Amor à Força II
Amor à Força II
por Priscila Dias
Amor à Força II
Autor: Priscila Dias
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Capítulo 1 — O Encontro Inesperado no Aeroporto de Congonhas
O sol de um fim de tarde em São Paulo, preguiçoso e dourado, tingia o céu de Congonhas de um laranja vibrante, anunciando o fim de mais um dia frenético. No meio da multidão que se movia com a pressa típica da capital, estava Isabella Rossi, um furacão de cabelos castanhos rebeldes e olhos que, naquele momento, transbordavam uma mistura de exaustão e esperança. Ela arrastava uma mala de rodinhas que parecia pesar mais que sua alma, o peso dos últimos meses, talvez anos, esmagando seus ombros. A viagem de volta, após um seminário internacional que mais parecia uma tortura intelectual, era um alívio bem-vindo.
Isabella era uma advogada brilhante, conhecida por sua perspicácia e determinação implacável no tribunal. Fora dos corredores da justiça, porém, sua vida pessoal era um labirinto de desencontros e decepções. O amor, para ela, parecia ter um senso de humor cruel, sempre a espreitar nos lugares mais inconvenientes e a fugir nos momentos mais cruciais. Sua última relação, com o charmoso e superficial Ricardo, havia terminado de forma abrupta e dolorosa, deixando-a com um gosto amargo e a certeza de que era melhor se dedicar inteiramente à carreira.
Enquanto se dirigia para o portão de embarque, o celular apitou com uma notificação. Era de sua mãe, Dona Helena, uma senhora vibrante e um tanto quanto dramática, que nunca perdia uma oportunidade de lembrar Isabella sobre a "pressão" de encontrar um bom partido. "Minha querida, já está voltando? Que bom! Lembre-se que sua tia-avó Eulália está completando 90 anos no próximo mês e teremos uma festa em São Pedro da Aldeia. Você precisa ir! E quem sabe, conhecer o neto do seu tio Afonso, o Dr. Felipe. Dizem que é um excelente partido, um médico renomado!"
Isabella suspirou, um sorriso resignado brincando em seus lábios. Tia-avó Eulália, uma matriarca excêntrica e dona de uma fortuna considerável, era a personificação da tradição. E sua mãe, com suas artimanhas, sempre tentava encaixá-la em um casamento arranjado, um conceito que Isabella achava tão antiquado quanto os chapéus que sua tia-avó usava em ocasiões especiais. "Mãe, por favor. Não me venha com essas histórias de casamento arranjado de novo. Eu mal cheguei e já estou sendo pressionada a encontrar um noivo."
A resposta veio quase instantaneamente: "Ora, Isabella, não seja tão cínica! É apenas uma sugestão. E a família é importante, não é? Pense em como sua tia-avó ficaria feliz em ver todos reunidos. E ele é um médico! Seguro, inteligente, com boa posição..."
Antes que Isabella pudesse responder, um esbarrão brusco a tirou de seus pensamentos. Sua mala de rodinhas tombou, espalhando alguns de seus pertences pelo chão frio do aeroporto. Uma camisa elegante, um livro sobre direito internacional e, para seu desespero, um pequeno frasco de perfume caro que se estilhaçou, liberando um aroma floral inebriante no ar.
"Ai, meu Deus! Que desastre!", exclamou Isabella, ajoelhando-se para recolher suas coisas.
E então, ela o viu. Um homem alto, com ombros largos, vestindo um terno impecável que parecia ter sido feito sob medida. Seus cabelos escuros estavam levemente desalinhados, como se ele tivesse passado a mão por eles em sinal de frustração. Mas o que chamou a atenção de Isabella foram seus olhos. Eram de um azul profundo, penetrantes, que pareciam carregar uma intensidade incomum. Ele se abaixou rapidamente para ajudá-la, suas mãos fortes e elegantes recolhendo seus pertences.
"Mil desculpas, senhorita", disse ele, sua voz grave e melodiosa, com um leve sotaque que Isabella não conseguiu identificar imediatamente. "Foi totalmente minha culpa. Estava distraído com uma ligação importante." Ele pegou o frasco quebrado, o vidro afiado cortando levemente seu dedo. "Oh, droga!"
Isabella observou, um misto de incômodo e algo mais, algo que ela não conseguia nomear, borbulhar dentro dela. "Tudo bem. Acontece", ela disse, tentando soar indiferente, mas sentindo seu coração acelerar de um jeito estranho.
Ele olhou para ela, um leve sorriso sarcástico nos lábios. "É um perfume maravilhoso, devo dizer. Pena que o destino decidiu que ele deveria ter um fim tão... efêmero." Ele estendeu a mão para ela, um gesto de ajuda para que ela se levantasse.
