Cap. 7 / 17

O Lobisomem

Capítulo 7 — O Rastro na Aurora

por Nathalia Campos

Capítulo 7 — O Rastro na Aurora

O primeiro raio de sol, tímido e hesitante, rompeu a escuridão do horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa. A floresta, ainda envolta em um véu de névoa matinal, começava a despertar de seu sono noturno. Para Matheus, cada minuto que passava trazia um alívio tênue, um sopro de esperança de que a Lúcia humana estivesse retornando. Ele permaneceu imóvel na clareira onde a transformação havia ocorrido, o amuleto ainda em sua mão, o cheiro de terra e pelo selvagem impregnado em suas roupas.

A noite havia sido um turbilhão de emoções e perigos. A dor lancinante de Lúcia, a brutalidade da transformação, o uivo aterrorizante que rasgou o silêncio da mata, e o momento de conexão tensa entre ele e a criatura. Ele sentiu a força bruta da besta, a fome que a consumia, mas também, por um breve instante, um vislumbre de Lúcia, a mulher que ele amava, lutando contra as sombras que a dominavam. O pacto renovado com o amuleto era uma âncora, um fio tênue que o ligava à sua sanidade, mas ele sabia que essa âncora poderia se romper a qualquer momento.

Com os primeiros raios de sol tocando seu rosto, Matheus sentiu um calor reconfortante, mas a ansiedade ainda o consumia. Onde estava Lúcia? A besta a havia levado para as profundezas da floresta? Ou ela havia retornado à sua forma humana em algum lugar remoto, desorientada e assustada? Ele precisava encontrá-la. Precisava saber se ela estava segura, se ela se lembrava de algo.

Ele se levantou, as pernas rígidas pelo frio da noite e pela tensão. Olhou ao redor, procurando por qualquer vestígio, qualquer sinal que pudesse indicar a direção que a criatura havia tomado. As folhas estavam pisoteadas em uma área, mas a densa vegetação logo encobria qualquer rastro. A floresta, em sua imensidão, parecia ter engolido a besta, guardando seus segredos.

"Lúcia!", ele chamou, a voz rouca e embargada pela emoção. "Lúcia, onde você está?"

O único som em resposta foi o chilrear dos pássaros, que anunciavam o novo dia, alheios ao drama humano que se desenrolara sob a luz da lua. Matheus sentiu um aperto no peito. A urgência de encontrá-la era quase insuportável. Ele sabia que, a cada momento que passava, Lúcia poderia estar se perdendo mais e mais em sua dualidade, a linha entre a mulher e a besta se tornando cada vez mais tênue.

Ele começou a andar, escolhendo uma direção aleatória na esperança de encontrar algum indício. Seus olhos percorriam o chão, examinando cada folha, cada galho quebrado. Ele se lembrava de ter ouvido um som de galhos se quebrando em uma direção específica na noite anterior, logo após a criatura ter desaparecido. Era sua melhor pista.

Enquanto avançava, a floresta se revelava em sua beleza matinal. A luz do sol filtrava pelas copas das árvores, criando um espetáculo de luz e sombra. O orvalho brilhava nas teias de aranha, e o perfume das flores silvestres pairava no ar. Era uma beleza que, em outra circunstância, teria encantado Lúcia. Agora, para Matheus, era um lembrete doloroso do que ela estava perdendo, do que ela corria o risco de nunca mais poder desfrutar.

Ele continuou andando por horas, a esperança se misturando à exaustão. O amuleto em seu pescoço parecia pulsar levemente, uma conexão sutil com Lúcia, mas não o suficiente para guiá-lo diretamente a ela. Ele parou para beber água de um riacho cristalino, sentindo a frescura aliviar um pouco a secura em sua garganta. Foi então que ele viu.

Em uma margem lamacenta do riacho, marcas profundas e distintas. Não eram pegadas de animais comuns. Eram grandes, com garras afiadas, inconfundíveis. As pegadas do lobisomem. Elas se dirigiam para o interior da floresta, em uma direção que ele ainda não havia explorado. Um arrepio percorreu sua espinha, uma mistura de alívio e apreensão. Ele sabia que Lúcia havia estado ali, mas em que estado?

