O Mal-Entendido III

O Mal-Entendido III

por Letícia Moreira

O Mal-Entendido III

Autor: Letícia Moreira

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Capítulo 6 — A Noite dos Sussurros e Desejos

O ar da noite carioca, denso e perfumado com jasmim e maresia, parecia conspirar a favor de um clima de mistério e sedução. Na cobertura de Leonardo, a festa seguia animada, mas para Isabella, cada nota de samba parecia um eco distante. Seus olhos, de um castanho profundo que guardava segredos até para ela mesma, não conseguiam se desviar de Rafael. Ele, por sua vez, parecia estar em um campo de força próprio, atraindo olhares e sorrisos, mas sua atenção parecia flutuar, buscando algo que ele próprio não sabia nomear.

Isabella sentiu um nó na garganta. A lembrança da conversa fragmentada no restaurante, as palavras de Rafael sobre um "erro do passado" e a referência a um nome que ela não captou, tudo isso a assombrava. Era como tentar montar um quebra-cabeça com peças faltando e outras embaralhadas, e a imagem final, que ela intuía ser fundamental, escapava por entre os dedos.

Ela se afastou da multidão, buscando um refúgio na varanda, onde a brisa refrescante beijava sua pele e trazia consigo o som hipnótico das ondas. Acendeu um cigarro, a fumaça subindo em espirais preguiçosas na direção das estrelas. A cidade, um mar de luzes cintilantes lá embaixo, parecia um espelho da sua própria alma: cheia de brilho, mas também de sombras e incertezas.

Rafael a encontrou ali. O silêncio entre eles era palpável, carregado de não ditos, de perguntas pairando no ar como a fumaça do cigarro de Isabella. Ele se aproximou devagar, o olhar fixo nela, uma mistura de admiração e uma melancolia que ela não conseguia decifrar.

"Pensando na vida, Isabella?", a voz dele, um murmúrio rouco, quebrou o silêncio.

Ela deu um sorriso fraco, sem virar o rosto. "Algo assim. Ou talvez tentando entender o que é a vida, que às vezes parece tão… complicada."

Ele se encostou no parapeito, a poucos metros de distância. "Complicada por quê? Pela noite, pela festa, por quem está aqui?"

Isabella finalmente o olhou. O brilho da lua acariciava seu rosto, realçando a curva suave de seus lábios e o brilho em seus olhos. Ele sentiu um aperto no peito, uma familiaridade perturbadora, como se a conhecesse de outra vida. "Complicada por causa de mal-entendidos, talvez. De palavras que não são ditas, ou que são ditas de forma errada."

Rafael suspirou, um som quase inaudível. "Mal-entendidos… são perigosos, não são? Podem criar mundos onde não existem, ou destruir o que é real." Ele hesitou, a decisão pesando em seus ombros. As palavras que ele estava prestes a proferir poderiam mudar tudo, mas o medo de um novo mal-entendido, talvez ainda pior que o anterior, o paralisava.

"Rafael," ela o chamou, a voz suave, mas firme. "Você mencionou… um erro do passado. E um nome. Você pode me dizer o que quer dizer?"

Ele fechou os olhos por um instante, a imagem de um rosto pálido e assustado, uma voz embargada pelas lágrimas, invadindo sua mente. A culpa o corroía. Ele se virou para Isabella, a determinação começando a eclipsar o medo. "Isabella, existe algo que preciso te contar. Algo que aconteceu há muito tempo, e que me assombra desde então."

A música da festa parecia ter diminuído, o mundo se reduzindo àquele pequeno espaço na varanda, sob o céu estrelado. Isabella esperou, o coração batendo acelerado contra as costelas. Ela sentia que estava prestes a descobrir a chave que abriria todas as portas, a peça que uniria todos os fragmentos espalhados em sua mente.

"Há muitos anos," Rafael começou, a voz baixa e tensa, "eu… eu me envolvi em uma situação complicada. Uma garota, Clara. Ela estava passando por um momento muito difícil, e eu, em minha imaturidade, cometi erros terríveis. Palavras duras, ações impensadas… Eu a magoei profundamente." Ele fez uma pausa, engolindo em seco. "E o pior é que, depois disso, ela desapareceu. Ninguém soube dela por anos. Eu vivi com essa culpa, com a incerteza do que havia acontecido com ela."

Isabella sentiu um arrepio. Clara. O nome que ela não captou. "Clara?", ela repetiu, a voz quase um sussurro.

Rafael assentiu, o olhar desviando para o horizonte. "Sim, Clara. E o mal-entendido… veio depois. Quando eu a reencontrei, anos mais tarde, a vida dela era completamente diferente. E eu… eu não soube como lidar com isso. Tentei me aproximar, mas fui rejeitado. Ela estava diferente, e eu também. E eu pensei… pensei que ela ainda guardava mágoa por algo que eu havia feito, mas a verdade é que… o que me levou a pensar que ela poderia ser você, Isabella, foi um detalhe, um pequeno detalhe que me fez acreditar que você era a mesma Clara que eu conheci."

Isabella sentiu o chão sumir sob seus pés. A lembrança do seu nome de batismo, Clarissa, veio como um raio. Ela era Clara. A garota que Rafael conheceu. A garota que ele magoou. A garota que desapareceu.

"Rafael," ela disse, a voz embargada pelas emoções. "Eu… eu sou a Clara."

Ele a olhou, surpreso. "O quê? Não… isso é impossível. Você é Isabella."

"Eu mudei meu nome," ela explicou, as lágrimas começando a rolar pelo seu rosto. "Há muito tempo. Depois da… daquela situação. Eu quis esquecer, começar de novo. E quando você me procurou… com aquele olhar, com aquela confusão nos olhos… eu pensei que você não me reconhecia mais, que queria apenas me usar. Eu estava com medo. Com medo de reviver o passado, de ser magoada de novo."

Rafael ficou em silêncio por um longo momento, o choque evidente em seu rosto. A peça que faltava no quebra-cabeça se encaixou com uma dor lancinante. Ele a observou, a mulher à sua frente, tão diferente e ao mesmo tempo tão familiar. O mistério se desfez, mas a complexidade da situação só aumentou.

"Então… o mal-entendido," ele começou, a voz rouca, "foi o meu, o seu, ou de nós dois?"

Isabella deu um sorriso triste. "Acho que de nós dois. Você não me reconheceu, e eu pensei que você estava me enganando." Ela olhou para ele, a vulnerabilidade estampada em seu rosto. "Eu te amo, Rafael. Eu te amo tanto que o medo de te perder me cegou."

Ele deu um passo à frente, o desejo de tocá-la, de abraçá-la, de apagar as mágoas do passado, era avassalador. "Isabella… Clara… eu também te amo. Amo desde o momento em que te vi. A confusão foi apenas uma barreira que criamos. Uma barreira que agora… podemos derrubar."

Ele estendeu a mão para ela. Isabella, sem hesitar, colocou a sua na dele. A eletricidade que percorreu seus corpos foi como um raio, confirmando que aquele era o momento, o momento de se redescobrirem, de se amarem, de curarem as feridas do passado e construírem um futuro juntos. Naquela noite, sob as estrelas do Rio de Janeiro, o mal-entendido que os separava desfez-se, dando lugar a um amor avassalador e a promessa de um novo começo.

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