Amor à Força II
Claro, vamos dar continuidade a essa história cheia de reviravoltas e paixão!
por Priscila Dias
Claro, vamos dar continuidade a essa história cheia de reviravoltas e paixão!
Amor à Força II
Capítulo 6 — O Voo da Farsa e o Despertar do Ciúme
O burburinho do aeroporto de Santos Dumont era um contraponto caótico à calmaria que Cecília sentia, ou fingia sentir, em seu peito. Ao seu lado, com um sorriso que não alcançava os olhos, estava Ricardo. Ele parecia mais um executivo em viagem de negócios do que um homem prestes a embarcar numa aventura forjada. Cecília, por sua vez, vestia um tailleur elegante, a maquiagem impecável tentando disfarçar a ansiedade que a roía. A ideia de Ricardo ir para o Rio de Janeiro, mesmo que por um motivo espúrio criado por Dona Helena, já era um peso em sua consciência. Mas a perspectiva de estar tão perto dele, numa cidade onde o acaso poderia pregar peças cruéis, era um tormento.
“Está tudo bem, Cecília?”, perguntou Ricardo, percebendo o leve tremor em sua mão enquanto ela ajeitava a gola do blazer.
“Claro, querido. Só um pouco cansada. Aquela viagem para São Pedro da Aldeia nos deixou exaustos”, ela respondeu, forçando um sorriso. A mentira escorregava de seus lábios com uma facilidade que a assustava. Ela se sentia uma atriz de teatro amador, recitando um papel que não lhe pertencia.
Enquanto caminhavam para o portão de embarque, uma figura conhecida cruzou o caminho deles. Era Rafael, parado perto de um café, o olhar fixo em um ponto distante. O coração de Cecília deu um salto. Ele estava ali, a poucos metros, respirando o mesmo ar. Por um instante, o mundo ao redor parou. Ela imaginou se ele a veria, se notaria a presença de Ricardo ao seu lado, se sentiria algo. A ideia, por mais cruel que fosse, trouxe uma pontada de... expectativa?
“Quem é aquele?”, perguntou Ricardo, seguindo o olhar de Cecília. Havia uma nota de curiosidade, mas também algo mais sutil, uma sombra de desconfiança que ele mesmo não sabia explicar.
Cecília engoliu em seco. “Ninguém importante. Um conhecido de longe.” A resposta foi rápida, quase automática. Mas a forma como ela desviou o olhar, a rigidez em seus ombros, não passou despercebida por Ricardo.
Rafael, como se sentisse que estava sendo observado, virou-se. Seus olhos vagaram pelo saguão e, por um milésimo de segundo, pousaram em Cecília. Um leve franzir de testa, uma expressão de surpresa contida. Ele a reconheceu. O que ele estaria fazendo ali? Seria uma coincidência? Ou seria algo mais? Uma nova teia de coincidências se tecendo, deixando-a cada vez mais enredada.
“Vamos, o voo está prestes a embarcar”, Ricardo apressou, sua voz soando um pouco mais firme do que o necessário. Ele sentiu um incômodo crescente. Por que Cecília parou? Por que aquele homem a encarou de forma tão intensa? Ele sabia que a história de Dona Helena era um pretexto, uma armação. Mas a verdade, por mais que ele a ignorasse, era que a presença de Cecília naquela viagem não era apenas uma obrigação. Havia algo mais, algo que ele não conseguia nomear, que o impelia a estar perto dela. E ver outra pessoa, um homem, olhando para ela daquela maneira, o perturbou mais do que ele gostaria de admitir.
No avião, o assento ao lado de Cecília estava vazio. Ricardo sentou-se ao seu lado, a poltrona do corredor. A paisagem do Rio de Janeiro se desdobrava lá embaixo, um mosaico de cores e luzes. Mas Cecília mal registrava a beleza. Sua mente estava em outro lugar, no olhar de Rafael. Ela se perguntava se ele também estaria indo para o Rio, ou se era apenas uma coincidência cruel.
Ricardo, em vez de focar no trabalho que o aguardava, não conseguia tirar os olhos de Cecília. Ela parecia distante, absorta em pensamentos. Ele se lembrou da forma como ela reagiu ao ver o outro homem no aeroporto. Não era apenas um "conhecido de longe". Era algo mais. E isso o incomodava. Ele se sentia como um estranho em sua própria vida, assistindo a uma peça onde todos, exceto ele, pareciam conhecer seus papéis.
“Você parece preocupada”, comentou Ricardo, quebrando o silêncio.
Cecília suspirou. “Só… pensando em tudo. Na empresa, na Dona Helena, no meu pai…” Ela buscava desculpas, mas a verdade era que a imagem de Rafael a assombrava.
