Amor à Força II
Capítulo 7 — A Rede de Contatos de Dona Helena e o Jantar de Negócios
por Priscila Dias
Capítulo 7 — A Rede de Contatos de Dona Helena e o Jantar de Negócios
O dia seguinte amanheceu com a promessa de sol no Rio de Janeiro, mas para Cecília, o céu estava nublado. A noite anterior com Rafael a deixara em frangalhos. Cada palavra dele ecoava em sua mente, cada olhar carregado de mágoa. Ela sabia que ele tinha razão em parte. A situação era um emaranhado de mentiras, e ela se sentia cada vez mais presa.
Ricardo, alheio à tempestade interna de Cecília, estava mais focado do que nunca. Dona Helena havia preparado o terreno com maestria. Seus contatos eram de primeira linha: empresários influentes, advogados renomados, investidores astutos. O objetivo era claro: consolidar a imagem de Ricardo como um parceiro de negócios sólido e confiável, e, por extensão, a de Cecília como sua futura esposa e braço direito.
“Preparei um jantar para esta noite”, anunciou Ricardo enquanto tomavam café da manhã no luxuoso restaurante do hotel. “Será no restaurante Fasano. Os principais sócios da ‘Horizonte Global’ estarão presentes. É a sua chance, Cecília, de mostrar que você não é apenas uma figura decorativa. Dona Helena foi bem clara sobre isso.”
Cecília assentiu, o estômago revirando. “Eu sei. Farei o meu melhor.” Ela tentava não pensar em Rafael, mas a imagem dele, magoado e desconfiado, a assombrava. Seria ele também um dos “contatos” de Dona Helena? A cidade parecia pequena demais para esconderem-se um do outro.
“Espero que sim”, respondeu Ricardo, o tom sério. “Esta é uma oportunidade única. A reputação da minha família, e agora a sua, está em jogo. Dona Helena não brinca em serviço quando se trata de proteger seus interesses.” Ele observou Cecília atentamente. A fragilidade que ela tentava esconder era quase palpável. Algo nele, o resquício de um homem que começava a se permitir sentir, se preocupava com o bem-estar dela. Ele sabia que ela estava sendo forçada a participar daquele jogo, e a culpa, por mais que ele tentasse ignorá-la, começava a pesá-lo.
Ao longo do dia, Cecília se dedicou a estudar os perfis dos convidados, a revisar os dados financeiros da empresa, a se preparar para as perguntas que poderiam surgir. A sua mente de executiva era afiada, e ela sabia como navegar em reuniões de negócios. Mas a sua mente de mulher, a mulher que amava Rafael, estava em pedaços.
Enquanto isso, Ricardo recebia mensagens e ligações de Dona Helena, que o mantinha a par dos últimos detalhes. Ela era implacável em sua organização.
“Lembre-se, Ricardo, a imagem é tudo. Cecília precisa parecer encantadora, inteligente e, acima de tudo, dedicada. Ninguém pode desconfiar de nada. Os boatos sobre o fim do noivado de vocês foram um golpe duro, e precisamos mostrar que tudo se fortaleceu.” A voz de Dona Helena, mesmo pelo telefone, era penetrante.
“Entendido, mãe. Estamos fazendo o nosso melhor.” Ricardo tentava manter a compostura, mas a pressão era imensa.
O restaurante Fasano era sinônimo de sofisticação. Velas, talheres de prata, um serviço impecável. Os convidados chegaram pontualmente. Cecília, vestida em um elegante vestido preto, sentiu-se como uma atriz em um palco. Ao seu lado, Ricardo, com seu terno impecável, exalava confiança.
As conversas fluíam, sobre investimentos, o mercado financeiro, as últimas tendências em tecnologia. Cecília participava ativamente, demonstrando seu conhecimento e sua visão estratégica. Ela conseguia, por alguns momentos, esquecer a sua angústia e focar no trabalho.
“Cecília, sua análise sobre o mercado imobiliário em São Paulo foi surpreendente”, comentou um dos sócios, impressionado. “Você tem um faro incomum para negócios.”
Ela sorriu, sentindo um leve alívio. “Agradeço o elogio. Gosto de estar a par de tudo, Ricardo e eu trabalhamos em conjunto nessa área.” A menção de trabalhar em conjunto com Ricardo era uma forma de reforçar a narrativa que Dona Helena queria.
Ricardo a observava, um misto de orgulho e estranhamento em seu olhar. Ele via a Cecília competente e determinada que o impressionava desde o início. Mas ele também via a mulher que, momentos antes, estava com o coração em prantos por causa de outro homem. A dualidade dela o intrigava.
Durante o jantar, um dos convidados mais influentes, o Sr. Almeida, um homem de olhar penetrante e fala mansa, dirigiu-se a Ricardo.
