O Mal-Entendido III
O Mal-Entendido III
por Letícia Moreira
O Mal-Entendido III
Autor: Letícia Moreira
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Capítulo 1 — O Reencontro Sob Chuva e Fogo Cruzado
A chuva caía com a fúria de um coração partido, açoitando as vidraças do café "Aromas da Vila". Lá dentro, o cheiro forte de café recém-coado e o burburinho abafado das conversas formavam um manto de conforto contra o temporal lá fora. Mas para Isabella Albuquerque, aquele conforto parecia uma miragem distante. Seus olhos, antes um brilho de safira que transbordava alegria, agora espelhavam a tempestade, carregados de uma melancolia que nem o melhor cappuccino conseguia afogar.
Ela remexia no guardanapo com uma ansiedade que roía suas entranhas, cada gota de chuva que batia no vidro parecendo um lembrete cruel do tempo que passara. Dois anos. Dois longos anos desde a última vez que ela sentira a presença dele, a energia que o cercava, a promessa implícita em cada olhar. E agora, ali estava ele. Sentado a duas mesas de distância, como se o destino, em seu humor sádico, tivesse decidido jogar suas vidas de novo no mesmo tabuleiro.
Eduardo Sampaio. O nome ecoava em sua mente como um trovão distante, mas a visão dele era um raio que a atingiu em cheio. Ele parecia mais… esculpido. O cabelo castanho escuro, antes um pouco desalinhado, agora estava cuidadosamente penteado, realçando a linha forte do maxilar. A camisa social, de um azul que lembrava o céu antes da tormenta, parecia feita sob medida, delineando os ombros largos e a postura impecável. Havia uma aura de confiança em volta dele, uma segurança que, ela admitia a contragosto, lhe caía muito bem.
Mas o que realmente a fez prender a respiração foi o sorriso. Era um sorriso discreto, direcionado a uma mulher sentada à sua frente, uma loira vibrante, com um vestido vermelho que gritava autoconfiança. Isabella sentiu uma pontada aguda no peito, um ardor que nada tinha a ver com o café quente que ela não conseguia beber. Ela desviou o olhar rapidamente, o coração acelerado numa batida descompassada que zombava de toda a sua tentativa de manter a calma.
"Respira, Bella. Só respira", murmurou para si mesma, apertando o copo frio entre as mãos. Ela tinha vindo àquele café com um propósito. Um propósito que, naquele exato momento, parecia tão frágil quanto um vidro fino sob a força de uma cachoeira.
Ela se levantou, a cadeira raspando no chão com um som agudo que, para seu horror, atraiu a atenção dele. Seus olhares se cruzaram. Aquele azul profundo, intensamente familiar, fixou-se nela. Um lampejo de surpresa, seguido por algo mais, algo que ela não conseguia decifrar, cruzou o rosto de Eduardo. O sorriso que ele dirigia à loira desapareceu instantaneamente.
A loira, sentindo a mudança no clima, virou-se para seguir o olhar de Eduardo. Seus olhos cor de mel pousaram em Isabella, e um sorriso de deboche, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. Isabella sentiu as bochechas corarem. Era ridículo. Ela estava agindo como uma adolescente apaixonada, e não como a mulher de negócios bem-sucedida que era.
Ela deu um passo em direção à saída, a determinação voltando com força renovada. Aquele café, aquele homem, aquela mulher… nada disso importava. Ela tinha um objetivo. Um objetivo que a levara a atravessar o país, a enfrentar seus medos e a desembolsar uma quantia considerável de dinheiro.
Quando Isabella estava quase alcançando a porta, uma voz, rouca e familiar, a chamou.
"Isabella?"
Ela parou. A chuva parecia ter diminuído o volume, como se o próprio universo estivesse prendendo a respiração. Ela não se virou. Não ainda.
"Eduardo", ela respondeu, a voz um sussurro rouco, carregado de uma emoção que ela lutava para conter.
Ele se aproximou. Cada passo dele parecia ecoar em seus nervos. Ela sentiu o perfume dele antes mesmo de vê-lo, um misto de madeira e especiarias, um aroma que a assombrava em seus sonhos.
"Não imaginei te encontrar aqui. Ou… em qualquer lugar", ele disse, parando a uma distância respeitosa, mas perigosamente perto.
"O mundo é pequeno, não é?", Isabella respondeu, finalmente virando-se para encará-lo. A loira do vestido vermelho observava tudo de longe, com uma expressão de tédio calculada.
Os olhos de Eduardo percorreram o rosto dela, um olhar que parecia querer desvendar segredos guardados a sete chaves. Isabella viu nos olhos dele uma mistura de surpresa, talvez culpa, e algo mais… algo que a fez sentir um aperto no estômago. Ele estava mais bonito do que ela se lembrava, e isso era uma cruel ironia.
"Você… está diferente", ele comentou, um leve sorriso brincando em seus lábios.
"E você, parece ter encontrado a felicidade", Isabella retrucou, o tom frio apesar da tempestade interna. Ela lançou um olhar rápido para a mesa onde a loira ainda observava, um desafio velado em seu gesto.
Eduardo seguiu o olhar dela e um suspiro escapou de seus lábios. "Isso é… complicado, Isabella."
