Meu Rival, Meu Amor
Meu Rival, Meu Amor
por Priscila Dias
Meu Rival, Meu Amor
Por Priscila Dias
---
Capítulo 6 — Um Passo em Falso e um Coração Disparado
O aroma reconfortante de café fresco pairava no ar da copa, uma fragrância que normalmente trazia um fio de calma para o meu dia frenético. Mas hoje, a quietude era quebrada pela tempestade que rugia dentro de mim. O encontro com Gabriel no rooftop na noite anterior… ainda ecoava em meus pensamentos como uma melodia proibida. A adrenalina da crise, a tensão palpável entre nós, e então… aquele momento. A mão dele roçando a minha enquanto pegávamos a mesma garrafa de água, o olhar que se perdeu no meu por um instante mais longo do que o apropriado. Um arrepio percorreu minha espinha, e eu me senti como uma adolescente desajeitada, o rosto corando sem controle.
"Ei, Ana! Pensativa hoje?", a voz animada de Lúcia me tirou do transe. Ela estava parada na porta da copa, com um sorriso largo e um muffin de chocolate nas mãos. Lúcia, com sua energia contagiante e sua capacidade de farejar o drama a quilômetros de distância, era uma força da natureza.
"Só… pensando no projeto", menti, tentando soar casual. O projeto. Sim, era isso. A fusão iminente, a necessidade de unir duas equipes que, até pouco tempo atrás, eram adversárias ferozes. E Gabriel, o meu rival, o homem que me tirava do sério com sua arrogância e seu talento inegável, estava agora no centro de tudo.
"Projeto, hum? Ou será que o motivo é um certo executivo de olhos azuis e sorriso perigoso?", ela provocou, um brilho travesso nos olhos. Lúcia não perdia nada.
"Lúcia, por favor!", protestei, sentindo minhas bochechas esquentarem novamente. "Não há nada entre mim e o Gabriel. Somos rivais."
"Rivais que compartilharam um elevador em pânico, um rooftop sob as estrelas e, pelo que vi, um aperto de mão que parecia mais uma promessa", ela retrucou, dando uma mordida generosa no muffin. "Eu te conheço, Ana. Você não fica assim por causa de um projeto."
Suspirei, derrotada. Era inútil tentar esconder algo de Lúcia. Ela tinha uma sensibilidade para as nuances humanas que beirava o sobrenatural. "Ok, talvez… talvez algo tenha acontecido. Mas nada demais. Foi um momento de… exaustão. E adrenalina."
"Ah, a velha desculpa da adrenalina. Funciona para tudo, não é?", ela riu. "Mas sério, Ana, você tem que ter cuidado. Esse homem é fogo. E você sabe o que dizem sobre fogo… pode queimar."
"Eu sei. E é exatamente por isso que preciso manter a distância. Ele é meu concorrente. O objetivo é a minha promoção, e ele está no meu caminho. Nada mais." A convicção na minha voz tentava, desesperadamente, me convencer.
Saímos da copa, e o burburinho da abertura do escritório nos envolveu. O dia começou com uma energia diferente. A equipe da Vantage e a equipe da Apex estavam, a cada dia, mais integradas. Os cafés da manhã conjuntos na copa, as reuniões que antes eram tensas e pontuadas por indiretas agora se tornavam mais fluidas, com trocas de ideias mais construtivas. Havia uma trégua silenciosa, uma compreensão mútua que surgia da adversidade que havíamos enfrentado juntos.
Gabriel estava em sua mesa, absorto em planilhas, a testa franzida em concentração. Seus cabelos escuros caíam levemente sobre os olhos, e o perfil dele, iluminado pela luz fria do monitor, era… inegavelmente atraente. Tentei me concentrar no meu próprio trabalho, mas meus olhos eram atraídos para ele, como um ímã.
De repente, ele levantou a cabeça, como se sentisse meu olhar. Nossos olhos se encontraram através da extensão do escritório aberto. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele, um sorriso que não atingiu totalmente os olhos, mas que ainda assim me desarmou. Desviei o olhar rapidamente, sentindo o calor subir pelo pescoço. Droga.
A manhã passou em um turbilhão de emails, chamadas e decisões estratégicas. A integração estava avançando mais rápido do que o esperado, o que era, sem dúvida, um bom sinal. Mas a tensão subjacente, a competição velada, ainda estava lá.
Na hora do almoço, Lúcia me puxou para fora. "Vamos almoçar em outro lugar. Preciso de ar fresco e de fofoca."
