Meu Pior Erro
Meu Pior Erro
por Priscila Dias
Meu Pior Erro
Autor: Priscila Dias
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Capítulo 22 — A Noite Que Reescreveu os Destinos
O ar na cobertura de vidro e aço de Bernardo pulsava com uma eletricidade estranha, uma mistura de antecipação e um perigo iminente que se agarrava às cortinas de seda como o perfume de lírios murchos. Sofia, com o vestido azul-noite que parecia roubado do céu noturno, observava o reflexo do seu próprio nervosismo nos olhos escuros de Bernardo. Ele estava mais deslumbrante do que nunca, um deus grego moderno num terno impecável, o tipo de homem que fazia o coração de qualquer uma disparar, e o dela, em particular, parecia ter decidido sair em disparada com ele em direção a um precipício desconhecido.
“Você está linda, Sofia”, disse Bernardo, a voz rouca, carregada de uma emoção que ele tentava, em vão, esconder. Seus olhos percorreram cada curva dela, cada detalhe do decote elegante, cada fio de cabelo perfeitamente arrumado. Era um olhar que prometia e ameaçava ao mesmo tempo, um vislumbre da tempestade que se formava dentro dele.
Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. “Obrigada, Bernardo. Você também… está radiante.” A palavra soou meio boba, mas era a verdade. Ele tinha aquele magnetismo que atraía todos os olhares, e para ela, era como ser sugada por um buraco negro.
A festa estava a todo vapor. Murmúrios, taças de champanhe tilintando, risadas que ecoavam pelos ambientes decorados com um luxo ostensivo. Era o tipo de evento onde as pessoas vinham para serem vistas, para fechar negócios, para tecer alianças invisíveis. Mas para Sofia e Bernardo, a atmosfera parecia ter se condensado em uma bolha particular, um palco para a peça que eles estavam prestes a encenar.
“Você não parece muito confortável”, observou Bernardo, dando um passo mais perto, o cheiro amadeirado do seu perfume invadindo o espaço entre eles.
Sofia deu um sorriso amarelo. “É só… muita gente. E muita ostentação.” Ela era uma pessoa simples, apesar de todo o sucesso que conquistara com seu trabalho. Aquele tipo de ambiente, embora familiar agora, ainda a deixava um pouco acuada.
“Eu sei. Mas estamos juntos. E isso é o que importa, não é?” Ele estendeu a mão, um convite silencioso para que ela se juntasse a ele em meio à multidão.
Sofia hesitou por um segundo, a mente correndo para todos os motivos pelos quais ela deveria fugir dali. O acordo com Pedro, a promessa de uma vida longe de tudo isso, a necessidade de se reencontrar. Mas então, ela olhou para os olhos de Bernardo. Havia uma vulnerabilidade ali, um anseio que a desarmava. E naquele momento, a razão parecia um sussurro distante, abafado pelo som do seu próprio coração. Ela colocou a mão na dele.
Eles circularam pelo salão, cumprimentando conhecidos, ouvindo elogios vazios. Sofia se sentia como uma atriz em um palco, interpretando o papel da mulher sofisticada que acompanhava o poderoso empresário. A cada sorriso forçado, a cada aperto de mão, ela sentia o peso do seu segredo se tornando mais insuportável.
Em um canto mais reservado, longe dos olhares curiosos, Bernardo a puxou para perto. “Você está pensando nele, não está?” A pergunta não era acusatória, mas carregada de uma dor sutil.
Sofia engoliu em seco. “Bernardo, eu…”
Ele a interrompeu, apertando gentilmente seu braço. “Não precisa dizer nada. Eu sei que você tem seus motivos. E eu respeito isso.” Ele olhou para ela, os olhos faiscando em um misto de resignação e algo mais profundo, algo que a fez sentir um aperto no peito. “Mas eu não consigo mais fingir, Sofia. Não consigo mais ser o amigo que espera pacientemente na fila do pão.”
O coração de Sofia disparou. Aquela era a linha tênue que ela tentara, desesperadamente, evitar que fosse cruzada. “Bernardo, por favor…”
“Por favor, o quê? Que eu continue sendo um idiota? Que eu finja que não vejo o jeito que você olha para mim? Que você não me olha, Sofia? Que você não sente essa… essa coisa entre nós?” Ele a apertou mais, a intensidade do seu toque fazendo suas pernas tremerem.
Sofia fechou os olhos, incapaz de sustentar o olhar dele. “Eu não sei o que dizer.”
“Diga a verdade”, sussurrou Bernardo, a boca quase tocando o ouvido dela. “Diga que você também sente. Diga que essa atração te consome tanto quanto me consome. Diga que você quer isso tanto quanto eu.”
As palavras dele eram um veneno doce, uma tentação irresistível. Sofia sentiu a resistência desmoronar dentro dela. O acordo com Pedro, o plano meticuloso, tudo parecia terrivelmente distante e sem importância naquele momento. Ela abriu os olhos, e a verdade, nua e crua, escapou dos seus lábios antes que pudesse detê-la.
“Eu sinto, Bernardo. Eu sinto tudo isso.”
Um silêncio pesado se instalou entre eles, denso de desejos reprimidos. Bernardo a puxou para si, os rostos a milímetros de distância. Ele podia sentir o calor do corpo dela, o tremor nas suas mãos. A festa ao redor parecia ter desaparecido, reduzida a um zumbido distante.
“Então, por que estamos aqui, sofrendo?”, perguntou ele, a voz embargada.
Sofia não respondeu. Ela apenas fechou os olhos e se entregou ao inevitável. Bernardo a beijou. Não foi um beijo tímido, nem um beijo de descoberta. Foi um beijo de rendição, de necessidade, um beijo que carregava a angústia de meses de desejo reprimido, de esperanças secretas, de um amor que se recusava a ser negado. As mãos dele desceram pelas costas dela, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundi-las em uma só.
Sofia correspondeu com a mesma intensidade, as mãos dela subindo para o pescoço dele, os dedos se embrenhando nos cabelos curtos. O gosto dele era familiar e novo ao mesmo tempo, uma explosão de sabores que a deixava tonta. O vestido azul-noite parecia se tornar uma segunda pele, um impedimento que ela ansiava por descartar.
Naquele momento, no meio da festa luxuosa, sob o olhar atento de alguns, mas invisíveis para a maioria, eles se perderam um no outro. O mundo exterior deixou de existir. Havia apenas o toque, o beijo, a promessa de algo que estava além das regras, além das convenções, além do que eles ousavam sonhar. A noite havia redesenhado os contornos do futuro, e para Sofia e Bernardo, o caminho que se abria era tão perigoso quanto excitante.
Eles se afastaram lentamente, a respiração ofegante, os olhos brilhando com uma intensidade que não deixava dúvidas sobre o que acabara de acontecer. A realidade voltou a bater, mas agora com uma força avassaladora.
“Sofia…”, sussurrou Bernardo, a testa encostada na dela. “Isso não pode continuar assim.”
Ela assentiu, a voz embargada. “Eu sei.”
Naquele instante, a culpa e a euforia se misturaram. O beijo de Bernardo havia selado não apenas um desejo, mas um destino. E Sofia sabia, com uma clareza dolorosa, que a noite em que ela se permitiu sentir tudo aquilo era a noite em que seu plano, cuidadosamente traçado, começava a desmoronar, peça por peça. O erro não tinha sido o beijo, mas a entrega a um sentimento que ela jurara sufocar. E o preço desse erro, ela sentia, seria alto demais.