"Tudo entre nós sempre foi complicado, Eduardo", ela disse, um tom de amargura em sua voz. A chuva lá fora pareceu intensificar-se novamente.
"Eu não quis…", ele começou, mas Isabella o interrompeu.
"Não diga nada. Eu não estou aqui para reviver o passado. Eu tenho… um assunto pendente."
"Um assunto pendente?", ele repetiu, a curiosidade aguçada em seus olhos.
Isabella hesitou por um instante. Ela não esperava encontrá-lo ali, naquele café, especialmente com outra mulher. Mas o destino, por mais irônico que fosse, parecia estar lhe dando uma oportunidade. Uma oportunidade que ela não pretendia desperdiçar.
"Sim. Um assunto que envolve você. E um certo… mal-entendido."
O olhar de Eduardo mudou. A casualidade desapareceu, substituída por uma seriedade que fez Isabella sentir um arrepio. "Mal-entendido? De que você está falando, Isabella?"
Ela deu um passo mais perto, o som da chuva criando um drama adicional para a cena. "Estou falando de um contrato. Um contrato que você assinou, acredite em mim ou não, e que tem consequências que você talvez não esteja ciente."
Ele franziu a testa, a confusão clara em seu rosto. "Contrato? Eu não me lembro de nenhum contrato com você recentemente."
Isabella sorriu, um sorriso sem alegria, mas com uma pontada de triunfo. "Ah, mas você assinou. E esse contrato, Eduardo, está prestes a mudar tudo. Ou melhor, já mudou." Ela tirou uma pasta de couro preta de sua bolsa, o material brilhando sob a luz fraca do café. "Eu vim buscar o que me é de direito."
A loira vermelha, percebendo que a conversa havia se tornado tensa, levantou-se e aproximou-se deles, um ar de possessividade no olhar. "Eduardo, quem é esta?" Sua voz, apesar de melodiosa, carregava um tom de ameaça.
Eduardo lançou um olhar para a loira, depois voltou seus olhos para Isabella, a perplexidade crescendo. "Isabella, isso é tudo muito… confuso. Quem é você? E que contrato é esse?"
Isabella sentiu uma onda de frustração. A presença da outra mulher era um incômodo, um lembrete constante do passado que ela tentava deixar para trás. Mas ela não podia se dar ao luxo de perder o foco.
"Eu sou Isabella Albuquerque", ela disse, encarando a loira com frieza. "E este contrato", ela disse, batendo levemente na pasta, "é sobre algo que você, Eduardo, deveria ter me contado há muito tempo."
A chuva lá fora finalmente começou a diminuir, mas a tempestade dentro do café apenas começava. Um mal-entendido, um contrato, um reencontro inesperado. E Isabella Albuquerque estava determinada a descobrir a verdade, custasse o que custasse. Ela sentiu um frio na espinha, não da chuva, mas da antecipação. O jogo estava apenas começando, e ela estava pronta para jogar.
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Capítulo 2 — A Carta Misteriosa e a Herança Dividida
O aroma de café se misturou com a tensão palpável no ar, um coquetel perigoso que Isabella sentia queimar em suas narinas. A loira de vestido vermelho, com quem Eduardo parecia compartilhar uma intimidade que feria Isabella mais do que ela gostaria de admitir, lançou-lhe um olhar de pura desconfiança, como se Isabella fosse um elemento estranho e indesejado naquele cenário cuidadosamente montado.
"Mal-entendido?", Eduardo repetiu, a testa franzida em confusão, mas com um brilho de cautela nos olhos azuis. Aquele olhar, que um dia fora um porto seguro, agora parecia um campo minado. "Isabella, o que você está querendo dizer? De que contrato estamos falando?"
Isabella sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Era quase inacreditável a capacidade dele de fingir ignorância, ou talvez, e isso era ainda pior, ele realmente não se lembrasse. Ela abriu a pasta de couro com um clique decidido, o som agudo cortando o murmúrio do café. As mãos dela tremiam levemente enquanto ela retirava um documento dobrado.
"Este aqui", ela disse, estendendo o papel para ele. Era um contrato de confidencialidade, assinado há exatos dois anos, poucas semanas antes do rompimento abrupto que havia dilacerado suas vidas. A assinatura dele, firme e inconfundível, estava lá, embaixo da cláusula que estipulava a divisão de uma herança considerável, uma herança que pertencia à família Albuquerque, mas que, por um capricho do destino e um acordo antigo, precisava da aprovação e colaboração de Eduardo para ser integralmente liberada.
Eduardo pegou o papel com as mãos, sua expressão passando da confusão para uma surpresa relutante. Seus olhos percorreram as linhas, e Isabella pôde ver uma luz de reconhecimento começar a brilhar. Ele suspirou, um som pesado que parecia carregar o peso de anos de segredos.
"Eu… eu me lembro disso", ele admitiu, a voz baixa. "Mas eu pensei que… tínhamos concordado em esquecer aquilo tudo."
A loira, com uma impaciência crescente, interveio: "Eduardo, quem é esta mulher? E que herança é essa que você assinou algo?"
Isabella não pôde conter um sorriso irônico. A loira, com seu vestido vibrante e sua pose confiante, parecia completamente alheia à profundidade da história que se desenrolava diante dela.