Isabella hesitou por um segundo antes de aceitar. A pele dele era quente e firme, e a eletricidade que percorreu seu braço foi surpreendente. "Obrigada. E sim, era meu perfume favorito."
"Eu me chamo Felipe", ele disse, seus olhos azuis fixos nos dela, buscando algo, talvez uma resposta, talvez apenas uma conexão momentânea.
Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Felipe. O nome ecoou em sua mente. Seria possível? Aquele homem, com aquele charme displicente e aqueles olhos de um azul profundo, seria o tal Dr. Felipe que sua mãe tanto mencionara? A coincidência era quase surreal.
"Isabella", ela respondeu, a voz um pouco mais baixa do que pretendia. "Isabella Rossi."
Ele arqueou uma sobrancelha, um brilho de reconhecimento em seus olhos. "Rossi? Interessante. Eu… sou Felipe Bastos. Tio Afonso é meu avô."
Isabella ficou paralisada. Não podia ser. Era exatamente o que sua mãe planejava. O destino, mais uma vez, parecia estar brincando com ela, orquestrando encontros que ela tentava desesperadamente evitar. Ela engoliu em seco.
"Felipe Bastos?", ela repetiu, a incredulidade estampada em seu rosto.
Ele sorriu, um sorriso genuíno desta vez, que iluminou seu rosto de forma inesperada. "O mesmo. E pela sua reação, imagino que sua mãe já tenha falado sobre mim."
Isabella sentiu o rubor subir em suas bochechas. "Minha mãe… ela… tem uma imaginação fértil quando se trata de formar casais."
Felipe riu, um som agradável que fez com que mais de uma pessoa ali se voltasse para olhar. "Sua mãe é uma figura. A minha, Dona Lúcia, é igual. Elas duas juntas devem estar tramando algum golpe de estado sentimental neste momento."
"Provavelmente", Isabella concordou, sentindo uma estranha cumplicidade nascer entre eles. "Ela me falou sobre a festa da tia-avó Eulália e… mencionou você."
"E eu, por minha vez, fui alertado sobre a possibilidade de encontrar uma advogada brilhante e talvez um pouco relutante em um evento familiar", Felipe disse, seus olhos azuis examinando-a com uma curiosidade que beirava a sedução.
O coração de Isabella deu um salto. Ela estava em um avião prestes a decolar, com um homem que, aparentemente, era o "partido ideal" de sua mãe, e a conversa tomava um rumo inesperado. Não era mais uma simples coincidência; era um roteiro de novela. E, para seu espanto, uma parte dela estava intrigada.
"Relutante é pouco", Isabella murmurou, mas o sorriso que teimava em surgir em seus lábios a traía. "Eu prefiro acreditar no destino por conta própria, sem interferências maternas."
"Entendo perfeitamente", Felipe disse, sua voz assumindo um tom mais sério. "Eu também. Mas, sabe, às vezes o destino tem um senso de humor peculiar. E quem sabe, esse encontro no aeroporto, com perfume quebrado e tudo mais, não seja apenas o começo de algo interessante." Ele olhou para o relógio. "Meu voo é logo ali. Preciso ir."
Ele estendeu a mão novamente, desta vez com um cartão de visitas. "Se por acaso quiser conversar sobre… interferências maternas, ou qualquer outra coisa. Meus contatos."
Isabella pegou o cartão. Era elegante, com seu nome e especialidade médica impressos de forma discreta. "Obrigada, Dr. Bastos. E boa viagem."
"Felipe", ele corrigiu, com um sorriso que prometia e, ao mesmo tempo, negava. "E a senhora também, Dra. Rossi. Quem sabe não nos encontramos em São Pedro da Aldeia? Quem sabe… com menos perfume quebrado da próxima vez."
Ele acenou com a cabeça e se afastou, desaparecendo na multidão com a mesma rapidez com que apareceu. Isabella ficou ali, parada, segurando o cartão de Felipe em sua mão, o cheiro do perfume quebrado ainda pairando no ar. O sol de Congonhas já começava a se pôr completamente, mas algo novo e inesperado havia acabado de nascer em seu coração. A viagem de volta, que deveria ser apenas um fim de ciclo, parecia ter se tornado o início de um novo e intrigante capítulo.
Ela olhou para o cartão novamente, um sorriso genuíno, desta vez, brincando em seus lábios. Talvez sua mãe tivesse razão. Talvez o destino, com todo o seu humor peculiar, tivesse realmente orquestrado aquele encontro. E Isabella, a advogada implacável e cética, sentia-se pela primeira vez em muito tempo, aberta a descobrir onde essa trama a levaria.
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