Cap. 2 / 17

O Anjo Caído II

Capítulo 2 — O Legado do Sábio e o Medalhão Sombrio

por Luna Teixeira

Capítulo 2 — O Legado do Sábio e o Medalhão Sombrio

O cheiro forte do café fresco invadiu o quarto de Helena, misturando-se ao aroma suave do jasmim que Dona Odete cultivava em vasos na varanda. A luz dourada do sol da manhã banhava o cômodo, dissipando as últimas sombras da noite e a névoa de confusão que pairava sobre a mente de Helena. Ela ainda sentia o eco da escuridão, o frio da pedra obsidiana em seu pescoço e a voz espectral de seu pai, um lamento que parecia ter se alojado em seu próprio peito.

“Você está bem, meu bem? Está pálida como cera.” Dona Odete ajeitou o xale nos ombros de Helena com um gesto terno, os olhos marejados refletindo a preocupação genuína. Ela sabia que a sobrinha carregava um fardo pesado desde a perda do Professor Alencar, um homem que, para muitos, era um excêntrico, mas para Helena, era o mundo.

“Estou bem, tia. Só… um pouco cansada.” Helena sorriu fracamente, desviando o olhar para a cômoda onde repousava a caixa de madeira escura, a mesma que ela encontrara no sótão semanas atrás, trancada a sete chaves e contendo os diários de seu pai. Agora, a caixa parecia chamá-la, um convite silencioso para desvendar os mistérios que o cercavam.

“Cansada? De ter sonhado com o além, talvez?” Dona Odete tentou amenizar a seriedade com uma pitada de humor, mas a preocupação em sua voz era palpável. “Você disse coisas que me assustaram, Helena. Falou com seu pai como se ele estivesse ali. E sobre uma flor vermelha, e um chamado…”

Helena apertou as mãos em punho. As palavras que ela havia proferido em meio ao delírio pareciam ter um peso maior agora, como se fossem fragmentos de uma verdade oculta que ela não conseguia decifrar. A flor vermelha, a flor do lamento. Ela a vira nas ruínas, e seu pai a desenhara em seus diários. O medalhão. O que aquilo tudo significava?

“Eu só estava… confusa, tia. A febre deve ter me deixado assim.” Helena tentou soar convincente, mas a insegurança em sua voz traía suas palavras. Ela sabia que algo mais estava em jogo. A experiência no convento não fora um simples sonho febril.

Dona Odete suspirou, aceitando a explicação da sobrinha, mas sem se convencer totalmente. “Tudo bem, querida. O importante é que você esteja melhor. Vou te fazer um chá de camomila, bem quentinho. E tente descansar mais um pouco.”

Enquanto Dona Odete saía do quarto, Helena se voltou para a caixa. Seus dedos tremeram ligeiramente ao tocá-la. Era de uma madeira escura e polida, com entalhes intrincados que pareciam dançar sob a luz. Ela sabia que ali dentro estavam as respostas que ela tanto buscava, os fragmentos da vida de seu pai que ele havia tentado preservar. A chave. O chamado.

Com um clique suave, a trava se abriu. Helena ergueu a tampa, revelando um tesouro de papel amarelado e memórias. Os diários de seu pai estavam ali, empilhados em uma ordem que parecia intencional. Ao lado deles, um pequeno saco de veludo escuro. Com um pressentimento estranho, Helena desamarrou o cordão e despejou o conteúdo em sua palma. Eram pedras. Diversas pedras de formatos e tamanhos variados, mas todas com uma energia peculiar, um brilho sutil que parecia capturar a luz. E entre elas, o medalhão de obsidiana que ela já trazia no pescoço, parecendo mais escuro e intenso do que nunca.

Ela pegou o primeiro diário. A caligrafia de seu pai era elegante e precisa, a mesma que ela lembrava de seus livros e anotações. As primeiras páginas falavam de sua paixão pela história, por artefatos perdidos, por civilizações esquecidas. Mas logo, o tom mudou. As palavras tornaram-se mais crípticas, repletas de símbolos estranhos e equações que Helena não conseguia decifrar.

“A teia se adensa,” lia-se em uma página, “O véu entre os mundos se torna tênue. A energia primordial, que muitos chamam de ‘sombra’, busca a brecha para retornar. Preciso encontrar o guardião, o receptáculo de sua luz e de sua escuridão.”

Helena sentiu um arrepio. Guardião? Receptáculo? Aquelas palavras ressoavam com a experiência da noite anterior. Ela pegou o medalhão de obsidiana, sentindo seu peso em sua mão. Era frio ao toque, mas parecia vibrar com uma energia latente. Na capa do diário, junto com a anotação sobre a flor do lamento, havia um símbolo idêntico ao que estava gravado no medalhão. Um círculo com uma linha cruzada, algo que remetia a um olho estilizado.

Ela folheou o diário, buscando mais informações sobre o medalhão e as pedras. As anotações eram fragmentadas, como se seu pai estivesse com pressa, escrevendo em meio a uma batalha contra o tempo. Ele falava de um antigo ritual, de energias cósmicas, de seres que habitavam os interstícios da realidade. E mencionava a necessidade de um “linhagem escolhida”, aqueles que possuíam a capacidade de sentir e canalizar essas energias.