"Eu sou Isabella Albuquerque", Isabella repetiu, encarando a loira diretamente nos olhos, a voz firme e decidida. "E a herança em questão pertence à minha família. Eduardo tem apenas uma participação… indireta, digamos assim."
"Indireta?", a loira riu, um som agudo e sem humor. "Ele é meu noivo, querida. E tudo o que é dele, é meu."
A palavra "noivo" atingiu Isabella como um golpe físico. Por um instante, ela sentiu o chão sumir sob seus pés. Ela apertou os dentes, a raiva começando a borbulhar em suas veias, uma lava incandescente que ameaçava transbordar.
"Noivo?", Isabella repetiu, a voz carregada de incredulidade e um escárnio mal disfarçado. "Interessante. Porque, se não me engano, Eduardo, quando você assinou este contrato, você estava bastante… comprometido. Comigo."
Eduardo olhou de uma para a outra, parecendo preso no meio de uma batalha declarada. "Isabella, por favor, vamos conversar em outro lugar. E você", ele se virou para a loira, "Adriana, por favor, se acalme."
Adriana, no entanto, não parecia disposta a ceder. Seus olhos cor de mel fixaram-se em Isabella com um brilho de competição. "Então você é a ex. Que patético. Vindo aqui para perturbar o noivo na véspera do nosso casamento."
"Véspera do casamento?", Isabella riu, um som áspero. "Eduardo, você está prestes a se casar com esta mulher? E você sequer mencionou… a carta?"
A menção da carta pareceu chocar Eduardo. Ele ergueu os olhos, o azul intenso arregalado. "Carta? Que carta, Isabella?"
"A carta que a minha tia-avó, Dona Aurora, deixou. A carta que especifica as condições para a liberação completa da herança. Condições que você, Eduardo, prometeu cumprir. Condições que, se não forem cumpridas, significam que esta herança, que vale uma fortuna, será destinada a um projeto filantrópico obscuro, e não a… bem, não a você."
Adriana lançou um olhar para Eduardo, a expressão de tédio substituída por uma genuína preocupação. "Eduardo, o que ela está falando? Que carta é essa?"
Eduardo parecia em pânico. Ele pegou o contrato novamente, os dedos traçando as linhas como se buscasse uma resposta escondida entre os termos. "Eu… eu não me lembro de nenhuma carta. Tia Aurora apenas me disse que havia um acordo antigo com a família Albuquerque, e que eu precisava assinar aquele contrato para garantir a continuidade de alguns investimentos que ela fez com o seu pai. Ela disse que era uma formalidade."
"Uma formalidade?", Isabella riu novamente, a amargura tingindo o som. "Dona Aurora era uma mulher astuta, Eduardo. Ela sabia que você era ambicioso. E ela sabia que você tinha um certo… charme. Ela sabia que você seria capaz de me magoar profundamente. Por isso, ela se certificou de que você tivesse um incentivo para não me esquecer completamente. Ou melhor, um motivo para me manter… relevante."
Ela tirou outro envelope da pasta, desta vez um pouco amarelado pelo tempo. Era uma carta escrita à mão, com a caligrafia elegante de Dona Aurora.
"Esta carta", Isabella disse, erguendo-a, "é o testamento de Dona Aurora. Nela, ela detalha a sua participação na herança. Uma participação que está condicionada à sua cooperação integral com os meus desejos e às minhas necessidades. E, mais especificamente, à minha permissão para que a sua parte seja utilizada como bem eu entender. Em troca, você receberia uma quantia generosa. Mas sem a minha permissão… nada."
Eduardo pegou a carta, os olhos arregalados enquanto a lia. A cada linha, o desespero em seu rosto aumentava. Adriana, ao lado dele, tentava espiar o conteúdo, mas Eduardo a afastou com um gesto brusco.
"Isso… isso não pode ser verdade", ele murmurou, a voz embargada. "Eu nunca teria concordado com isso. Tia Aurora me disse que era apenas uma questão de… boa vontade."
"Boa vontade?", Isabella repetiu, a voz agora suave, mas carregada de uma ironia cruel. "Eduardo, você me trocou. Você me deixou por outra pessoa. Você se tornou um estranho. E agora, você está prestes a se casar com alguém que, ao que parece, está mais interessada no seu dinheiro do que em você. Dona Aurora sabia de tudo isso. E ela, de uma forma muito particular, decidiu me dar o poder. O poder de decidir o seu futuro financeiro."
Adriana olhou para Eduardo com uma expressão de choque e traição. "Eduardo? O que ela está falando? Você está prestes a se casar comigo, mas você… você assinou algo que te prende a ela?"
Eduardo parecia um homem encurralado. Ele olhou para Isabella, seus olhos azuis buscando alguma compaixão que ela não estava disposta a oferecer. "Isabella, por favor. Eu preciso entender isso. Eu… eu acho que fui enganado."
"Enganado?", Isabella riu. "Você me enganou, Eduardo. Você destruiu nossos planos, nossos sonhos. Você me deixou sem explicação. E agora, o destino, através da minha tia-avó, decidiu que você terá que lidar com as consequências das suas escolhas. Eu vim aqui para reivindicar o que é meu por direito. E, talvez, para te dar uma lição. Uma lição sobre as pessoas que amamos e as escolhas que fazemos."
