O Lobisomem
Capítulo 23 — A Escolha de Clara
por Nathalia Campos
Capítulo 23 — A Escolha de Clara
A presença dos outros lobisomens era sufocante. Clara sentiu o ar rarefeito em seus pulmões, o cheiro forte e animal que emanava deles, um prenúncio de perigo iminente. Ela estava encurralada na clareira, a escuridão da floresta se tornando uma prisão. O lobisomem que ela acreditava ser Daniel se posicionou à sua frente, um escudo vivo de pelos e músculos, emitindo rosnados baixos e ameaçadores para os outros. A tensão no ar era palpável, uma eletricidade selvagem que prenunciava uma explosão.
O lobisomem líder, com uma cicatriz que desfigurava parte de seu focinho, deu um passo hesitante em direção a Daniel, seus olhos fixos nos dele em um desafio silencioso. Clara observou a troca de olhares, a disputa de poder se desenrolando diante de seus olhos. Ela percebeu que Daniel não era apenas mais um na matilha; havia algo em sua postura, na forma como os outros lobisomens reagiam a ele, que sugeria uma posição de respeito, ou talvez, de medo.
"Você não deveria estar aqui, humano", a voz do líder ecoou, não como um rosnado, mas como um sussurro rouco e arranhado, que parecia vir de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. A voz era estranhamente familiar, como um eco de algo que Clara havia ouvido em seus pesadelos mais sombrios. Ela se lembrou das palavras de Dona Aurora sobre as "vozes da floresta", as manifestações das criaturas que habitavam os reinos sombrios.
Clara sentiu um arrepio. Não era apenas um animal. Era algo mais. Algo que compreendia, que falava, que sentia. Ela olhou para Daniel, buscando uma resposta em seus olhos lupinos, mas ele apenas emitiu um rosnado mais profundo, um aviso para o líder não se aproximar.
"Por que você a protege?", perguntou o líder, sua voz carregada de curiosidade e desprezo. "Ela é frágil. Uma presa fácil."
Clara sentiu um misto de raiva e medo. Ela não era frágil. Ela era a descendente de Dona Aurora, a guardiã de segredos ancestrais. Ela tinha uma força que aqueles lobisomens, em sua fúria selvagem, talvez não pudessem compreender.
"Ela é importante para mim", Daniel respondeu, sua voz lupina carregada de uma convicção que surpreendeu Clara.
O lobisomem líder soltou uma risada baixa e gutural. "Importante? Para um lobo? Você está perdendo sua natureza, Daniel. A lua nos chama para a caça, para a liberdade. Não para sentimentalismos com as presas."
Clara percebeu que a dinâmica entre eles era mais complexa do que imaginara. Daniel era um lobisomem, sim, mas parecia haver uma luta interna, uma resistência à completa rendição à sua natureza selvagem. E Clara, com sua presença, com seu amor, estava exacerbando essa luta.
"Talvez a sua natureza não seja apenas a caça e a selvageria", Clara disse, sua voz tremendo levemente, mas firme. Ela deu um passo à frente, saindo da proteção de Daniel. Os outros lobisomens grunhiram, mas Daniel não a impediu. Ele a observava com uma intensidade que a fazia sentir exposta, mas também, curiosamente, protegida.
"O que uma humana sabe sobre natureza?", o líder zombou.
"Eu sei sobre o equilíbrio", Clara respondeu, suas palavras ganhando força. "Eu sei sobre a vida e a morte, sobre a cura e o sofrimento. E eu sei que há mais em vocês do que apenas a besta."
Ela olhou diretamente nos olhos do líder. "Você fala sobre liberdade, mas você é escravo de seus instintos. Você fala sobre caça, mas você se esconde na escuridão. E você sente medo. Medo de algo que você não entende. Medo de mim."
As palavras de Clara pareciam ter atingido um nervo. O lobisomem líder rosnou, seus olhos brilhando com uma fúria contida. Os outros lobisomens avançaram, prontos para atacar.