“A descendência dos Alencar carrega em seu sangue o dom, uma herança de eras. Eu o senti em mim, e agora, sinto em minha filha. Helena é a chave. Ela é o equilíbrio.”

As palavras fizeram o coração de Helena disparar. Ela? O equilíbrio? Ela, que sempre se sentiu deslocada, que nunca se encaixou em lugar nenhum, era a chave para algo tão grandioso e assustador? O “chamado” que Dona Odete mencionara. A figura sombria nas ruínas. Tudo se conectava de forma aterrorizante.

Ela pegou outro diário, mais grosso e com mais anotações. Este parecia ser mais recente, escrito nos últimos meses de vida de seu pai. As páginas eram repletas de diagramas complexos, mapas estelares e referências a locais antigos, muitos deles no Brasil. Ele falava de um portal, um ponto de convergência onde as energias do plano terreal e do plano sombrio se encontravam. E ele acreditava que o antigo convento em Lapa era um desses pontos.

“O medalhão de obsidiana não é apenas um amuleto,” lia-se em uma página particularmente densa, “É um catalisador. Ele foi forjado na escuridão primordial, mas foi imbuído de uma luz capaz de contê-la. As pedras, cada uma com sua vibração única, são os elos que o conectam aos planos. Juntos, eles formam a proteção, o escudo contra o retorno total da Sombra.”

Helena olhou para as pedras em sua mão. Cada uma parecia ter uma cor e uma textura diferente. Uma era um quartzo leitoso, outra uma ametista vibrante, uma terceira, um jade escuro. Ela não entendia a ciência por trás daquilo, mas sentia a energia pulsando nelas, uma ressonância suave com o medalhão.

E então, ela encontrou a última entrada do último diário, datada de poucos dias antes de sua morte.

“O tempo está se esgotando. A Sombra se fortalece. Ela sabe que a chave está perto. Preciso protegê-la. Helena, se estiver lendo isto, saiba que seu destino é maior do que imagina. Você não é uma vítima, mas uma guardiã. O medalhão e as pedras são sua herança. Use-os com sabedoria. E procure por ele. O anjo caído. Ele te ajudará a entender. Ele é a ponte entre os mundos, o guardião do equilíbrio. Ele se chama Lúcifer.”

Helena engasgou com o ar. Lúcifer? O anjo caído? Seu pai a instruía a procurar pelo próprio diabo? A reviravolta era chocante, perturbadora. Seu pai, um homem de ciência e lógica, acreditava em anjos e demônios, em energias sobrenaturais e na existência de Lúcifer como um aliado? A mente de Helena girava. Tudo parecia tão irreal, tão distante da vida que ela conhecia.

Ela pensou no que vira nas ruínas. A figura sombria. A voz de seu pai, um lamento desesperado. O aviso. “Corra… Ele não pode te ter…” Quem era “ele”? Era a Sombra? Ou era Lúcifer? E por que seu pai a alertava para correr dele?

Ela pegou o medalhão novamente, sentindo um leve calor emanar dele. Era um símbolo de proteção, mas também de perigo. Seu pai havia deixado um legado de mistério e responsabilidade que agora recaía inteiramente sobre seus ombros.

“Minha filha… corra…” A voz de seu pai ecoou em sua mente, um fantasma persistente.

Seu pai se sacrificara para protegê-la. Ele sabia do perigo iminente, e sabia que a resposta não estava apenas em seu conhecimento, mas também em um ser que transcendia a compreensão humana.

Ela se levantou da cama, sentindo uma nova força percorrer seu corpo. A confusão e o medo ainda estavam presentes, mas agora eram temperados por uma determinação recém-descoberta. Ela não era mais apenas Helena, a filha de um historiador excêntrico. Ela era a descendente dos Alencar, a portadora de uma herança ancestral, a guardiã do equilíbrio.

Ela olhou para a janela, o sol brilhando intensamente no céu azul. O mundo lá fora parecia o mesmo, mas Helena sabia que nada seria igual. O véu entre os mundos havia se rompido para ela, e ela estava prestes a entrar em um universo de maravilhas e horrores que seu pai havia tentado, em vão, manter afastado.

Ela pegou a caixa de diários, o medalhão em seu pescoço, e as pedras guardadas no saco de veludo. Seus olhos pousaram em um mapa desenhado em uma das últimas páginas, um mapa que indicava um local específico em São Paulo, um endereço que ela reconheceu de imediato. Era a sede da fundação de pesquisa de seu pai, um lugar onde ele passava a maior parte de seu tempo nos últimos anos. Era ali que ela deveria procurar por ele. Por Lúcifer. A ponte entre os mundos.

“Eu vou entender, pai,” Helena sussurrou, a voz firme. “Eu vou encontrar o que você deixou para mim. E eu vou lutar.”

Ela sabia que o caminho seria perigoso. Sabia que estava entrando em um território desconhecido, onde as regras da realidade se distorciam e a linha entre o bem e o mal se tornava indistinta. Mas ela não tinha escolha. O chamado havia sido feito, e Helena, a anjo caído em potencial, estava pronta para atender.

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