Ela colocou o contrato e a carta de volta na pasta, a ação deliberada e definitiva. O silêncio pairava no café, quebrado apenas pelo tilintar de xícaras e o barulho da chuva que agora parecia um lamento.
"Eu não estou pedindo desculpas, Eduardo. Eu não estou aqui para perdoar. Eu estou aqui para fazer cumprir a vontade de Dona Aurora. E a vontade dela é clara. Eu tenho o controle. E você, meu caro Eduardo, terá que me pedir permissão para qualquer coisa que queira fazer com a sua parte da herança."
Ela se virou para Adriana, um sorriso frio no rosto. "E quanto a você, querida… espero que seu casamento seja repleto de amor e felicidade. Porque, em termos financeiros, você pode ter uma surpresa desagradável."
Com isso, Isabella Albuquerque se virou e saiu do café, deixando para trás um Eduardo Sampaio pálido e atordoado, e uma Adriana de vestido vermelho com os olhos cheios de fúria e confusão. A chuva lá fora havia cessado, mas uma nova tempestade estava apenas começando. O mal-entendido de dois anos atrás havia se transformado em um poderoso instrumento de vingança e justiça, e Isabella estava pronta para empunhá-lo.
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Capítulo 3 — A Proposta Irrecusável e o Jogo de Xadrez
O silêncio que se seguiu à saída de Isabella era tão pesado quanto a chuva que havia acabado de cair. Eduardo Sampaio permaneceu imóvel, a pasta de couro com os documentos que haviam virado seu mundo de cabeça para baixo ainda em suas mãos. Adriana, a noiva que deveria ser, olhava para ele com os olhos faiscando de indignação e uma traição palpável.
"Eduardo!", ela exclamou, a voz uma mistura de incredulidade e raiva. "O que foi aquilo? Que carta é essa? Que herança é essa? Você… você está prestes a se casar comigo, e você tem um acordo secreto com essa mulher?"
Eduardo esfregou as têmporas, sentindo a enxaqueca ameaçar dominá-lo. A calma que ele projetava aos outros, a segurança de um homem que tinha tudo sob controle, havia desmoronado como um castelo de cartas. Ele olhou para Adriana, a mulher que ele havia escolhido para compartilhar seu futuro, e pela primeira vez, sentiu uma pontada de dúvida.
"Adriana, eu… eu não sabia de nada disso", ele disse, a voz rouca. "Tia Aurora me disse que era apenas uma formalidade. Uma questão de manter alguns negócios em dia."
"Formalidade?", Adriana riu, um som cortante. "Ela te disse que você precisaria da permissão dela para usar o seu próprio dinheiro? Ela te disse que você seria escravo das vontades dela? Isso não é formalidade, Eduardo. Isso é humilhação!"
Ele olhou para a carta de Dona Aurora, as palavras parecendo zombar dele. "Minha querida Isabella terá total controle sobre a sua participação na herança. Ela decidirá quando e como você poderá acessá-la. Sua felicidade futura dependerá da sua cooperação com ela." Cooperação com Isabella. A mulher que ele havia deixado, a mulher que ele havia magoado. A ironia era cruel.
"Eu preciso pensar", Eduardo murmurou, levantando-se da mesa. Ele não conseguia mais suportar o olhar acusador de Adriana.
"Pensar?", ela o seguiu, agarrando seu braço. "Nós temos um casamento marcado para daqui a duas semanas, Eduardo! E você agora me vem com essa história de que está preso a outra mulher? Você me envergonhou na frente dela! Na frente de todo o café!"
Eduardo se soltou gentilmente. "Adriana, eu te amo. Você sabe disso. Mas isso… isso é algo que eu preciso resolver. Eu não posso casar com você sabendo que estou em uma situação tão… precária. E com uma dívida moral e financeira para com a Isabella."
O rosto de Adriana empalideceu. "Dívida moral? Você está dizendo que se sente culpado por algo que aconteceu entre vocês? Por algo que eu nada tenho a ver?"
"Eu… eu a magoei muito, Adriana", Eduardo confessou, a dor genuína em sua voz. "E agora, parece que eu tenho que pagar por isso. De uma forma que eu jamais imaginei."
Ele precisava sair dali. Precisava respirar. Precisava de um plano. Isabella estava de volta, e com ela, uma arma poderosa. Ele podia sentir isso. Ele a conhecia. Isabella Albuquerque era uma mulher determinada, inteligente e, quando provocada, implacável. Ele a havia subestimado no passado, e agora, ele corria o risco de pagar um preço altíssimo por isso.
Ele saiu do café, deixando Adriana sozinha e furiosa. O ar fresco da rua, mesmo com o cheiro de chuva recente, era um alívio. Ele caminhou sem rumo pelas ruas de paralelepípedos, a mente fervilhando de pensamentos. Ele sabia que não poderia ignorar Isabella. Ela não era do tipo que desistia. E com aquela carta e aquele contrato, ela tinha todo o poder.
Ele precisava conversar com ela. Precisava entender as demandas dela. Precisava negociar. Mas não ali, naquele café, sob o olhar curioso dos outros. Ele pegou o celular e procurou o número de Isabella. Sabia que ela havia mudado de número, mas conseguira a informação com um contato em comum. Hesitou por um instante antes de discar.
A chamada foi atendida no segundo toque. A voz dela, calma e fria, soou do outro lado. "Sim?"
