Cap. 2 / 17

O Anjo Caído

Capítulo 2 — O Enigma nos Olhos de Obsidiana

por Nathalia Campos

Capítulo 2 — O Enigma nos Olhos de Obsidiana

A manhã seguinte chegou com um sol tímido, lutando para perfurar o manto cinzento de nuvens que ainda pairava sobre São Paulo. Giovanna acordou sentindo o peso da noite anterior. A festa, Ricardo, Ana Clara… e ele. Gabriel. A memória do homem misterioso na varanda era tão vívida que parecia um sonho. Seus olhos de obsidiana, profundos e enigmáticos, seus sussurros carregados de um conhecimento ancestral, sua frieza incomum.

Ela se sentou na cama, o quarto ainda mergulhado em uma penumbra acolhedora. A chuva havia cessado durante a noite, mas o ar ainda estava carregado de umidade. A ressaca emocional da festa a deixara esgotada. Parecia que as lágrimas de ontem haviam drenado toda a sua energia. Ela se sentia frágil, como um espelho quebrado, cujos cacos ainda refletiam a dor.

Giovanna se levantou e foi até a janela. A cidade, lavada pela chuva, parecia mais calma, mais serena. Mas para ela, a tempestade interior ainda rugia. Ela pensava em Gabriel. Quem era ele? Um amigo de Ricardo? Um convidado qualquer com uma perspicácia incomum? Ou algo mais? Algo que ela ainda não conseguia compreender.

“Não se deixe consumir pela chuva”, ele dissera. “Encontre a força dentro de si para abraçar a tempestade.”

As palavras ecoavam em sua mente, como um mantra. Ela se perguntava se ele sabia o quão profunda era a tempestade que a consumia. A traição de Ricardo e Ana Clara não fora apenas um rompimento de relacionamento, fora um rompimento de confiança, uma fratura exposta em sua alma. Ela se sentia quebrada, como se tivesse sido roubada de seu próprio futuro.

Decidiu que precisava de distração. Uma distração que a tirasse do turbilhão de pensamentos. Ligou para Mariana, sua colega de trabalho e amiga de longa data.

“Alô?”, a voz sonolenta de Mariana atendeu.

“Mari, sou eu. Preciso de ajuda. Preciso de um plano de fuga para hoje.”

Mariana, com sua habitual praticidade, não demorou a reagir. “Fuga de quê, Gio? A ressaca da festa de ontem te pegou forte?”

“Não é bem a ressaca, Mari. É mais… a necessidade de não pensar em nada. Em ninguém. Sabe aquele museu novo que abriu no Centro? O de arte contemporânea?”

“Sei! Ouvi dizer que é incrível. Mas… você tem certeza? Não acha que seria melhor ficar em casa, se cuidar?”

“Não, Mari. Eu preciso sair. Preciso me perder em meio a cores e formas que não me lembrem de nada. Por favor, diz que você vai comigo.”

Mariana suspirou. “Tudo bem, mas você me deve uma. E nada de ficar com a cara emburrada o tempo todo, ok? Temos que aproveitar a arte.”

O encontro no museu foi um alívio. A arquitetura moderna, as salas amplas e a variedade de obras de arte a transportaram para outro mundo. Ela se perdeu entre telas abstratas, esculturas provocativas e instalações conceituais. A cada obra que admirava, sentia um pouco da tensão se dissipar. Era como se a arte tivesse o poder de curar, de preencher os vazios que a dor deixara.

Enquanto observava uma instalação feita de espelhos quebrados, que refletiam fragmentos distorcidos da realidade, ela sentiu uma presença familiar. Virou-se, com o coração acelerado. Era ele. Gabriel.

Ele estava parado a poucos metros de distância, observando a mesma obra, com um leve sorriso nos lábios. Seus olhos, antes de obsidiana profunda, pareciam agora mais claros sob a luz artificial do museu, mas não menos intensos. Ele usava roupas casuais, mas que emanavam uma elegância discreta. Uma camisa escura e calças de corte impecável.

“Um lugar interessante para se perder”, disse Gabriel, com a mesma voz grave e rouca de ontem.

Giovanna sentiu um misto de surpresa e desconforto. “Não esperava te encontrar aqui.”

“E eu não esperava encontrar você aqui”, respondeu ele, aproximando-se um pouco. “Mas parece que o destino tem um senso de humor peculiar. Ou talvez, você esteja realmente buscando uma forma de ver as coisas de um ângulo diferente.” Ele gesticulou para a instalação de espelhos. “Como essas peças. Elas refletem o que está ao redor, mas de maneira fragmentada. Nos forçam a reconstruir a imagem, a encontrar um novo significado.”

“Às vezes, os fragmentos são muitos e o significado se perde para sempre”, Giovanna respondeu, a amargura voltando à sua voz.

Gabriel a olhou com atenção. Seus olhos pareciam penetrar em sua alma, desvendando as camadas de dor que ela tentava esconder. “Ou talvez, os fragmentos sejam apenas o começo. O começo de uma nova forma de ver. Uma forma mais profunda, mais completa.” Ele deu um passo para mais perto. “Você disse ontem que não sabia se era forte o suficiente. E eu digo que a força não é algo que se tem ou não se tem. É algo que se cultiva. Como uma planta que cresce em solo árido, a força floresce em meio às adversidades.”

