Amor à Força II
Capítulo 17 — O Encontro Inesperado e o Segredo Revelado
por Priscila Dias
Capítulo 17 — O Encontro Inesperado e o Segredo Revelado
O dia seguinte amanheceu com um sol tímido, como se a própria natureza estivesse hesitante em mostrar sua face após a tempestade emocional da noite anterior. Helena acordou com um peso no peito, a sensação persistente de que havia dito e feito coisas que não poderiam ser desfeitas. O brilho nos olhos de Felipe, o tom de decepção em sua voz – tudo isso ecoava em sua mente, uma melodia dissonante que a impedia de encontrar paz.
Ela se arrastou para fora da cama, o corpo pesado de cansaço e de uma tristeza que parecia ter se instalado em seus ossos. A casa, antes um refúgio, agora parecia um palco vazio onde as peças do passado se repetiam em loop. No café da manhã, Felipe estava ausente. Uma nota deixada sobre a bancada da cozinha, com sua caligrafia elegante, informava que ele havia saído mais cedo para uma reunião importante.
"Reunião", Helena repetiu para si mesma, a palavra soando oca. Sabia que a reunião em questão era com Sofia. A publicitária que, em tão pouco tempo, havia se tornado o centro da atenção de Felipe. A mulher que, sem querer ou querendo, havia desenterrado as inseguranças mais profundas de Helena.
Decidida a não se deixar abater pela melancolia, Helena decidiu que precisava de ar puro, de uma distração. Pegou seu carro e dirigiu sem rumo, a paisagem urbana passando embaçada pela janela. Acabou estacionando próximo a um parque, o Parque Lage, com sua beleza bucólica e histórica, um convite à contemplação.
Caminhou sem pressa pelos jardins, observando as esculturas, os lagos, a exuberância da Mata Atlântica que abraçava o casarão. Era um lugar de paz, mas hoje, a paz parecia inatingível. Sentou-se em um banco afastado, sob a sombra de uma mangueira frondosa, e fechou os olhos, tentando silenciar os pensamentos que a atormentavam.
Foi então que ouviu uma voz familiar, rindo. Uma risada leve, descontraída, que ela conhecia muito bem. A voz de Sofia. O coração de Helena deu um salto doloroso. Ela abriu os olhos lentamente, com o receio pintado no rosto, e viu, a poucos metros dali, Sofia conversando animadamente com um homem. Um homem alto, de cabelos escuros e um sorriso cativante. Ela não o reconheceu imediatamente, mas a proximidade e a cumplicidade entre eles eram inegáveis.
Uma pontada aguda de ciúme a atravessou. Era Felipe? Não, não era Felipe. O homem era mais jovem, com um porte diferente. Mas a forma como Sofia o olhava, a maneira como ela se inclinava para ele... era a mesma intimidade que Helena temia ver entre ela e Felipe.
Helena sentiu um impulso de se aproximar, de confrontá-las, de exigir explicações. Mas a razão, por mais frágil que estivesse, a deteve. O que ela iria dizer? Que estava ali, espionando, movida pelo ciúme?
Decidiu que o melhor a fazer era ir embora, se afastar antes que a situação se tornasse ainda mais dolorosa. Levantou-se, pronta para retornar ao carro, quando o homem ao lado de Sofia a avistou. Ele sorriu e acenou.
"Helena! Que surpresa te encontrar aqui!", ele disse, aproximando-se dela, com Sofia logo atrás, uma expressão de leve confusão no rosto.
Helena paralisou. Era Rafael. O primo de Felipe, aquele que ela havia conhecido em um evento social há alguns meses. O cara com quem ela trocou algumas palavras e que parecia ter sumido do mapa desde então.
"Rafael! Que... que coincidência", Helena respondeu, tentando disfarçar o choque. Ela olhou para Sofia, que agora a encarava com uma curiosidade genuína.
"Você conhece a Helena?", Rafael perguntou a Sofia, o sorriso ainda presente.