"Isabella, sou eu, Eduardo."
Houve uma pausa, apenas o som de uma respiração suave. "Eduardo. O que você quer?"
"Eu… eu preciso conversar com você. Em particular. Sem Adriana. Sem interrupções."
Outra pausa. "E por que eu faria isso? Você não me deu muita escolha há dois anos."
"Eu sei. E eu… eu me arrependo. Muito. Mas agora… eu preciso entender. Preciso saber o que você quer."
Isabella riu, um som sem humor. "O que eu quero? Eu quero justiça, Eduardo. Eu quero o que Dona Aurora estipulou. E eu quero que você aprenda uma lição sobre o valor das pessoas e das promessas."
"Eu entendo. E eu estou disposto a negociar. A te dar o que você quer. Mas eu preciso saber o que é. Por favor, Isabella. Me diga."
Um suspiro longo e pesado veio do outro lado. "Você sempre foi bom em negociações, Eduardo. Mas desta vez, você está em desvantagem. Você sabe disso, não sabe?"
"Sim. Eu sei."
"Bom. Então você sabe que a qualquer momento, eu posso decidir que a sua participação na herança vá para… sabe-se lá onde. E que você fique com nada. Ou com uma miséria."
"E o que você quer que eu faça?", ele perguntou, a voz resignada.
Isabella riu. Era um som frio e calculista. "Eu tenho um plano, Eduardo. Um plano que vai beneficiar a mim, e que pode, quem sabe, te livrar dessa enrascada. Mas você terá que confiar em mim. Pelo menos um pouco."
"O que é?", ele insistiu.
"Eu preciso de um sócio. Um sócio confiável, que entenda do mercado imobiliário. Alguém com experiência e com capital disponível. Alguém que… possa me ajudar a desenvolver um projeto que eu tenho em mente."
Eduardo franziu a testa. "Um projeto imobiliário? E você quer a minha ajuda?"
"Eu quero a sua participação na herança. Eu quero usá-la para investir nesse projeto. E você… você será o meu parceiro. O meu braço direito. Você me ajudará a gerenciar tudo. E em troca, você terá uma participação nos lucros. Uma participação que, garanto, será muito maior do que qualquer coisa que Dona Aurora poderia te dar como recompensa."
Ele estava perplexo. Isabella, a mulher que ele havia deixado para trás, agora estava propondo uma parceria de negócios? Era audacioso. Era arriscado. Mas era também… intrigante.
"E se eu recusar?", ele perguntou.
"Você ficará sem nada, Eduardo. E eu levarei meu projeto para outro lugar. E você terá que lidar com as consequências de ter me magoado. E de ter sido enganado pela sua própria tia."
A chantagem era clara. Mas havia algo mais. Uma promessa de colaboração, de um futuro, mesmo que construído sobre as ruínas do passado.
"Isabella, isso é loucura. Você sabe disso?"
"Eu sei que é uma oportunidade, Eduardo. Uma oportunidade para você se redimir. E para mim, é a chance de realizar um sonho. A chance de construir algo grandioso. Algo que vai me dar independência. Algo que vai me tornar forte."
Ele pensou em Adriana, em seu vestido vermelho e em sua fúria. Pensou no casamento iminente, na humilhação pública. Pensou em sua própria ambição, que agora parecia ter sido usada contra ele.
"E se eu aceitar?", ele perguntou, a voz baixa. "O que acontece com o meu casamento? Com a Adriana?"
Isabella riu novamente, um som mais suave agora, quase sedutor. "Ah, Eduardo. Essa é a parte mais interessante. A parte onde você terá que usar toda a sua inteligência. Você terá que me provar que ainda é o homem que eu pensei que você era. O homem que era capaz de grandes coisas. O homem que… me amava."
Um arrepio percorreu a espinha de Eduardo. Aquela era uma proposta irrecusável, mas que exigia um preço alto. Um jogo de xadrez complexo, onde cada movimento teria consequências profundas.
"Eu preciso de tempo para pensar", ele disse.
"Você terá até o final do dia. Eu estarei esperando a sua resposta. Se você não me ligar, considerarei a sua recusa. E agirei de acordo." A voz dela era firme, inabalável.
E então, a ligação caiu. Eduardo ficou ali, parado no meio da rua movimentada, o sol da tarde iluminando seu rosto pensativo. Ele estava diante de um dilema. Continuar com a vida que ele havia planejado, arriscando perder tudo, ou aceitar a proposta de Isabella, mergulhando em um futuro incerto ao lado da mulher que ele havia amado e ferido.
Ele sabia que Isabella não estava brincando. Ela tinha o poder, e ela o usaria. A questão era: ele estaria disposto a jogar o jogo dela? Ele estaria disposto a confiar nela novamente, mesmo que fosse apenas para salvar a si mesmo? A herança era uma fortuna, e o projeto dela, por mais misterioso que fosse, parecia promissor. Mas o preço, ah, o preço seria alto.
Ele precisava fazer uma escolha. Uma escolha que definiria não apenas seu futuro financeiro, mas também o futuro de seus relacionamentos. A proposta de Isabella era um convite para um jogo perigoso, um jogo de xadrez onde a rainha, Isabella, era a peça mais poderosa. E Eduardo, o rei, estava em xeque.
