Cap. 22 / 17

O Lobisomem

Capítulo 22 — Encontro na Escuridão

por Nathalia Campos

Capítulo 22 — Encontro na Escuridão

O lobisomem parou, seus olhos brilhantes fixos em Clara. A criatura parecia confusa por um instante, o rosnado diminuindo, substituído por um som gutural, quase hesitante. Clara, ainda em choque, observava cada movimento do monstro, a lamparina apagada em sua mão como uma arma inútil. Ela podia sentir a presença da criatura a hipnotizando, a energia selvagem que emanava dela se chocando com a sua própria. Era como olhar para um espelho distorcido, onde ela via fragmentos de si mesma, de seus medos mais profundos e de sua natureza latente.

A mulher, que Clara ainda não conseguia distinguir na escuridão, aproveitou a hesitação do lobisomem e correu, desaparecendo entre as árvores. Clara sentiu um alívio momentâneo pela vida da desconhecida, mas esse alívio foi rapidamente substituído por um novo terror ao voltar sua atenção para a criatura que a encarava. O lobisomem não a atacara imediatamente. Parecia haver uma luta interna, uma batalha travada nas profundezas de sua mente lupina.

De repente, a criatura soltou um uivo longo e melancólico, um som que parecia carregar toda a dor e a solidão do mundo. Era um som que perfurou o coração de Clara, evocando uma empatia inesperada. Ela reconheceu aquele uivo. Era o mesmo uivo que ela ouvira em seus sonhos, o som que a trazia de volta à realidade com um sobressalto, a marca sonora de Daniel.

"Daniel?", ela sussurrou, a voz embargada pelo medo e pela esperança.

O lobisomem inclinou a cabeça, como se a palavra tivesse algum significado. Seus olhos, antes fúria pura, pareciam agora carregar um lampejo de reconhecimento, ou talvez, apenas confusão. Ele deu um passo cauteloso em sua direção, e Clara não recuou. Algo a prendia ali, uma força invisível que a impedia de fugir.

Ela podia ver agora, com a pouca luz que a lua finalmente conseguia perfurar as nuvens, os contornos do lobisomem com mais clareza. Era uma criatura imponente, a pelagem escura e densa, os músculos fortes e tensos sob a pele. Havia algo de majestoso em sua selvageria, uma beleza brutal que a fascinava e a aterrorizava. Mas, em seus olhos, ela via a dor. A dor que ela sabia que Daniel carregava, a dor de ser algo que ele não escolheu ser.

"Você está ferido?", Clara perguntou, sua voz ganhando uma firmeza surpreendente. Ela se lembrou dos ensinamentos de sua avó sobre a natureza das criaturas, sobre a importância de observar, de entender, antes de julgar. Talvez, apenas talvez, não fosse um monstro, mas uma alma atormentada.

O lobisomem soltou um grunhido baixo, como se respondesse à pergunta. Ele moveu uma pata dianteira, e Clara viu o sangue escorrendo. Ele estava ferido. A luta com a mulher, ou talvez algo mais, o havia deixado debilitado.

Clara deu um passo à frente. O medo ainda estava ali, uma presença fria em seu estômago, mas agora era sobreposto por uma compaixão avassaladora. Ela se lembrou de um ritual que sua avó descrevia em seus diários, um ritual de cura para feridas que não eram apenas físicas. Um ritual que exigia coragem e uma conexão com a natureza, com a própria essência da vida.

"Eu posso te ajudar", ela disse, a voz mais calma agora. Ela estendeu a mão lentamente, com a palma aberta, como um gesto de paz.

O lobisomem se enrijeceu. Ele rosnou novamente, um aviso claro. Mas não se afastou. Clara sentiu a energia dele, uma força bruta e selvagem, mas também uma vulnerabilidade que a surpreendeu. Ela sabia que estava arriscando tudo. Se Daniel, em sua forma lupina, não a reconhecesse, se a maldição o consumisse completamente, ela estaria em perigo mortal. Mas a imagem dele, a sua luta interna, a sua dor, a impediam de voltar atrás.

Ela continuou avançando, um passo de cada vez, até que estivesse a poucos metros dele. O lobisomem a observava, os olhos penetrantes avaliando cada movimento. Clara se ajoelhou lentamente no chão úmido, ignorando o frio que a atravessava. Ela fechou os olhos por um momento, concentrando-se. Ela pensou em sua avó, em sua força, em seu conhecimento. Ela visualizou a energia curativa, a luz que emanava da terra, a força vital das plantas que ela tanto amava.

"Eu não sou uma ameaça", ela sussurrou, sua voz quase inaudível. "Eu entendo."

Ela abriu os olhos e olhou diretamente para o lobisomem. Ela estendeu a mão novamente, desta vez para tocar um dos machucados em sua pata. Por um instante, tudo ficou em silêncio. O vento parou de uivar, as árvores pareciam prender a respiração.

E então, o lobisomem baixou a cabeça. Ele se aproximou da mão de Clara e, com uma delicadeza inesperada, roçou o focinho em sua palma. Clara sentiu um arrepio percorrer seu corpo, uma onda de calor que a inundou. Era um toque de confiança, um sinal de que, em algum lugar dentro daquela fera, Daniel estava presente.

"Eu sei que você está aí", ela disse, as lágrimas começando a se formar em seus olhos. "Eu sei que você está lutando."

O lobisomem soltou um suspiro profundo, quase humano. Clara sentiu que podia curar aquela pata ferida, que podia aliviar a dor dele. Mas ela sabia que o verdadeiro problema não era o ferimento físico. Era a maldição, a dualidade que o consumia.

De repente, um barulho na floresta a alertou. Outros vultos começaram a emergir das sombras. Não eram apenas um. Eram vários lobisomens. Eles se moviam com uma agilidade assustadora, circundando Clara e Daniel. O lobisomem que ela pensava ser Daniel soltou um rosnado de advertência, posicionando-se protetoramente à sua frente.

Clara se levantou, o medo voltando com força total. Ela não estava apenas lidando com o lobisomem que amava, mas com um bando inteiro. E a lua cheia, mesmo ainda oculta, parecia clamar ainda mais alto, intensificando a selvageria ao seu redor. Ela se lembrou das palavras de Dona Aurora: "O chamado da lua é para todos nós, mas para alguns, é uma escravidão." Ela não sabia se Daniel estava em escravidão, ou se ele era o líder.

"Daniel!", ela chamou, a voz embargada pelo desespero. "O que está acontecendo?"

Um dos lobisomens, maior e mais sombrio que os outros, deu um passo à frente. Seus olhos brilhavam com uma inteligência fria e calculista. Ele olhou para Clara, e depois para o lobisomem que estava ao lado dela. Um rosnado baixo ecoou em sua garganta. Parecia haver uma disputa de poder, uma hierarquia a ser estabelecida.

Clara sentiu um frio na espinha. Ela estava no meio de uma guerra, de uma luta pela supremacia entre criaturas da noite. E ela, uma simples mortal, estava presa entre eles, com o homem que amava transformado em um lobo feroz. A noite estava longe de terminar, e o chamado selvagem da lua parecia apenas ter começado.

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