Amor à Força II
Capítulo 3 — A Armadilha de Dona Helena em São Pedro da Aldeia
por Priscila Dias
Capítulo 3 — A Armadilha de Dona Helena em São Pedro da Aldeia
O cheiro de maresia e maresia era inconfundível. A brisa suave que emanava da Baía de Guanabara acariciava o rosto de Isabella enquanto ela descia do carro em frente à imponente mansão de sua tia-avó Eulália, em São Pedro da Aldeia. A casa, uma relíquia colonial com varandas amplas e jardins floridos, exalava a opulência de tempos passados. Era o cenário perfeito para a comemoração dos 90 anos da matriarca, uma senhora conhecida por sua sagacidade e por seu gosto peculiar por vestidos extravagantes e joias cintilantes.
Ao seu lado, sua mãe, Dona Helena, irradiava uma felicidade quase maníaca. Seus olhos brilhavam com a expectativa de ver a família reunida e, mais ainda, de promover o encontro entre Isabella e o Dr. Felipe.
"Minha filha, que bom que você veio!", Dona Helena exclamou, abraçando Isabella com um fervor exagerado. "Eu disse que seria bom para você sair um pouco daquela selva de pedra. E olha, a tia Eulália está radiante! Você vai adorar. E o Felipe… ah, ele já chegou! Vi ele conversando com o seu tio Afonso perto da piscina."
Isabella revirou os olhos discretamente. A "selva de pedra" era São Paulo, onde ela construiu sua carreira com suor e determinação. E a menção a Felipe, antes mesmo de ela ter a chance de se recompor, confirmava suas suspeitas. Aquilo não era uma coincidência, era uma operação militar orquestrada por sua mãe.
"Mãe, por favor, vamos com calma. Eu acabei de chegar", Isabella sussurrou, sentindo uma onda de apreensão.
"Calma nada, minha filha! É a sua chance! Ele é um excelente partido, te disse! E bonito, não é? Fiquei sabendo que ele é o novo cardiologista do hospital de referência da cidade."
Enquanto Dona Helena tagarelava sobre as qualidades de Felipe, Isabella tentava absorver o ambiente. A mansão estava repleta de parentes, alguns conhecidos, outros nem tanto, todos vestidos a rigor para a ocasião. Risadas, conversas animadas e o tilintar de taças de champanhe compunham a sinfonia festiva.
Ela tentava avistar Felipe em meio à multidão, um misto de curiosidade e receio tomando conta dela. Seria ele tão charmoso quanto em São Paulo? E como reagiria ao vê-la em um contexto familiar tão próximo?
De repente, uma figura familiar se destacou perto da piscina. Era Felipe, com um sorriso descontraído e um copo de caipirinha na mão. Ele parecia ainda mais atraente em um ambiente descontraído, com uma camisa de linho clara e calças brancas. Seus olhos azuis percorriam a multidão, e por um instante, cruzaram com os de Isabella. Um lampejo de reconhecimento, seguido por um sorriso que fez o coração dela dar um pulo.
"Ah, ali está ele, minha filha! Vai lá falar com ele!", Dona Helena a empurrou gentilmente na direção de Felipe.
Isabella respirou fundo e caminhou em direção a ele, sentindo todos os olhares da família sobre si. Felipe se aproximou, seu sorriso se alargando.
"Isabella! Que surpresa agradável te encontrar aqui", ele disse, a voz com o mesmo timbre melodioso que ela se lembrava. "Pensei que não viria."
"Não podia perder a festa da tia-avó Eulália", Isabella respondeu, tentando soar o mais natural possível. "E minha mãe insistiu bastante." Ela acrescentou a última parte com um olhar sugestivo para Dona Helena, que sorria triunfante à distância.
Felipe riu. "Imagino. A minha também não perde uma oportunidade de juntar a família. E, aparentemente, de juntar os solteiros da família."
"Exatamente", Isabella concordou, sentindo uma afinidade crescente com ele. "Parece que nossas mães têm os mesmos planos."
"Bom, se os planos envolvem nos fazer conhecer, talvez não sejam tão ruins assim", Felipe disse, seu olhar fixo no dela. Havia uma intensidade ali que a deixava desconcertada e, ao mesmo tempo, intrigada.
Eles passaram o início da festa conversando, afastados do burburinho principal, explorando os jardins floridos da mansão. Felipe contou sobre seu trabalho no hospital, sobre a paixão que sentia por salvar vidas, e Isabella falou sobre a advocacia, sobre a luta por justiça. Descobriram mais afinidades, mais gostos em comum, e a conversa fluía com uma naturalidade surpreendente.
A festa estava em pleno andamento quando Dona Helena, com sua energia inesgotável, apareceu com uma bandeja de petiscos e um sorriso de orelha a orelha.
"Meus queridos! O que estão fazendo tão escondidos? Venham, vamos nos juntar aos outros! Tenho uma surpresa para vocês!"
Surpresa? Isabella olhou para Felipe com um ar de desconfiança.