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Capítulo 4 — O Ultimato da Noiva e a Sede de Vingança
O táxi parou bruscamente, jogando Isabella para frente. A chuva havia retornado, mais fraca agora, mas persistente, como um lembrete incômodo do que havia acontecido no café. Ela pagou o motorista e saiu, o vento gelado chicoteando seu cabelo enquanto ela se dirigia ao luxuoso edifício de escritórios onde ficava a sede da Albuquerque Imóveis.
Ela precisava de um plano de ação. A proposta a Eduardo foi um risco calculado. Ela sabia que ele era ambicioso e que a perspectiva de uma grande fortuna, mesmo que sob o seu controle, seria tentadora. Mas ela também sabia que ele tinha uma noiva, e que essa noiva não seria fácil de lidar. A imagem do vestido vermelho e do olhar de desprezo de Adriana ecoava em sua mente.
Ela entrou no prédio, o mármore frio sob seus pés e o aroma de limpeza e dinheiro pairando no ar. Seu escritório, no último andar, era um santuário de vidro e aço, com uma vista panorâmica da cidade que a fazia sentir o poder em suas mãos.
"Senhorita Albuquerque", a secretária, dona Clara, uma mulher grisalha e eficiente, a cumprimentou com um sorriso profissional. "Temos um telefonema urgente para você. Do senhor Sampaio."
Isabella sentiu um leve sobressalto. Tão rápido? Ela sorriu para dona Clara. "Pode colocar na linha, por favor. E peça para me trazerem um café forte."
Ela se sentou em sua poltrona de couro, observando a cidade pela janela enquanto o telefone tocava. A voz de Eduardo, desta vez, soava mais tensa, mais desesperada.
"Isabella? Você está aí?"
"Estou, Eduardo. Já tomou sua decisão?"
"Sim. Eu… eu aceito. Eu aceito a sua proposta. Mas há uma condição."
Isabella ergueu uma sobrancelha. "Condição? Você se lembra, Eduardo, que quem impõe condições sou eu agora."
"Eu sei. Mas… Adriana. Ela está insuportável. Ela sabe que algo está errado. Ela está me pressionando. Se eu não lhe der uma explicação convincente, ela pode… ela pode explodir. E eu não quero que ela saiba a verdade sobre a herança. Não ainda. Não até que eu tenha mais controle da situação."
"E o que você quer que eu faça?", Isabella perguntou, curiosa.
"Eu preciso que você minta para ela. Ou, melhor, que você me dê uma razão plausível para o meu comportamento. Algo que a tranquilize. Que a faça acreditar que eu não estou envolvido com você de forma alguma."
Isabella riu. Era uma risada baixa, mas cheia de malícia. "Você quer que eu te ajude a enganar a sua noiva? Você realmente não mudou nada, não é, Eduardo?"
"Isabella, por favor. Eu preciso de ajuda. Eu prometo que assim que as coisas estiverem mais calmas, eu te contarei tudo. E nós podemos… podemos resolver isso de outra forma."
"Outra forma?", Isabella repetiu, a voz carregada de sarcasmo. "Você quer dizer, como você resolveu as coisas há dois anos? Desaparecendo?"
"Não! Não é isso. Eu só preciso de um tempo. E você… você pode ser a minha aliada nessa situação."
A ideia de ajudar Eduardo a enganar Adriana era tentadora. Era uma forma de se vingar, de ver Adriana sofrer as consequências da ambição dele. Mas Isabella sabia que precisava ser cautelosa. Ela não queria se envolver em um jogo de mentiras que pudesse se voltar contra ela.
"O que exatamente você quer que eu diga?", Isabella perguntou.
"Diga que você veio me procurar para propor uma parceria em um novo projeto imobiliário. Diga que eu fui surpreendido pela sua proposta, e que estou considerando. Diga que nós temos um encontro para discutir os detalhes em breve. E diga que a nossa relação é estritamente profissional. Nada mais."
Isabella ponderou por um momento. Era uma mentira pequena, mas significante. Uma mentira que poderia dar a ela a vantagem que ela precisava.
"Tudo bem, Eduardo", ela disse. "Eu farei isso. Mas em troca, você terá que me dar acesso total aos seus contatos e à sua rede de informações. Eu preciso saber tudo o que você sabe sobre os negócios da família Sampaio e sobre os investimentos que Dona Aurora fez. E você terá que me apresentar a todos os advogados e contadores envolvidos na herança."
"Combinado", Eduardo disse, a voz cheia de alívio. "E você tem um encontro para discutir os detalhes?"
"Sim. Amanhã. No meu escritório. Às dez da manhã. E, Eduardo", Isabella acrescentou, a voz fria e firme, "se você ousar me trair, eu garanto que você nunca mais verá um centavo dessa herança. E eu farei questão de que todos saibam o tipo de homem que você é."
A ligação foi encerrada. Isabella serviu-se do café forte, o amargor da bebida combinando com o sentimento de vingança que a consumia. Ela sabia que estava entrando em um jogo perigoso, mas estava disposta a jogar. Ela havia sido ferida por Eduardo, e agora era a sua vez de fazer com que ele sentisse a dor.
Horas depois, o celular de Isabella tocou. Era um número desconhecido. Ela atendeu.
"Senhorita Albuquerque?", uma voz feminina, fina e irritada, perguntou.