“Ricardo, meu caro, eu soube dos seus… planos para expandir para o Nordeste. Ouvi dizer que a sua futura esposa tem fortes laços naquela região. Talvez ela possa nos dar alguma informação valiosa sobre o mercado de turismo em Pernambuco.”
O coração de Cecília gelou. Pernambuco. A terra onde Rafael morava. Era a prova definitiva de que a teia de Dona Helena era vasta e interconectada. Seus olhos encontraram os de Ricardo, e por um instante, uma compreensão mútua, por mais sombria que fosse, pairou entre eles.
“Ah, sim, Pernambuco”, respondeu Ricardo, um sorriso calculado no rosto. “Cecília tem um conhecimento profundo da região. Ela nasceu e cresceu em Recife, e sua família tem negócios lá há gerações. Ela pode ser uma fonte inestimável de informações.” Ele lançou um olhar para Cecília, um sinal claro: “Agora é com você.”
Cecília respirou fundo. Aquele era o momento. Ela precisava usar o que sabia sobre Pernambuco, sobre o turismo, sobre a região onde Rafael vivia, para beneficiar os negócios de Ricardo e, consequentemente, cumprir a sua promessa. Era a ironia cruel do destino. Ela teria que falar sobre a terra dele, talvez até sobre seus negócios, para o homem que a estava afastando dele.
“Pernambuco é uma joia, Sr. Almeida”, começou Cecília, sua voz ganhando firmeza. “A costa nordestina tem um potencial turístico imenso, que ainda não foi totalmente explorado. As praias, a cultura, a gastronomia… tudo isso atrai milhares de turistas todos os anos. O governo tem investido em infraestrutura, e as empresas que apostarem em projetos sustentáveis e autênticos terão um retorno significativo.” Ela falou com paixão, utilizando os conhecimentos que adquiriu ao longo da vida, misturando-os com a fachada que precisava manter.
Ela descreveu a beleza de Porto de Galinhas, a história de Olinda, a efervescência cultural de Recife. Mencionou a possibilidade de investir em resorts ecológicos, em turismo de aventura, em roteiros gastronômicos. Quanto mais ela falava, mais percebia o quanto amava a sua terra, e mais sentia a dor de estar ali, numa situação tão artificial.
Ricardo a ouvia com atenção, impressionado com a sua desenvoltura. Ele sabia que ela era inteligente, mas a forma como ela articulava as informações, como ela transmitia confiança, o deixava sem palavras. Talvez Dona Helena tivesse razão em querer que Cecília fosse parte disso.
“Impressionante!”, exclamou o Sr. Almeida. “Você realmente conhece o assunto, Cecília. Talvez possamos ter uma conversa mais aprofundada sobre isso em outra ocasião. Quem sabe, com o Ricardo, claro.”
“Seria um prazer, Sr. Almeida”, respondeu Cecília, tentando esconder o tremor em sua voz. Outra conversa. Outra armadilha.
Ao final do jantar, quando voltavam para o hotel, um silêncio pairava no carro. Era um silêncio diferente do anterior, carregado de expectativas e de uma nova dinâmica.
“Você se saiu muito bem, Cecília”, disse Ricardo, quebrando o silêncio. Havia um tom de admiração em sua voz que o surpreendeu.
“Obrigada, Ricardo. É o meu trabalho.”
“Não, não é apenas trabalho. Você demonstrou uma paixão… uma ligação com a sua terra que é palpável. É admirável.” Ele a olhou, e por um momento, ele viu além da fachada que ela construía. Ele viu a mulher por trás da executiva.
Cecília sentiu um calor percorrer seu corpo. Era a primeira vez que ele a elogiava de forma tão genuína, sem segundas intenções. Mas a alegria era efêmera. A lembrança de Rafael, da sua mágoa, a atingiu com força total.
“Ricardo…”, ela começou, mas hesitou. O que ela poderia dizer? Que estava dividida entre ele e outro homem? Que toda aquela encenação a estava destruindo?
“O quê?”, ele perguntou, percebendo sua hesitação.
Ela desviou o olhar para a janela. As luzes da cidade passavam como borrões. “Nada. Só estou cansada.”
Ricardo não acreditou nela. Ele sabia que havia algo mais. A imagem de Rafael no aeroporto voltou à sua mente. Ele sentiu a pontada de ciúme novamente, mais forte desta vez. O que ele estava fazendo naquela situação? Ele estava se afeiçoando a uma mulher que, claramente, tinha sentimentos por outro homem. A farsa de Dona Helena estava se tornando mais complexa do que ele imaginava, e ele, para sua própria surpresa, estava se tornando parte dela de uma forma que o perturbava profundamente. A rede de contatos de sua mãe havia se tornado um palco para um drama pessoal, e ele não sabia mais como sair dele.