Enquanto caminhávamos pelo quarteirão, o sol da tarde nos aquecendo a pele, ela continuou. "Então, como você lida com a pressão de ter um rival tão… presente? Digo, você sempre foi tão focada, tão profissional. E agora ele está aqui, respirando no seu cangote, te desafiando em cada passo."
"Eu me concentro no meu trabalho, Lúcia. É a única maneira. Não posso deixar as distrações me atingirem. O objetivo é o mesmo, a meta é a mesma. E eu sou a melhor nisso." A voz saía firme, mas por dentro, uma ansiedade sutil me roía. A verdade era que Gabriel não era apenas uma distração. Ele era um desafio. Um desafio que, de alguma forma, me impulsionava.
"E se a distração for, na verdade, um… catalisador?", Lúcia sugeriu, com a voz mais baixa, quase um sussurro. "E se essa tensão toda estiver te tornando ainda melhor? E se ele estiver te forçando a ir além?"
A ideia me atingiu com uma força inesperada. Era verdade. Desde que Gabriel entrou na minha vida profissional, eu sentia que tinha que provar meu valor constantemente. Ele me obrigava a pensar mais rápido, a ser mais incisiva, a antecipar seus movimentos. Ele me tirava da minha zona de conforto, e isso, por mais irritante que fosse, era inegavelmente estimulante.
"Não sei, Lúcia. É complicado."
Voltamos para o escritório, e o clima da tarde estava mais leve. Uma nova proposta de campanha publicitária para a Vantage havia chegado, e a equipe de criação, agora mista, se reuniu em uma das salas de reunião. A proposta era ousada, inovadora, mas também arriscada. Gabriel e eu, sentados em lados opostos da mesa, nos olhávamos com a habitual intensidade.
"Acho que a proposta tem mérito, mas a linha de comunicação é muito agressiva para o nosso público-alvo", Gabriel disse, a voz calma, mas com um tom de autoridade que eu conhecia bem.
"Agressiva? Ou apenas direta e corajosa?", retruquei, sentindo a velha faísca da discussão acender. "A audácia é o que vai nos diferenciar, Gabriel. Precisamos chocar para sermos notados."
"E correr o risco de alienar metade da nossa base de clientes?", ele rebateu, levantando uma sobrancelha. "Isso não é audácia, Ana. É imprudência."
A discussão esquentou. Nossos argumentos se cruzavam, as ideias fervilhavam na sala. A equipe, antes hesitante, agora participava ativamente, lançando seus próprios pontos de vista. De repente, percebi que não estávamos mais apenas discutindo a proposta. Estávamos em um duelo intelectual, cada um tentando superar o outro com lógica e criatividade.
E, no meio de tudo isso, um pensamento perturbador me atingiu: eu estava gostando daquilo. A energia, a competição, a forma como nossas mentes se encaixavam em um embate produtivo. Era como uma dança perigosa, onde cada passo em falso poderia ser fatal, mas cada movimento bem executado era eletrizante.
Quando a reunião terminou, a proposta original havia sido modificada, incorporando elementos de ambos os nossos pontos de vista. Era uma solução híbrida, ousada e calculada ao mesmo tempo. Saímos da sala, e o silêncio entre nós era diferente. Não era mais a tensão fria da rivalidade, mas uma estranha cumplicidade, nascida da batalha compartilhada.
Gabriel parou no corredor, e eu me virei para ele. A luz suave do final da tarde banhava seu rosto, realçando a linha forte de sua mandíbula. "Boa briga, Ana", ele disse, um leve sorriso brincando em seus lábios.
"Você também, Gabriel", respondi, sentindo um calor inesperado se espalhar pelo meu peito. Era mais do que profissional, era… algo mais.
Ele deu um passo em minha direção, diminuindo a distância entre nós. Meu coração começou a bater mais rápido, um tambor descompassado no meu peito. A lembrança do rooftop voltou com força. O que ele estava pensando? O que eu estava pensando?
De repente, a porta de uma sala de reunião se abriu bruscamente, e um colega saiu apressado, quase trombando em nós. O momento foi quebrado. Gabriel deu um passo para trás, e eu senti um misto de alívio e decepção.
"Eu… preciso ir", ele disse, a voz um pouco mais rouca.
"Sim. Eu também", respondi, sem conseguir desviar o olhar do dele. Havia algo ali, uma faísca que eu não conseguia ignorar.
Enquanto ele se afastava pelo corredor, eu fiquei parada, o coração ainda disparado. Um passo em falso. E o coração descompassado. Será que eu estava me aproximando perigosamente do fogo que Lúcia havia me alertado? E, mais assustador ainda, será que eu queria isso?
---