O Mal-Entendido III

Capítulo 17 — O Encontro Inesperado na Estrada da Saudade

por Letícia Moreira

Capítulo 17 — O Encontro Inesperado na Estrada da Saudade

O ronco do motor da velha caminhonete de seu pai era o único som que quebrava o silêncio da estrada. Clara dirigia com um misto de determinação e melancolia, os olhos fixos no horizonte que se estendia diante dela, um borrão de verdes e azuis sob um céu imenso. A cidade, com suas lembranças dolorosas, parecia cada vez mais distante, mas a imagem de Rafael, a sua traição percebida, era uma sombra persistente que a seguia. Ela havia decidido ir para a casa de sua tia, em uma pequena cidade litorânea, longe de tudo e de todos, buscando um refúgio para curar seu coração partido.

A paisagem rural, com suas fazendas salpicadas e o gado pastando preguiçosamente, trazia um certo conforto, uma sensação de paz que a cidade grande não oferecia. Ela ligou o rádio, mas as músicas alegres pareciam zombar de sua tristeza. Desligou, preferindo o som familiar do motor e o bater do vento contra a lataria.

Cada quilômetro percorrido era um passo para longe de Rafael, um passo em direção a um futuro incerto, mas que ela precisava construir sozinha. A dor era real, aguda, mas por baixo dela, uma força desconhecida começava a se manifestar, uma resiliência que ela não sabia possuir. Ela se pegava pensando em momentos felizes, em sorrisos, em abraços. E então, a imagem da festa voltava, cruel e inabalável, estilhaçando a frágil paz que tentava construir.

"Por que ele faria isso?", murmurou para si mesma, a voz embargada pela emoção. "Por que ele me machucaria assim?"

Enquanto Clara viajava em sua jornada de cura, em uma direção oposta, Rafael estava em pleno voo. O avião rasgava os céus, levando-o de volta à cidade que ele considerava seu lar, mas que agora parecia um labirinto de angústia. Ele havia passado horas no aeroporto, tentando desesperadamente encontrar um voo para a cidade de Clara. E quando finalmente conseguiu, sentiu um alívio misturado à ansiedade. Ele sabia que seria difícil, que Clara estava magoada, mas ele não desistiria. Ele a amava demais para isso.

Ele olhava pela janela do avião, as nuvens brancas formando desenhos efêmeros no azul infinito. Cada nuvem parecia um fantasma das mentiras que ele imaginava Clara pensando sobre ele. Ele revivia a cena da festa, a dor no rosto dela, a forma como ela se afastou. Ele repetia em sua mente as palavras que queria dizer, as explicações que pareciam tão claras para ele, mas que talvez soassem como desculpas vazias para ela.

"Eu preciso que você me ouça, Clara", sussurrou, a voz rouca. "Eu preciso que você me deixe explicar."

Ao pousar, o sol já começava a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e rosa, cores que contrastavam com a escuridão em seu coração. Ele pegou um táxi direto para a casa de Clara, a esperança o impulsionando a cada quilômetro. Mas ao chegar, o porteiro informou que Clara não estava mais ali, que havia saído naquela manhã. Um desespero gelado o percorreu.

"Você sabe para onde ela foi?", perguntou Rafael, a voz carregada de urgência.

O porteiro, um homem simpático e conhecedor de todos os moradores, coçou a cabeça. "Ela disse que iria para a casa da tia, lá para o interior. Uma cidadezinha chamada Vila Serena, eu acho."

Vila Serena. O nome ecoou na mente de Rafael. Era um lugar pequeno, tranquilo, longe do burburinho da cidade. Ele sabia que seria difícil encontrá-la em um lugar assim, mas era o único rastro que ele tinha. Ele agradeceu ao porteiro e correu de volta para o aeroporto, comprando o primeiro voo disponível para o aeroporto mais próximo de Vila Serena.

