial e infernal, e encontravam um propósito comum em desestabilizar as ordens estabelecidas.

"Ah, sim. A queridinha dos anjos. Sabia que essa ligação seria inevitável. Ela tem a centelha, Elias. A mesma centelha que fez você questionar as estrelas."

"Ela não é uma centelha, Marcus. Ela é uma chama. E eu não quero que ela se queime."

"E você acredita que revelar sua verdadeira face, mesmo que parcialmente, a protegeu? Elias, você é um anjo caído. Sua mera existência atrai a atenção de todos os cantos. Os anjos do Céu não a esqueceram, e os demônios do Abismo a cobiçam. Ela está na mira, queira você ou não."

A voz de Marcus era um lembrete cruel da realidade. Elias sabia disso. Clara era um farol na escuridão, atraindo não apenas a admiração dele, mas também a cobiça e a hostilidade de forças que ela nem sequer imaginava existir.

"Eu a protegerei", Elias disse, a voz firme, carregada de uma convicção que ele mesmo quase duvidava possuir.

"Proteger?", Marcus riu, um som seco e áspero. "Você é um anjo caído, Elias. Sua proteção pode ser tão perigosa quanto a ameaça. Você a está arrastando para o seu mundo sombrio. E a cada passo que ela der ao seu lado, mais ela se afasta da luz que a define."

"Ela não se afasta da luz, Marcus. Ela a ilumina. Ela me faz ver a luz de uma forma que eu não via há milênios."

"Amor, Elias? Você está falando de amor? Um anjo caído e uma mortal? Isso é o tipo de história que os bardos inventam para vender ilusões. O amor entre vocês é uma chama perigosa. Uma chama que pode consumir a ambos."

"Eu assumo o risco", Elias declarou, sentindo a velha teimosia celestial, agora tingida de uma paixão humana, tomar conta dele.

"Seja como for", Marcus disse, o tom mudando para algo mais sério. "Há movimentos. As forças que você tem incomodado não estão paradas. Os arautos da Restauração estão se reunindo. E eles veem Clara como um peão no jogo deles. Um peão para te manipular, Elias. Ou para te destruir."

A menção dos "arautos da Restauração" fez um arrepio percorrer a espinha de Elias. Eram um grupo fanático de anjos, que acreditavam que a única maneira de restaurar a ordem divina era eliminar todas as impurezas, todos os seres que haviam se desviado do caminho. E Clara, por estar ligada a ele, era considerada uma dessas impurezas.

"Eles não a tocarão", Elias rosnou, a voz baixa e perigosa.

"Eles tentarão", Marcus respondeu, sem rodeios. "E você, com seus próprios demônios para combater, não estará sempre lá para protegê-la. A sombra do seu passado divino é longa, Elias. E ela alcança a todos que cruzam seu caminho."

Elias desligou o telefone, a frustração e a preocupação fervilhando dentro dele. Marcus tinha razão. Ele era um anjo caído, um ser assombrado por seus próprios erros e exílio. Sua luta era interna, e agora, ele havia arrastado Clara para o centro dessa batalha.

Ele olhou para a cidade abaixo, para o labirinto de ruas e vidas. Ele a amava. Amava Clara com uma intensidade que o assustava. Mas esse amor, nascido da escuridão, era uma promessa de perigo. A sombra de seu passado divino era, de fato, longa. E Clara, a mortal que havia despertado a luz em sua alma, agora estava envolta por essa sombra. Ele precisava protegê-la, não apenas das ameaças externas, mas também da própria natureza que o consumia. Mas como proteger alguém de si mesmo, quando a própria essência é uma tentação?

Enquanto isso, Clara, em seu apartamento, sentiu um frio inexplicável percorrer o ambiente, apesar do calor crescente do dia. Era a sensação de ser observada, de que algo vasto e antigo pairava sobre ela. A revelação de Elias havia aberto uma porta, mas agora ela percebia que essa porta levava a um mundo muito mais perigoso do que imaginara. Ela não era apenas a paixão de um anjo caído. Ela era um alvo. E a sombra do passado divino de Elias, como Marcus havia dito, era longa e ameaçadora. A luta havia apenas começado.

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