Cap. 16 / 17

A Troca

A Troca

por Priscila Dias

A Troca

Romance de Priscila Dias

Capítulo 16 — A Farsa Desmoronando e um Risco Calculado

O sol da manhã pintava o quarto de Helena com tons dourados, mas a beleza da paisagem parecia zombar da melancolia que a envolvia. A noite anterior havia sido um turbilhão de emoções conflitantes. A conversa com Rafael, a revelação de Clara, a frieza de Lucas… tudo se misturava em um emaranhado doloroso em sua mente. Ela suspirou, o peso daquela situação ainda esmagador. A mentira que ela tecera, ainda que com a melhor das intenções, agora parecia uma teia em que ela mesma estava presa.

Olhou para o reflexo no espelho. Seus olhos, antes vibrantes de esperança, agora carregavam uma sombra de cansaço e incerteza. Precisava agir, mas o medo de causar mais danos a paralizava. A ideia de estar perto de Lucas, de sentir o cheiro dele, de ouvir sua risada… tudo isso era um doce tormento que a mantinha cativa. Mas a consciência da farsa que representavam, da ilusão em que viviam, era um grito constante em seu interior.

Levantou-se com um movimento decidido. A indecisão era um luxo que ela não podia mais se permitir. Vestiu-se com uma elegância discreta, escolhendo roupas que a fizessem sentir-se forte, mesmo que por dentro se sentisse desmoronando. Desceu para a cozinha, onde a empregada, Dona Lurdes, já preparava o café da manhã.

“Bom dia, Dona Lurdes”, disse Helena, com um sorriso forçado.

“Bom dia, minha sinhá. Parece que o dia amanheceu pesado para a senhora”, respondeu Lurdes, com sua sabedoria de anos observando os patrões.

Helena apenas assentiu, pegando uma xícara de café. A conversa com Rafael na noite anterior ainda ecoava em seus ouvidos. Ele a havia procurado, preocupado com a frieza de Lucas. Tinha sido um alívio ter alguém com quem desabafar, mas a verdade era que ninguém poderia realmente entender a complexidade daquele nó em que ela se encontrava.

“Dona Lurdes, o senhor Lucas já tomou café?”, perguntou Helena, tentando soar o mais casual possível.

“Não, sinhá. Ele saiu cedo, disse que tinha um compromisso importante. Mas deixou um bilhete.” Lurdes entregou um pequeno pedaço de papel dobrado à Helena.

Com as mãos trêmulas, Helena desdobrou o bilhete. As palavras de Lucas eram curtas e diretas, como sempre.

“Helena, preciso resolver um assunto urgente. Não sei quando volto. Não me espere acordada. Lucas.”

Um arrepio percorreu seu corpo. A frieza naquelas palavras era um reflexo da distância que se instalara entre eles, uma distância que ela mesma havia ajudado a criar. Ela sabia que ele estava sofrendo, que a situação o afetava, mas a forma como ele se afastava, como se fechava em si mesmo, era devastador.

Enquanto tomava seu café, a mente de Helena fervilhava. Precisava de um plano. A mentira não poderia durar para sempre. A cada dia que passava, a possibilidade de ser descoberta aumentava, e as consequências seriam ainda mais dolorosas. A ideia de Clara, sua irmã, lhe deu um nó na garganta. Clara merecia a verdade, por mais difícil que fosse.

Ela decidiu que era hora de tomar uma atitude drástica. Não podia mais viver na sombra da incerteza. Precisava confrontar Lucas, mas não da forma que ele esperava. Precisava de uma estratégia que lhe desse vantagem, que a colocasse no controle da situação, mesmo que por um breve momento.

Após o café, Helena subiu para seu quarto e começou a se arrumar. Escolheu um vestido elegante, mas discreto, e fez uma maquiagem leve. Precisava parecer confiante, inabalável. Olhou para o espelho mais uma vez. “Hoje é o dia”, sussurrou para si mesma.

Pegou sua bolsa e dirigiu-se à porta. “Dona Lurdes, sairei por um tempo. Se o senhor Lucas retornar, diga que não voltarei imediatamente.”

“Sim, sinhá.” Lurdes observou a determinação no olhar de Helena, algo que ela não via há muito tempo.

O carro de Helena deslizou pelas ruas da cidade, a paisagem urbana passando como um borrão. Seu destino era a galeria de arte onde Lucas trabalhava. Sabia que era arriscado, que ele poderia não querer vê-la, mas era a única maneira que ela via de iniciar aquela conversa tão necessária.

Ao chegar, estacionou o carro e respirou fundo. A imponente fachada da galeria parecia um portal para um mundo de arte e, para ela, de dilemas. Entrou com passos firmes, tentando ignorar o coração que batia descompassado.

A recepção estava movimentada. Helena pediu para falar com Lucas, com uma voz que ela tentou manter firme.