"Não faço ideia do que ela está tramando", Felipe confessou, um brilho de diversão nos olhos.
Eles seguiram Dona Helena até o salão principal, onde a tia-avó Eulália, sentada em um trono improvisado, presidia a cerimônia de agradecimento. Após os discursos emocionados e a distribuição de lembrancinhas, Dona Helena se levantou com um microfone na mão.
"Querida família e amigos! Que alegria imensa ver todos reunidos para celebrar a vida da nossa amada tia-avó Eulália! E em homenagem a essa data tão especial, e pensando no futuro da nossa família, eu tenho um anúncio a fazer!"
Isabella sentiu um arrepio de pavor. Ela sabia o que estava por vir.
"Como muitos de vocês sabem, a nossa querida Isabella, uma advogada brilhante, está em busca do seu destino. E o Dr. Felipe, um médico renomado e um dos homens mais promissores da nova geração, também está à procura do amor."
Um burburinho percorreu o salão. Felipe olhou para Isabella, um sorriso irônico nos lábios.
"Ela não brinca em serviço, não é?", ele sussurrou.
"Não mesmo", Isabella respondeu, sentindo o rosto corar.
"Por isso", Dona Helena continuou, com um brilho nos olhos, "eu tive uma ideia! Eu e a tia Eulália, em nossa sabedoria ancestral, decidimos que vocês, Isabella e Felipe, seriam os noivos perfeitos para a próxima festa de São João que faremos aqui!"
Um silêncio chocado tomou conta do salão. Noivos? Isabella sentiu o chão sumir sob seus pés. Ela encarou sua mãe, que acenava entusiasticamente, e depois Felipe, que parecia tão surpreso quanto ela.
"Noivos?", Isabella gaguejou, a voz embargada. "Mãe, o que você está falando?"
"É uma linda tradição, minha filha! Serão os noivos da festa! Uma forma de vocês se conhecerem melhor, de fortalecerem os laços familiares!", Dona Helena explicou, ignorando completamente o desespero nos olhos de Isabella.
Felipe, após o choque inicial, começou a rir. Um riso genuíno e contagiante.
"Isabella, acho que entendi errado quando disse que nossas mães tinham os mesmos planos. Eu pensei em um jantar romântico, não em um casamento de mentira!"
Isabella o olhou, a indignação se misturando à diversão. "Casamento de mentira? Felipe, isso é um absurdo! Eu não vou participar disso!"
Ela se virou para sua mãe. "Mãe, eu não posso fazer isso! Isso é loucura! Eu mal conheço o Felipe!"
"Mas é a sua chance, minha filha! Uma oportunidade única!", Dona Helena insistiu.
Felipe se aproximou de Isabella, seu sorriso ainda presente, mas com um toque de seriedade. "Isabella, eu entendo sua relutância. E eu também não estava esperando por isso. Mas… pense bem. É apenas uma festa. Uma brincadeira. E, para ser sincero, a ideia de ser o noivo de mentira de uma advogada tão bonita e inteligente… não é totalmente desagradável."
Isabella o encarou, confusa. Ele estava falando sério? Ele estava disposto a participar da armadilha de sua mãe?
"Você está falando sério?", ela perguntou.
"Tão sério quanto a minha mãe não me deixar em paz se eu recusar um pedido da tia Eulália", Felipe respondeu, um brilho cúmplice em seus olhos. "E, honestamente, depois do nosso encontro em São Paulo, eu estava querendo te conhecer melhor. Talvez essa seja a maneira mais… interessante de fazer isso."
Ele estendeu a mão para ela, com um sorriso que transbordava confiança. "Aceite, Isabella. Seja a noiva da festa comigo. Vamos nos divertir com isso. E quem sabe, no final, talvez nossas mães não estejam tão erradas assim."
Isabella olhou para a mão estendida de Felipe, para o sorriso dele, para os olhos cheios de promessa. Ela sabia que estava entrando em um campo minado, que sua mãe estava orquestrando uma trama complexa. Mas, por outro lado, a ideia de entrar naquela "armadilha" com Felipe, de compartilhar aquela farsa com ele, parecia mais divertida do que assustadora. A aventura, afinal, era algo que ela estava começando a apreciar.
Ela pegou a mão de Felipe, sentindo uma descarga elétrica percorrer seu corpo.
"Tudo bem, Felipe", ela disse, um sorriso finalmente surgindo em seus lábios. "Eu aceito ser a noiva da festa. Mas você me deve uma grande explicação, e uma noite de jazz, quando tudo isso acabar."
"Trato feito", ele disse, apertando sua mão. "E prepare-se, Isabella. Porque essa festa de São João promete ser inesquecível."
Enquanto a família aplaudia a sua decisão, Isabella olhou para Felipe, um misto de apreensão e excitação tomando conta dela. A armadilha de sua mãe havia se transformado em uma aventura inesperada. E ela estava pronta para embarcar nela, com o homem que, talvez, o destino tivesse realmente colocado em seu caminho.
---