"Sim. Quem fala?"
"Sou Adriana Sampaio. O noivo dela, Eduardo, me deu o seu número. Ele disse que você tem uma proposta de negócios para ele."
Isabella sentiu um arrepio. Era agora. "Sim, senhora Sampaio. Eu vim propor uma parceria em um novo projeto imobiliário."
"E você acha que este é o momento certo? Meu noivo está prestes a se casar. E você aparece com propostas mirabolantes?"
"Eu entendo a sua preocupação, senhora Sampaio. Mas os negócios não esperam. E esta é uma oportunidade única."
"Oportunidade?", Adriana riu, um som estridente. "Eduardo me disse que você é… uma antiga conhecida. Alguém do passado dele."
"Nós tivemos nossos momentos, sim. Mas agora, sou uma parceira de negócios. Nada mais."
"Eu não acredito em você", Adriana disse, a voz carregada de raiva. "Eu sei que você está tentando se aproximar dele. Tentando arruinar o meu casamento. Mas eu não vou permitir. Eduardo é meu. E tudo o que ele tem, é meu."
"Senhora Sampaio, eu não estou interessada em Eduardo. Estou interessada nos negócios. E se você acha que pode me impedir, está muito enganada."
"Ah, é? Então você vai ver. Eu vou lutar por quem eu amo. E eu não vou deixar que uma qualquer do passado estrague o meu futuro."
A ligação foi interrompida. Isabella olhou para o telefone, um sorriso frio se formando em seus lábios. Adriana era exatamente como ela imaginava: possessiva, ciumenta e disposta a tudo. Isso tornava o jogo ainda mais interessante.
"Que venham os jogos", Isabella sussurrou para si mesma, observando a cidade pela janela. Ela estava pronta para lutar. E ela sabia que, neste jogo, ela tinha a vantagem. A sede de vingança era um motor poderoso, e Isabella Albuquerque estava disposta a usá-lo para alcançar seus objetivos. O mal-entendido de dois anos atrás havia se transformado em uma guerra, e ela estava pronta para vencer.
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Capítulo 5 — O Jogo das Aparências e a Armadilha do Passado
O ar no escritório de Isabella Albuquerque era rarefeito de tensão. A vista da cidade, antes um símbolo de poder e conquista, agora parecia embaçada por uma névoa de incerteza. A conversa com Adriana Sampaio havia deixado um rastro de inquietação em seu peito. A noiva de Eduardo era uma força a ser reconhecida, uma leoa protegendo seu território com unhas e dentes.
"Ainda bem que ela é assim", Isabella murmurou para si mesma, enquanto servia um novo café. A audácia de Adriana, sua possessividade explícita, era, de certa forma, um presente. Tornava o jogo mais fácil. Tornava a sua tarefa de manipular a situação mais clara.
A porta de seu escritório se abriu com um leve silvo, revelando Eduardo Sampaio. Ele parecia mais tenso do que nunca, os ombros curvados sob um peso invisível. O terno impecável não conseguia disfarçar a ansiedade em seus olhos.
"Você está atrasado", Isabella o cumprimentou, a voz controlada, mas com um tom de autoridade inegável.
Eduardo deu um passo hesitante para dentro. "Desculpe. Adriana… ela me segurou. Queria saber todos os detalhes sobre a sua visita ao café."
Isabella sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "E o que você disse a ela?"
"A verdade. Que você veio com uma proposta de negócios. Que eu estou considerando. Que nós temos um encontro para discutir os detalhes. E que a nossa relação é estritamente profissional." Ele a encarou, a urgência em seu olhar. "Você fez isso. Você disse isso a ela, não é?"
"Claro que sim, Eduardo", Isabella respondeu, calmamente, enquanto se servia de mais café. "Eu cumpri a minha parte do acordo. Agora é a sua vez."
Eduardo se aproximou da mesa, o olhar fixo em Isabella. A familiaridade dos seus olhos azuis, que um dia a aqueceram, agora a deixavam fria. Ela sabia que ele era capaz de manipulação, mas agora, ele estava nas suas mãos.
"O que você quer que eu faça?", ele perguntou, a voz baixa.
Isabella se sentou em sua poltrona, a pasta de couro com os documentos sobre a mesa. "Quero que você me conte tudo o que sabe sobre os negócios da família Sampaio. Todos os investimentos, todas as dívidas, todas as propriedades. E sobre os acordos que Dona Aurora fez com a minha família. Quero nomes de advogados, contadores, qualquer pessoa envolvida na gestão da herança."
Eduardo hesitou. "Isabella, isso é… é muita informação. E é confidencial."
"Confidencial?", Isabella riu, um som seco. "Você se lembra de confidencialidade, Eduardo? Você se lembra de promessas? Você se lembra do que você fez comigo?"
Ele abaixou a cabeça. "Sim. Eu lembro."
"Então não me venha com confidencialidade. Você me deve isso. E muito mais." Isabella inclinou-se para frente, o olhar fixo nele. "Eu quero saber tudo. E quero que você seja honesto comigo. Pela primeira vez em muito tempo."
Eduardo ficou em silêncio por um momento, como se estivesse pesando suas opções. Finalmente, ele suspirou. "Tudo bem. Eu vou te contar. Mas você tem que prometer uma coisa. Você não vai usar essa informação para me arruinar completamente. Você vai me dar uma chance."