“O senhor Lucas está em uma reunião no momento, senhora”, respondeu a recepcionista, educada, mas com uma ponta de curiosidade nos olhos.

“Eu sei. Mas é algo muito importante. Por favor, avise que é a Helena.”

A recepcionista hesitou por um momento, mas assentiu e se dirigiu a uma porta fechada. Helena esperou, sentindo-se cada vez mais apreensiva. Aquele era o momento. A farsa, que ela havia cuidadosamente construído, estava prestes a ser testada. A cada minuto que passava, a tensão aumentava, e ela se perguntava se tinha tomado a decisão certa. A incerteza era um veneno, mas a ação, por mais arriscada que fosse, parecia ser o único antídoto disponível.

A porta se abriu e um homem a cumprimentou. Era o chefe de Lucas, um homem de meia-idade com um ar sério.

“Senhora Helena? O senhor Lucas me disse que a senhora poderia aparecer. Por favor, entre.”

Helena seguiu-o por um corredor decorado com obras de arte impressionantes, sentindo o cheiro característico de tinta e verniz. A cada passo, a esperança de uma conversa franca se misturava com o medo da rejeição. Ela sabia que estava entrando em um território desconhecido, onde as regras do jogo poderiam mudar a qualquer momento.

Chegaram a uma sala de reuniões onde Lucas estava sentado à cabeceira de uma longa mesa, cercado por alguns executivos. Seus olhos encontraram os de Helena, e por um instante, o tempo pareceu parar. A surpresa em seu olhar logo deu lugar a uma expressão de cautela. A farsa, ela percebeu, não era apenas sua. Era de ambos.

“Helena?”, disse Lucas, a voz tensa. “O que faz aqui?”

“Precisamos conversar, Lucas”, respondeu Helena, sem se intimidar com a presença dos outros. A urgência de resolver aquela situação a impelia.

Um dos executivos pigarreou, indicando que a reunião estava sendo interrompida. Lucas se levantou.

“Senhores, peço desculpas. Preciso resolver um assunto pessoal. Podemos retomar esta discussão mais tarde?”

Os executivos assentiram, dispensados com um aceno de cabeça. Quando ficaram sozinhos na sala, um silêncio carregado pairou entre eles.

“Você não deveria estar aqui”, disse Lucas, a voz baixa, mas firme.

“E onde eu deveria estar, Lucas? Vivendo uma mentira? Fingindo que tudo está bem quando sabemos que não está?” Helena deu um passo à frente, o olhar fixo no dele. “Eu não aguento mais isso.”

Lucas desviou o olhar, passando a mão pelos cabelos. A fachada de controle que ele mantinha parecia rachar.

“Você não entende, Helena. É mais complicado do que parece.”

“Complicado? O que é complicado, Lucas? Dizer a verdade? Assumir nossas responsabilidades?” A voz de Helena começou a falhar, mas ela se forçou a continuar. “Eu sei que você está sofrendo. Eu também estou. Mas fugir não vai resolver nada.”

“E o que você quer que eu faça, Helena? Que eu conte tudo? Que eu destrua tudo que construímos, mesmo que seja baseado em uma mentira?” A frustração transbordou de Lucas, e ele se aproximou dela, a voz carregada de desespero. “Você acha que é fácil para mim?”

“Não, Lucas, não acho que seja fácil. Mas é necessário. Clara merece a verdade. E nós… nós merecemos a paz.” Helena sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos, mas se recusou a deixá-las cair. “Eu tomei uma decisão. Eu vou contar tudo para Clara.”

O corpo de Lucas ficou rígido. Ele a encarou, os olhos escuros faiscando com uma mistura de raiva e desespero.

“Você não pode fazer isso, Helena. Você vai arruinar tudo.”

“Eu já sinto que tudo está arruinado, Lucas. E você sabe disso. Essa farsa… ela está nos consumindo.” Helena se aproximou dele, tocando seu braço. “Eu não quero mais viver assim. Eu preciso de você. Eu preciso que enfrentemos isso juntos.”

O toque de Helena pareceu abalar Lucas. Ele a olhou nos olhos, e por um instante, Helena viu a vulnerabilidade por trás da máscara de controle.

“Juntos?”, sussurrou ele, a voz embargada.

“Sim, juntos. Mas a verdade precisa vir à tona. E eu estou disposta a dar o primeiro passo. Mas eu preciso que você esteja ao meu lado. Que você me ajude a lidar com as consequências.” Helena respirou fundo. Era um risco calculado. Um último e desesperado lance.

Lucas a encarou por um longo momento, a batalha visível em seu rosto. A incerteza em seus olhos era palpável. Helena sabia que a decisão final era dele. Ela havia aberto a porta, mas cabia a ele atravessá-la. Aquele confronto, embora doloroso, era um passo essencial. A farsa estava desmoronando, e agora, tudo dependia da coragem que eles teriam para enfrentar a verdade, por mais assustadora que fosse.

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