Meu Pior Erro
Capítulo 12 — A Jantar Que Não Aconteceu
por Priscila Dias
Capítulo 12 — A Jantar Que Não Aconteceu
O cheiro de chuva ainda pairava no ar da floricultura quando Rafael finalmente se despediu, deixando Clara com um turbilhão de emoções e um sorriso que teimava em não sair do rosto. A conversa com ele, o beijo inesperado, tudo parecia um sonho. Mas o perfume dele em suas roupas, a leve ardência em seus lábios, eram a prova real de que aquilo havia acontecido.
Ela voltou para a arrumação das flores, mas seus movimentos eram leves, graciosos. Cada arranjo que criava parecia refletir a alegria que a inundava. As cores vibrantes das rosas, a exuberância dos lírios, tudo parecia mais intenso, mais bonito.
“Senhorita Clara!”, a voz animada de Dona Aurora a tirou de seu devaneio. A vizinha mais antiga do bairro, com seus cabelos brancos impecavelmente penteados e um sorriso que transbordava bondade, havia entrado na loja para buscar seu pedido semanal de margaridas. “Que alegria te ver com esse brilho nos olhos! O que aconteceu de tão maravilhoso?”
Clara corou ligeiramente, mas não conseguiu conter o sorriso. “Ah, Dona Aurora… o dia simplesmente ficou mais bonito.”
Dona Aurora, com sua perspicácia habitual, ergueu uma sobrancelha. “Hummm, sei. E esse brilho nos olhos tem nome e sobrenome, não é?”
Clara riu, balançando a cabeça. “A senhora é impossível!”
“Só vejo o que está na cara, minha querida. Aquele arquiteto… o que veio mais cedo… aquele que parece ter o sol dentro de casa.” Dona Aurora pegou um buquê de margaridas, seus olhos cintilando de curiosidade. “Ele voltou?”
“Voltou”, Clara confirmou, sentindo um calor agradável subir pelo corpo. “E… e as coisas mudaram um pouco.”
“Mudaram? Oh, minha querida, conte tudo! Não me deixe aqui com essa curiosidade matando minhas pobres margaridas!”
Clara, sentindo-se leve e confiante, contou a Dona Aurora sobre a visita de Rafael, sobre as palavras dele, sobre o beijo na chuva. A vizinha a ouvia com atenção, um sorriso acolhedor no rosto, acenando com a cabeça em aprovação.
“Que bom, minha filha! Que bom que você se permitiu sentir de novo. A vida é muito curta para ficar remoendo mágoas. E ele… ele parece um bom homem, apesar de toda a teimosia de arquiteto.” Dona Aurora deu uma piscadela. “Mas não se esqueça, o amor é como uma flor rara: precisa ser cultivado com cuidado e atenção.”
Enquanto Dona Aurora se despedia com suas margaridas, o telefone de Clara tocou. Era Rafael. Seu coração deu um pulo.
“Alô?”, ela atendeu, a voz um pouco trêmula.
“Clara? Sou eu. Apenas para dizer que… que ainda estou sorrindo por causa de você”, a voz dele soou relaxada, mas com uma doçura que a fez suspirar. “Eu queria saber se você estaria livre para jantar comigo hoje à noite. Para… para tentarmos de novo, de verdade.”
Clara sentiu uma onda de alegria. Era exatamente o que ela esperava, o que desejava. “Eu adoraria, Rafael.”
“Ótimo! Te busco às oito. E… Clara?”
“Sim?”
“Obrigado. Por tudo.”
O resto do dia passou em um voo. Clara escolheu um vestido que realçava seus olhos, fez uma maquiagem leve e deixou seus cabelos soltos. A floricultura, que já era um lugar bonito, parecia ainda mais vibrante, um reflexo da felicidade que ela sentia.
Às sete e quarenta e cinco, ela estava pronta, esperando na sala. Cada minuto parecia uma eternidade. O som de um carro parando em frente à sua casa a fez pular. Era ele. Com um sorriso ansioso, ela abriu a porta.
Rafael estava ali, impecável em um terno escuro, um buquê de rosas vermelhas em uma mão. Ele a olhou de cima a baixo, e um sorriso lento se espalhou por seu rosto.
“Uau”, ele sussurrou, seus olhos escuros percorrendo cada detalhe dela. “Você está… deslumbrante.”
Clara sentiu o rosto corar. “Você também não está nada mal”, ela disse, tentando soar casual, mas o tremor em sua voz a traía.
Ele estendeu o buquê. “Para a florista mais linda do mundo.”