Sofia sorriu para Helena. "Claro que conheço. Nos encontramos algumas vezes em eventos. Ela é a..." Sofia hesitou por um instante, como se estivesse buscando a palavra certa.
"Namorada do Felipe", Helena completou, a voz seca.
Rafael riu. "Namorada? Ah, Helena, você está um pouco desatualizada. Felipe e você... terminaram, não foi?"
As palavras dele atingiram Helena como um raio. Terminaram? Ela não sabia se ria ou chorava. Havia uma briga, sim, uma crise, mas um término oficial? Felipe nunca havia dito que tinham terminado.
Sofia, percebendo o constrangimento de Helena, interveio com sua habitual gentileza. "Eu sou Sofia. Colega de trabalho do Felipe. E você é a Helena, a esposa dele, certo?"
Helena arregalou os olhos. "Esposa? Não, eu não sou a esposa dele. Eu sou a..." A voz dela falhou. A verdade, aquela que ela havia tentado esconder de todos, inclusive de si mesma, estava prestes a ser exposta.
Rafael olhou de Helena para Sofia, confuso. "Esposa? Mas... eu pensei que você e o Felipe fossem casados. Ele sempre falava de você como se fosse o grande amor da vida dele."
A menção de "grande amor da vida dele" soou estranha, quase irônica, nos ouvidos de Helena. Ela percebeu, naquele momento, o quanto ela havia construído uma mentira em torno de seu relacionamento com Felipe. Uma mentira que agora, diante de Sofia e Rafael, parecia prestes a desmoronar.
"Na verdade, Rafael", Helena disse, respirando fundo, reunindo o pouco de coragem que lhe restava. "Felipe e eu nunca fomos casados. Ele é meu noivo. E... e estamos passando por um momento difícil."
Sofia a olhou com compaixão. "Oh, entendo. Desculpe, eu não sabia. Felipe fala muito de você, mas nunca mencionou o casamento."
Helena sentiu um nó na garganta. Felipe falava dela. Mas como? Como a mulher que ele amava? Ou como a mulher que ele estava prestes a perder?
Rafael coçou a cabeça, ainda um pouco confuso. "Noivo? Mas... o Felipe me disse que vocês estavam separados. Que ele estava livre."
Aquelas palavras foram o golpe final. Livre. Felipe havia dito a Rafael que estava livre. A revelação era devastadora. Ele não estava apenas se aproximando de Sofia, ele a considerava "livre" para se aproximar de outras pessoas.
Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. A dor era insuportável. Ela se sentiu traída, humilhada. O ciúme, que já a corroía, agora se transformava em uma fúria fria e paralisante.
"Eu... eu preciso ir", Helena disse, a voz trêmula, mal conseguindo conter as lágrimas que ameaçavam cair.
Sofia deu um passo à frente. "Helena, você está bem? Se precisar de alguma coisa, pode me procurar."
Helena apenas balançou a cabeça, incapaz de articular uma resposta. Virou-se e caminhou o mais rápido que pôde em direção ao seu carro, ignorando os chamados de Rafael e Sofia. Entrou no carro, trancou as portas e desabou no volante, o corpo sacudindo em soluços silenciosos.
O que Rafael disse, o que Sofia disse, tudo se misturava em um turbilhão de dor e decepção. Felipe não apenas estava se afastando, ele a havia dado como "livre". A verdade era mais cruel do que ela jamais imaginou. O seu relacionamento, aquele que ela lutava para manter, aquele pelo qual ela sentia um ciúme possessivo, era, para Felipe, algo do passado. E a imagem de Felipe dizendo a Rafael que estava livre, enquanto ela se agarrava a um amor que parecia ter acabado, a fez sentir um vazio imenso. O segredo de sua não-união oficial, a falta de um casamento formal, agora se tornava o pano de fundo para a sua própria tragédia pessoal, uma tragédia que ela havia, em parte, contribuído para criar com suas hesitações e medos.