Enquanto isso, Clara finalmente avistou as placas que indicavam a proximidade de Vila Serena. O ar cheirava a maresia e a terra molhada, uma combinação que trazia uma sensação de paz que ela não sentia há muito tempo. Ela estacionou a caminhonete em frente a uma charmosa casa com um jardim florido, onde sua tia, Dona Elvira, uma senhora de cabelos brancos e sorriso acolhedor, a esperava.

"Clara, minha querida!", exclamou Dona Elvira, abraçando a sobrinha com força. "Que bom que você veio! Pensei que estivesse nos dando um bolo."

Clara retribuiu o abraço, sentindo um pouco do peso em seus ombros se dissipar. "Eu precisava de um tempo, tia. Um tempo longe de tudo."

Dona Elvira a conduziu para dentro da casa, o cheiro de bolo de fubá assando no ar. "Você sabe que pode falar comigo sobre o que quiser, não sabe? Eu vi o seu rosto quando você chegou. Algo te aflige."

Clara sentou-se no sofá macio, enquanto sua tia lhe servia um copo de suco de laranja fresco. Ela respirou fundo, reunindo coragem. "Eu... eu tive um desentendimento com o Rafael."

Dona Elvira sentou-se ao lado dela, o olhar atento. "Ah, o Rafael. Um bom rapaz, aquele. O que aconteceu?"

E Clara contou tudo, a festa, a cena que a fez fugir, a dor da traição. Dona Elvira a ouviu pacientemente, sem interromper, apenas acariciando seu braço em sinal de apoio.

Quando Clara terminou, Dona Elvira suspirou. "Entendo sua dor, minha querida. É difícil quando nossos corações são machucados. Mas você tem certeza, Clara? Você tem certeza do que viu? Às vezes, em momentos de confusão, nossos olhos nos enganam."

Clara balançou a cabeça. "Eu não sei, tia. Eu só sei que me senti devastada."

Enquanto as duas conversavam, um carro se aproximava lentamente da casa. Era um carro elegante, que destoava do cenário pacato de Vila Serena. Clara olhou pela janela e sentiu seu coração gelar. O carro parou em frente à casa, e Rafael saiu dele.

"O quê... o que ele está fazendo aqui?", gaguejou Clara, o pânico tomando conta de si.

Dona Elvira observou a cena, um leve sorriso de compreensão surgindo em seus lábios. "Parece que o destino tem seus próprios planos, minha querida."

Rafael se aproximou da porta, a expressão tensa, mas determinada. Ele bateu na porta, e Dona Elvira, com um olhar para Clara, foi abrir.

"Boa tarde", disse Rafael, a voz ligeiramente trêmula. "Eu... eu estou procurando por Clara. É um assunto urgente."

Dona Elvira o olhou com gentileza. "Clara está aqui sim. Mas ela não está em condições de receber visitas no momento."

Clara, que havia se levantado e se aproximado da porta, agora observava Rafael através da pequena abertura. Seus olhos se encontraram, e por um instante, o tempo pareceu parar. Havia dor, mágoa, mas também havia algo mais, algo que ela não conseguia identificar.

Rafael, ao ver Clara, deu um passo à frente. "Clara, por favor, me deixe falar com você. Eu preciso explicar."

O coração de Clara disparou. Ela queria fugir, queria gritar que não queria mais nada com ele. Mas algo em seu olhar, uma súplica silenciosa, a fez hesitar.

"Eu não sei se tenho algo para ouvir", disse Clara, a voz embargada.

"Por favor", insistiu Rafael, seus olhos azuis fixos nos dela. "Apenas alguns minutos. Por tudo que temos, por tudo que fomos."

Clara olhou para sua tia, que lhe deu um leve aceno de cabeça. Então, ela respirou fundo e abriu a porta um pouco mais.

"Entre", disse Clara, a voz ainda trêmula. "Mas que seja rápido."

Rafael entrou na casa, e o ar ficou mais denso, carregado de expectativas e de um passado que se recusava a ser esquecido. O encontro inesperado na estrada da saudade havia acontecido, e agora, as palavras teriam que fazer o que as distâncias não puderam.

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