Ela pegou as rosas, o perfume intenso invadindo suas narinas. “Obrigada. Eu pensei que talvez… talvez pudéssemos ir àquele restaurante italiano que você mencionou.”
“Excelente ideia. Mas primeiro…”, Rafael deu um passo à frente, segurando o buquê. Ele gentilmente afastou uma mecha de cabelo do rosto dela e depositou um beijo suave em sua testa. “Estou muito feliz por ter te conhecido, Clara.”
O coração dela derreteu. “Eu também, Rafael.”
Eles entraram no carro, a atmosfera carregada de expectativa e uma eletricidade palpável. A conversa fluía facilmente, sobre tudo e sobre nada. Risadas, olhares cúmplices, e a certeza crescente de que algo especial estava nascendo entre eles.
Chegaram ao restaurante, um lugar charmoso, com luzes baixas e o aroma inebriante de manjericão e molho de tomate. Sentaram-se à mesa reservada por Rafael, e ele, com um gesto cavalheiro, puxou a cadeira para Clara.
Enquanto examinavam o menu, Rafael contou sobre um projeto novo que o deixava animado, e Clara compartilhou suas ideias para um evento especial na floricultura. Era fácil, natural, como se eles se conhecessem há anos.
“Então”, Rafael disse, colocando o menu de lado. “Estou pensando em pedir a massa com frutos do mar. Você gosta?”
“Adoro!”, Clara respondeu, sorrindo.
Eles pediram a comida, e enquanto esperavam, Rafael pegou a mão de Clara sobre a mesa. Seus dedos se entrelaçaram, um toque reconfortante e íntimo.
“Clara”, ele começou, o tom de sua voz ficando mais sério. “Eu quero que você saiba que hoje à noite… é importante para mim. Muito importante. Eu sei que eu te machuquei, e eu quero te mostrar que eu posso ser o homem que você merece.”
Clara apertou a mão dele. “Eu sei, Rafael. E eu também quero tentar. De verdade.”
O garçom chegou com os pratos, e a conversa mudou para assuntos mais leves. Eles comeram, riram, e a cada instante, a conexão entre eles se fortalecia. Era um jantar que parecia perfeito.
No entanto, a noite ainda reservava uma surpresa. Quando o garçom trouxe a conta, Rafael a pegou e retirou seu cartão. Clara observou, esperando o momento de dividir. Mas Rafael simplesmente sorriu para o garçom e disse:
“Meu amigo, parece que teremos uma pequena complicação. O meu cartão… ele não está funcionando.” Ele fingiu surpresa, olhando para o cartão como se nunca o tivesse visto antes. “Que estranho.”
Clara franziu a testa. “Não está funcionando? Mas é o seu cartão?”
Rafael suspirou dramaticamente. “Parece que sim. E eu juro que nunca me aconteceu isso. Devo ter batido em alguma coisa no carro.” Ele olhou para Clara com uma expressão de desânimo fingido. “Me desculpe, Clara. Parece que a minha noite perfeita acabou com uma nota não tão perfeita.”
Clara sentiu uma pontada de decepção, mas rapidamente a substituiu por compreensão. “Não se preocupe, Rafael. Acontece. Podemos vir outro dia.”
Rafael balançou a cabeça. “Não, não. Eu não posso estragar a sua noite por minha causa. Eu insisto que você vá. Eu vou me virar aqui.” Ele tentou sorrir. “Talvez eles me deixem lavar os pratos para pagar a conta.”
Clara o olhou, desconfiada. Havia algo naquele jeito todo que não parecia certo. O brilho nos olhos dele, a forma como ele disfarçava um sorriso…
“Rafael, você tem certeza?”, ela perguntou, ainda hesitante.
“Absoluta! Vá, Clara. E me desculpe por essa gafe monumental.” Ele se inclinou e depositou um beijo rápido em seus lábios. “Eu te ligo amanhã, ok? E vamos marcar outro jantar, quando eu tiver certeza de que meu cartão está funcionando.”
Clara, confusa, mas relutante em estragar a noite, assentiu. Ela se despediu e saiu do restaurante, sentindo um leve desconforto, uma sensação de que algo estava errado.
Enquanto caminhava para casa, Rafael a observava da janela do restaurante, um sorriso maroto brincando em seus lábios. Ele sabia que ela estava confusa, mas confiava que ela acabaria entendendo. Afinal, ele estava apenas testando uma nova estratégia para… bem, para ter Clara toda para si. E o jantar que não aconteceu, ironicamente, parecia ter sido o prelúdio para um romance ainda mais intenso.