“Não é só isso, Cecília. Eu a vi no aeroporto. A forma como você olhou para aquele homem… quem ele é?” A pergunta veio com uma firmeza que surpreendeu Cecília. Ricardo, o homem racional e calculista, parecia ter desenvolvido um instinto afiado.
Ela hesitou. Contar a verdade? Que Rafael era o homem por quem ela nutria sentimentos profundos? Que a proposta de Ricardo, por mais tentadora financeiramente, a afastava dele? Era demais. “Eu já disse, Ricardo. Um conhecido. Nada mais.”
“Nada mais?”, ele repetiu, o tom de voz gélido. Ele não acreditava nela. A desconfiança se instalava como uma erva daninha em seu peito. Ele sabia que ela estava mentindo. Sabia que havia uma história por trás daquele olhar perdido e daquela resposta evasiva. E, para sua própria surpresa, a ideia de que essa história envolvesse outro homem o deixava… irritado. Uma raiva sutil, que ele lutava para controlar. Era o ciúme? Era o medo de perder algo que ele nem sabia que possuía?
Durante o voo, a tensão entre eles era palpável. Ricardo tentava trabalhar, mas sua atenção era constantemente desviada para Cecília. Ele observava cada gesto, cada expressão em seu rosto. Ela tentava parecer indiferente, mas seus olhos traíam sua agitação.
Chegando ao Rio de Janeiro, o ar da cidade os envolveu. O calor, o cheiro do mar, a energia pulsante. Ricardo a levou para um hotel luxuoso em Copacabana, como combinado. O quarto era amplo, com uma vista deslumbrante para o mar.
“Está confortável?”, perguntou Ricardo, tentando soar cordial.
“Sim, é maravilhoso. Obrigada”, respondeu Cecília, admirando a vista. Mas a beleza do lugar não conseguia afastar a inquietude. A presença de Rafael no aeroporto a deixara em estado de alerta. E o interrogatório de Ricardo, por mais velado que fosse, a deixara ainda mais apreensiva.
Naquela noite, enquanto Ricardo estava em uma reunião informal com os contatos que Dona Helena havia arranjado, Cecília deu uma caminhada pela praia. O som das ondas quebrando na areia era um bálsamo para sua alma inquieta. Ela se sentou em um quiosque, pedindo um mate gelado. O céu estrelado do Rio era um espetáculo à parte.
De repente, uma voz a chamou. “Cecília?”
Ela se virou, o coração disparado. Era Rafael. Ele estava ali, a poucos metros, com um semblante sério. A coincidência era demasiada para ser acaso.
“Rafael! O que você está fazendo aqui?”, ela exclamou, a voz embargada pela surpresa e por uma emoção que ela não conseguia reprimir.
Ele se aproximou. Havia um misto de alívio e mágoa em seu olhar. “Eu… eu estava voltando de uma viagem de negócios. Quando te vi no aeroporto, eu… eu precisava falar com você.” Ele fez uma pausa, olhando para o mar. “Você estava com ele, não estava? Com o Ricardo.”
A acusação velada doeu. “Eu… sim. Eu estava com ele.”
“E por quê, Cecília? Por que fingir algo que não existe? Por que se envolver com o homem que…” Ele parou, incapaz de completar a frase. A dor em sua voz era evidente.
“Não é o que você pensa, Rafael”, ela implorou, a voz trêmula. “É complicado. Dona Helena…”
“Dona Helena”, ele interrompeu, um riso amargo escapando de seus lábios. “Sempre a Dona Helena. Ela sempre soube como controlar as pessoas, não é mesmo? E você se deixou controlar, Cecília? Você se deixou manipular?”
“Não se trata de manipulação, Rafael! Trata-se de uma promessa, de uma situação delicada…” Ela sentia as lágrimas ameaçando cair.
“Delicada? Ou conveniente? Conveniente para você fugir de tudo? Fugir de mim?”, ele perguntou, o olhar perfurante. O ciúme, a mágoa, a frustração… tudo transbordava em suas palavras.
“Não é isso! Você não entende”, ela sussurrou, a voz embargada.
“Eu entendo perfeitamente, Cecília”, ele disse, dando um passo para trás. “Entendo que você escolheu o caminho mais fácil. O caminho da mentira. E eu… eu não posso mais ficar nesse jogo.” Ele virou-se, pronto para ir embora, deixando Cecília sozinha na praia, o coração partido, o romance à beira do abismo e a sombra do ciúme pairando sobre todos eles. O que ela faria agora? Enfrentaria a farsa ou se renderia aos seus sentimentos?