Giovanna sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A intensidade do seu olhar, a convicção em suas palavras, tudo nele emanava uma aura de poder incomum. Ela se sentia atraída por aquele mistério, por aquela figura enigmática que parecia saber mais sobre ela do que ela mesma.

“Você fala como se entendesse”, disse ela, a voz um sussurro.

“Eu entendo mais do que você imagina, Giovanna”, Gabriel respondeu, seu olhar fixo no dela. Havia uma promessa ali, um convite para desvendar o que estava oculto. “Há coisas que a maioria das pessoas não consegue ver. Coisas que se escondem nas sombras, nos cantos da alma. E eu… eu sou treinado para ver.”

“Ver o quê?”, ela perguntou, sentindo seu coração acelerar.

Gabriel sorriu, um sorriso quase imperceptível, mas que fez algo dentro dela se agitar. “As verdadeiras naturezas. As feridas ocultas. As almas que choram em silêncio.” Ele deu um passo para trás, quebrando a intimidade do momento. “Mas não vim para falar de mim. Vim para ver a arte. E para observar o desabrochar de uma força que vejo em você, mesmo que você ainda não a reconheça.”

Ele se virou para a próxima obra, deixando Giovanna parada, o coração batendo descompassado. Quem era aquele homem? Anjo, demônio, ou algo completamente diferente? O mistério em torno dele era palpável, sedutor. Ela sentia uma atração irresistível por aquele enigma, um chamado para desvendar os segredos que seus olhos de obsidiana guardavam.

Enquanto continuava a passear pelo museu, ela se pegava observando os reflexos nos espelhos, procurando por uma imagem que não se encaixava, por uma sombra que se movia. Ela sabia que Gabriel estava ali, em algum lugar, observando-a. E pela primeira vez desde a descoberta da traição, um fio de curiosidade, misturado à dor, começou a se formar em seu interior.

Mais tarde, ao sair do museu, o sol tentava romper as nuvens com mais vigor. Giovanna sentiu um leve alívio, como se o ar purificado da arte tivesse levado consigo um pouco de seu sofrimento. Ela se despediu de Mariana com um abraço rápido e um sorriso que, pela primeira vez, parecia menos forçado.

Ao chegar em casa, um envelope a esperava na caixa de correio. Era um envelope simples, sem remetente. Com as mãos tremendo levemente, ela o abriu. Dentro, havia um único cartão, com a mesma caligrafia elegante e sinuosa do convite da festa. Mas desta vez, a mensagem era diferente.

“A noite ainda reserva surpresas, Giovanna. Encontre-me no lugar onde a cidade encontra o céu. À meia-noite.”

Sem assinatura. Sem local específico. Apenas um convite para um encontro no desconhecido. Seu coração disparou. Aquele homem… Gabriel. Era ele quem enviara o convite. Mas onde era “o lugar onde a cidade encontra o céu”? Um prédio alto? Um mirante?

Ela passou o resto do dia em um turbilhão de pensamentos. A curiosidade lutava contra o medo. Havia algo perigoso em Gabriel, ela sentia isso. Uma força primitiva que a atraía e a assustava ao mesmo tempo. Mas a promessa de desvendar aquele mistério era tentadora demais para resistir. A noite seria longa.

Quando a noite caiu, o céu de São Paulo estava salpicado de estrelas, um espetáculo raro em meio à poluição luminosa. Giovanna se arrumou com cuidado, escolhendo um vestido preto simples, mas elegante. Ela não sabia o que esperar, mas sentia que aquela noite seria um divisor de águas. Uma noite para abraçar a tempestade, como Gabriel sugerira.

Ela dirigiu sem rumo por um tempo, a cidade se desdobrando diante dela como um mar de luzes. Onde seria aquele lugar? Onde o céu beijava a terra? A resposta veio de forma inesperada. Ela se viu dirigindo em direção à Avenida Paulista, o coração pulsando forte. E então, avistou. O Edifício Itália. O mirante no topo, o terraço que oferecia uma vista panorâmica de toda a cidade. O lugar onde a cidade encontrava o céu.

Estacionou o carro e subiu até o topo. O vento era forte ali, mas a vista era de tirar o fôlego. São Paulo se estendia aos seus pés, um tapete cintilante de luzes. E lá estava ele. Gabriel. Ele estava encostado no parapeito, o olhar perdido na imensidão.

Ele se virou ao sentir sua presença. Um sorriso discreto iluminou seu rosto. “Eu sabia que você viria.”

“Por quê? Como você sabia?”, Giovanna perguntou, a voz falhando levemente.

Gabriel apenas sorriu, um sorriso que guardava segredos profundos. “Porque você é uma alma que busca respostas. E eu… eu sou aquele que as oferece.” Ele estendeu a mão, não para um aperto, mas como um convite. “Vamos ver a cidade… e o que ela esconde.”

Giovanna hesitou por um instante, a incerteza pesando em seu peito. Mas então, ela olhou para os olhos dele, aqueles olhos de obsidiana que pareciam conter universos inteiros. E ela deu um passo à frente, aceitando o convite para mergulhar no enigma que era Gabriel. A noite, como ele prometera, estava apenas começando.

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