Com renovada determinação, Matheus seguiu o rastro. As pegadas o levaram por entre arbustos densos e árvores centenárias. Ele se movia com cautela, atento a qualquer som, a qualquer movimento. Ele sabia que, a qualquer momento, poderia se deparar com a criatura novamente, ou pior, com Lúcia ferida e perdida.

Após quase mais uma hora de caminhada, o rastro o levou a uma pequena clareira, escondida em um vale. E lá, encolhida aos pés de uma árvore imponente, estava ela.

Lúcia.

Ela estava deitada de lado, o corpo tremendo, a pele pálida e marcada por arranhões. Suas roupas estavam rasgadas e sujas de terra. Seus olhos estavam fechados, e uma expressão de dor e exaustão profunda pairava em seu rosto. Ela parecia um animal ferido, frágil e vulnerável.

Matheus correu até ela, o coração disparado no peito. "Lúcia!", ele exclamou, ajoelhando-se ao seu lado. "Lúcia, você está bem?"

Ela abriu os olhos lentamente, e Matheus sentiu um nó na garganta. Os olhos de Lúcia, geralmente tão vibrantes e cheios de vida, estavam turvos e assustados. Ela olhou para ele sem reconhecimento por um instante, como se ele fosse um estranho. O medo que ele vira na noite anterior ressurgiu em seu olhar.

"Quem... quem é você?", ela sussurrou, a voz fraca e trêmula.

O coração de Matheus afundou. Ela não se lembrava dele. A transformação, a noite de horror, havia apagado suas memórias. Ele sentiu um aperto no peito, a dor da rejeição misturada à preocupação com sua condição.

"Lúcia, sou eu, Matheus", ele disse suavemente, tentando transmitir calma e segurança. "Você se machucou? Você se lembra de alguma coisa?"

Ela franziu a testa, uma ruga de confusão surgindo em sua testa. "Matheus? Eu... eu não sei. Eu me lembro de... dor. Muita dor. E escuridão." Ela fechou os olhos novamente, como se a simples lembrança a esgotasse.

Matheus pegou a mão dela, sentindo a fragilidade de seus ossos sob a pele fria. Ele apertou suavemente, esperando que o contato físico pudesse trazer algum conforto. "A noite foi difícil, Lúcia. Mas você está segura agora. Eu estou aqui."

Ele tirou o amuleto do pescoço, sentindo seu calor familiar. Ele não sabia se ela sentiria algo, mas esperava que a proximidade do artefato ancestral pudesse, de alguma forma, reacender suas memórias. Ele colocou o amuleto delicadamente em sua mão.

"Isso é seu", ele disse. "É um amuleto da sua família. Ele vai te proteger."

Lúcia abriu os olhos novamente e olhou para o amuleto em sua mão. Seus dedos o tocaram com uma curiosidade hesitante. Por um momento, uma faísca de algo diferente passou por seus olhos – um vislumbre de reconhecimento, um lampejo de memória antiga. Seus dedos percorreram os símbolos gravados na pedra.

"Eu... eu sinto algo", ela murmurou, a voz ainda fraca. "É... familiar."

Matheus sentiu um fio de esperança se reacender dentro dele. Era um começo. Talvez as memórias não estivessem perdidas para sempre. Talvez, com o tempo e com o amuleto, ela pudesse se reconectar com quem era.

Ele a ajudou a se sentar, apoiando-a com cuidado. Ele tirou sua própria camisa e a ofereceu a ela para se cobrir. "Você precisa se alimentar. E descansar."

Lúcia aceitou a camisa, cobrindo seus ombros magros. Ela olhou para ele, seus olhos ainda assustados, mas agora com uma pitada de gratidão. "Obrigada, Matheus."

Ele sorriu, um sorriso cansado, mas sincero. "De nada, Lúcia. Sempre."

Ele sabia que a jornada seria longa e árdua. Lidar com a maldição, com as memórias perdidas, com o medo que a consumia. Mas ele não a deixaria. Ele estaria ao seu lado, passo a passo, até que ela encontrasse seu caminho de volta para si mesma. A floresta guardava segredos sombrios, mas o amor e a determinação podiam ser forças ainda maiores. O rastro na aurora não era apenas o fim de uma noite de terror, mas o começo de uma nova e desafiadora jornada.

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