Cap. 1 / 17

O Lobisomem

O Lobisomem

por Nathalia Campos

O Lobisomem

Capítulo 1 — A Lua Sangrenta e o Sussurro Antigo

O ar da noite em Vila Serena, um pequeno refúgio aninhado entre montanhas que pareciam abraçar o céu, carregava um perfume inebriante de jasmim e terra molhada. Era um aroma que, para Aurora, evocava memórias de infância, de tardes preguiçosas sob o sol que agora se desvanecia em tons de ametista e ouro. Mas naquela noite, algo mais pairava no ar, uma corrente elétrica sutil, um prenúncio que arrepiava os pelos da nuca. A lua, prestes a ascender em sua glória cheia, não exibia um branco prateado usual, mas sim um rubro profundo, como se um coração de fogo estivesse a pulsar no firmamento.

Aurora, uma jovem de vinte e poucos anos, com cabelos escuros como a noite e olhos cor de mel que guardavam uma melancolia ancestral, sentia a inquietação crescer em seu peito. Não era apenas a beleza sinistra da lua escarlate que a perturbava; era um chamado, um eco de histórias contadas à meia-voz por sua avó, Dona Elvira, em noites de inverno, sobre a criatura que assombrava as matas nos arredores da vila. Histórias que ela sempre tratara como contos de fadas sombrios, mas que, agora, pareciam ganhar contornos reais.

Ela estava sentada na varanda de sua casa, uma construção antiga com paredes de pedra cobertas de hera e janelas de madeira desgastada pelo tempo. A luz fraca de um lampião a óleo projetava sombras dançantes no chão de barro batido, acentuando a atmosfera mística da noite. Em suas mãos, segurava um pequeno amuleto de prata com um lobo entalhado, um presente de sua avó antes que a terra a levasse. O metal estava frio contra sua pele, mas parecia vibrar com uma energia própria.

"Não é só uma lua, Aurora", a voz rouca de Dona Elvira, frágil como papel antigo, ecoava em sua memória. "É um portal. E há coisas que esperam por esse portal se abrir."

Aurora suspirou, os pensamentos girando como folhas ao vento. Crescera em Vila Serena, uma vila onde o tempo parecia ter parado, onde as tradições eram mantidas com fervor e o mistério se entrelaçava com o cotidiano. A maioria dos moradores era simples, gente de roça, acostumada ao ritmo lento da natureza e às superstições que moldavam suas vidas. Mas havia algo mais profundo, algo que os antigos sussurravam em segredo: uma história de pacto, de maldição, de uma criatura que mudava de forma sob a luz da lua cheia. A história do Lobisomem.

Seu coração palpitou com mais força ao ouvir um uivo distante, um som longo e lúgubre que pareceu rasgar o silêncio da noite. Não era o uivo familiar dos cachorros da vila, mas algo mais selvagem, mais primal. Um arrepio percorreu sua espinha.

"É apenas um animal", disse ela em voz alta, tentando acalmar a si mesma e a voz interna que gritava perigo. Mas a força daquela lua escarlate parecia amplificar cada som, cada sombra, transformando o familiar em algo ameaçador.

De repente, um vulto escuro cruzou o limite da mata que margeava sua propriedade. Era rápido demais para ser um animal comum, uma sombra veloz que desapareceu tão rápido quanto surgiu. Aurora se levantou abruptamente, o amuleto em sua mão apertado com força. O medo, um sentimento que ela tentava reprimir, começava a dominar sua razão.

Ela se lembrou da última conversa com Dona Elvira, quando a avó, com os olhos marejados e a voz embargada, a advertiu sobre certas noites, certas luas. "Há um legado em nossa família, Aurora. Um segredo que nem todos sabem. E quando a lua sangrenta aparecer, o véu entre os mundos fica fino. Muito fino."

O que significava esse legado? Aurora nunca soube. Sua avó morrera pouco depois, levando consigo muitas respostas. Deixou para Aurora apenas a casa antiga, um pequeno pedaço de terra e um mistério que pairava no ar como a névoa matinal.

Um farfalhar nas folhas secas do jardim a fez sobressaltar. Um homem emergiu das sombras, alto e robusto, com feições marcadas pelo tempo e um olhar intenso que parecia penetrar a alma. Era Mateus, o capataz da fazenda vizinha, um homem conhecido por sua força, seu temperamento explosivo e seu silêncio. Ele raramente falava, mas quando o fazia, suas palavras tinham o peso de pedras.

"Boa noite, Aurora", disse Mateus, sua voz grave ressoando na quietude. Ele mantinha uma distância respeitosa, mas seus olhos pareciam fixos nela com uma urgência peculiar.

"Mateus", Aurora respondeu, a voz um pouco trêmula. "O que faz aqui a esta hora?"

Ele olhou para o céu, para a lua que agora banhava a paisagem em um tom fantasmagórico. "A lua... está diferente esta noite."

"Sim, está", concordou Aurora, sentindo uma tensão crescente entre eles. "Você parece... preocupado."

"Preocupação é pouco", Mateus respondeu, seu olhar voltando para ela. Havia algo em seus olhos, uma mistura de temor e determinação, que a deixou ainda mais apreensiva. "Há coisas que se movem nas sombras quando a lua está assim. Coisas que não deveriam se mover."

Ele deu um passo à frente, e Aurora instintivamente recuou. Havia uma aura de perigo emanando dele, uma energia bruta que a fazia se sentir vulnerável.

"Você sabe o que é, não sabe?", Mateus perguntou, sua voz agora um sussurro carregado de urgência. "As histórias que sua avó contava."

O coração de Aurora disparou. Como ele sabia? Sua avó nunca comentou com ninguém sobre essas histórias, a não ser com ela. Ou talvez... talvez ela tivesse comentado com outras pessoas, e essas pessoas fossem como Mateus, guardiãs de segredos antigos.

"Eu... eu não sei do que você está falando", Aurora mentiu, sentindo o suor frio escorrer por sua testa.

Mateus deu um sorriso amargo, quase imperceptível. "Não minta para mim, Aurora. Eu também conheço os sussurros. E eu sinto a mudança no ar. Algo está vindo."

Ele se aproximou mais, e Aurora pôde sentir o calor de seu corpo, o cheiro de terra e suor que emanava dele. Era um cheiro forte, masculino, que, em outras circunstâncias, poderia ter sido atraente. Mas agora, a situação era sombria demais, carregada de um pressentimento que a deixava em alerta máximo.

"Minha avó me disse... sobre a lua. Sobre a criatura", Aurora confessou, a voz baixa. "Mas eu pensei que fosse apenas folclore."

"Folclore é a forma que os covardes encontram para não encarar a verdade", Mateus disse, sua voz ganhando um tom mais sombrio. "A verdade é que o mal existe, Aurora. E ele tem fome. E esta noite... esta noite a fome é maior."

Ele estendeu a mão, e Aurora, hesitante, a pegou. A pele de Mateus era áspera, forte, e um arrepio percorreu seu braço. Ele a puxou suavemente para mais perto.

"Fique perto de mim esta noite", ele disse, seus olhos profundos fixos nos dela. "Há perigos que não podemos enfrentar sozinhos."

Aurora sentiu um misto de medo e uma estranha confiança. Havia algo em Mateus, uma força bruta e protetora, que a atraía apesar da situação aterrorizante. A lua escarlate acima deles parecia testemunhar o início de algo que mudaria suas vidas para sempre. O sussurro antigo que sua avó mencionara parecia agora gritar, anunciando a chegada de uma noite que seria diferente de todas as outras.

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