"Chega!", Daniel latiu, sua voz ressoando com autoridade. Ele se colocou completamente na frente de Clara, bloqueando o avanço dos outros. "Ela fica. Ela não é uma ameaça para nós."
O líder hesitou. A determinação de Daniel era inabalável. Clara sentiu um nó na garganta. Ela estava vendo a força de Daniel em sua forma lupina, a sua capacidade de liderar, de proteger. Mas também via a luta em seus olhos, a dor da dualidade.
"Você a escolhe?", o líder perguntou, sua voz baixa e perigosa. "Você escolhe a humana em vez da sua matilha?"
A pergunta pairou no ar, carregada de um peso insuportável. Clara olhou para Daniel, o coração apertado. Ela sabia que ele estava em uma encruzilhada, que sua decisão teria consequências profundas. Ela não queria forçá-lo, não queria ser o motivo de sua rejeição pela sua própria espécie.
"Daniel...", ela começou, mas ele a interrompeu.
"Eu escolho o que é certo", Daniel disse, sua voz calma, mas firme. Ele olhou para Clara, e em seus olhos, ela viu uma ternura que a fez esquecer o perigo que a cercava. "E o que é certo é protegê-la. Protegê-la de vocês, se necessário."
O lobisomem líder soltou um rosnado de frustração. Ele olhou para os outros membros da matilha, que pareciam igualmente confusos e irritados. A ordem natural das coisas, a lei da selva, estava sendo desafiada.
"Então você está nos rejeitando", o líder disse friamente. "Você está escolhendo um caminho diferente."
"Estou escolhendo o meu caminho", Daniel respondeu. "E ela faz parte dele."
Clara sentiu um misto de alívio e um medo profundo. Ela havia escolhido ficar ao lado de Daniel, mesmo sabendo da natureza dele. Mas agora, ela estava marcada. Ela era a humana que o lobisomem escolheu, e isso a colocava em uma posição perigosa, não apenas para os outros lobisomens, mas talvez para ela mesma.
O lobisomem líder soltou um último rosnado de advertência. "Você cometeu um erro, Daniel. Um erro que você e ela pagarão caro."
E então, um por um, os lobisomens começaram a se afastar, desaparecendo nas sombras da floresta como fantasmas. Apenas o líder ficou por último, lançando um último olhar penetrante para Clara antes de se virar e sumir na escuridão.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Clara e Daniel ficaram sozinhos na clareira, a luz fraca da lua banhando-os. Clara se virou para Daniel, a confusão e a emoção tomando conta dela.
"Daniel, você...", ela começou, sem saber o que dizer.
Daniel se aproximou dela, e pela primeira vez naquela noite, ela viu a forma humana se manifestar em meio à besta. Seus traços começaram a se refinar, a pelagem a recuar, os olhos a perderem o brilho selvagem. Ele estava se transformando de volta, e Clara sentiu uma onda de alívio e apreensão.
Em segundos, Daniel estava ali, nu e ofegante, com os olhos fixos nos dela. Havia dor em seu rosto, mas também uma resolução que Clara nunca vira antes. Ele estendeu a mão para ela, e ela a pegou, sentindo a familiaridade de sua pele quente.
"Você está bem?", ela perguntou, a voz embargada.
Daniel a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seus cabelos. "Eu não sei, Clara. Eu não sei o que vai acontecer agora. Mas eu fiz uma escolha. E não me arrependo."
Clara retribuiu o abraço, sentindo a força dele, o calor de seu corpo contra o dela. Ela sabia que aquele era apenas o começo. A escolha de Daniel os havia colocado em um caminho perigoso, um caminho que os separava do mundo conhecido e os lançava no reino do sobrenatural. Mas ao sentir o coração de Daniel batendo forte contra o seu, ela soube que não estava sozinha. Juntos, eles enfrentariam o que quer que viesse. A lua cheia, agora mais visível entre as nuvens, parecia ser testemunha silenciosa de sua nova e perigosa jornada.