"Uma chance de quê, Eduardo?", Isabella perguntou, a voz carregada de desconfiança.
"Uma chance de consertar as coisas. De provar que eu posso ser o homem que você achou que eu era. E de te ajudar a construir o seu projeto. Eu sou bom em negócios, Isabella. Você sabe disso. Juntos, podemos fazer algo grandioso."
Isabella o observou. Havia uma sinceridade em seus olhos que a fez hesitar. Mas ela sabia que ele era um mestre em dissimulação.
"Eu não estou aqui para consertar o passado, Eduardo", ela disse, a voz firme. "Estou aqui para garantir o meu futuro. E o futuro da minha família. E se você quiser fazer parte disso, terá que seguir as minhas regras."
"Eu entendo", ele disse, finalmente relaxando um pouco. "Comecemos então. A família Sampaio tem uma rede complexa de empresas. A maioria delas, focadas em investimentos imobiliários e tecnologia. Dona Aurora era uma visionária, mas também… uma jogadora. Ela adorava arriscar."
Enquanto Eduardo falava, Isabella preenchia um caderno com anotações febris. Ele detalhava nomes de empresas, propriedades, contratos de risco. A ambição de Dona Aurora parecia ter sido o motor principal de suas decisões, e agora, essa mesma ambição estava ligada a Isabella.
"E quanto a herança?", Isabella perguntou, quando Eduardo fez uma pausa. "O que exatamente Dona Aurora deixou para você?"
"Uma parte considerável", ele respondeu, a voz tensa. "Mas a maior parte está atrelada a condições. Condições que, aparentemente, você agora controla."
"Exatamente. Então, você terá que me provar que vale a pena. Que você é mais do que apenas um homem ambicioso e irresponsável."
De repente, o celular de Eduardo tocou. Ele olhou para a tela, a expressão de preocupação voltando. "É Adriana."
Isabella o encarou. "Atenda. E lembre-se do nosso acordo."
Eduardo atendeu, forçando um sorriso na voz. "Oi, meu amor. Tudo bem?"
A voz de Adriana, abafada pelo viva-voz, era cortante. "Eduardo! Onde você está? Você disse que estaria aqui há uma hora! E que tinha algo importante para me contar!"
"Eu sei, meu amor. Desculpe. Tive um imprevisto. Estou com a Isabella Albuquerque discutindo uma proposta de negócios. Ela veio me apresentar um projeto."
Um silêncio carregado pairou no ar. Isabella podia imaginar o rosto de Adriana se contorcendo de raiva.
"Isabella Albuquerque?", Adriana repetiu, a voz cheia de escárnio. "Aquela ex do passado? Você está brincando comigo, Eduardo?"
"Não, meu amor. Não estou brincando. A Isabella veio com uma proposta séria. E eu estou considerando. É um projeto promissor."
"Promissor? Que projeto? Você não me disse nada sobre isso!"
"Eu acabei de conhecer os detalhes. É um projeto imobiliário. E pode ser uma grande oportunidade para nós."
"Para nós?", Adriana riu, um som de pura incredulidade. "Eduardo, você está prestes a se casar comigo! Você acha que eu vou aceitar que você se envolva em negócios com a sua ex?"
"Adriana, por favor. É apenas um negócio. Isabella é uma profissional competente. E a proposta é… tentadora."
"Tentadora? Ou você está cedendo às chantagens dela? Eduardo, eu não vou permitir que essa mulher entre nas nossas vidas!"
Eduardo fechou os olhos, a frustração visível em seu rosto. "Adriana, eu não posso ceder a essa sua insegurança. Eu preciso tomar decisões de negócios. E este projeto parece ser uma boa oportunidade."
"Oportunidade?", Adriana gritou. "A única oportunidade que você deveria ter é de se casar comigo! Se você não largar essa mulher agora, Eduardo Sampaio, o nosso casamento não acontece!"
A ameaça pairou no ar, pesada e inegociável. Isabella observava Eduardo, a expressão impassível. Ele estava prestes a fazer a sua escolha. A escolha entre o amor que ele dizia sentir por Adriana, e a ganância que o movia, e que agora o colocava nas mãos de Isabella.
Eduardo respirou fundo, o corpo tenso. Ele olhou para Isabella, um olhar de súplica misturado com resignação.
"Isabella", ele disse, a voz baixa, mas firme. "Eu não posso. Eu não posso arriscar perder tudo por causa de um projeto. Eu preciso… eu preciso me casar com a Adriana."
Um sorriso frio se espalhou pelos lábios de Isabella. Ela sabia que ele faria isso. Ele era previsível em sua fraqueza.
"Então você está recusando a minha proposta?", ela perguntou, a voz carregada de um tom perigoso.
"Sim", Eduardo disse, a voz embargada. "Eu estou recusando."
Isabella pegou uma caneta e virou uma página no seu caderno. "Tudo bem, Eduardo. Então vamos jogar um jogo diferente."
Ela olhou para ele, os olhos brilhando com uma determinação implacável. A armadilha do passado havia sido armada. E Eduardo Sampaio, com sua ambição e sua fraqueza, havia caído nela. A vingança de Isabella Albuquerque estava apenas começando. E seria implacável.
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