Meu Rival, Meu Amor
Capítulo 7 — Os Segredos em Tinta e um Convite Inesperado
por Priscila Dias
Capítulo 7 — Os Segredos em Tinta e um Convite Inesperado
O cheiro de tinta fresca e café amargo era a trilha sonora da minha manhã. Cada pincelada na tela me transportava para outro mundo, um lugar onde as cores falavam e as emoções se manifestavam em formas abstratas. Era a minha terapia, o meu refúgio do turbilhão da Vantage e, principalmente, do turbilhão que Gabriel representava. Depois daquele momento no corredor, a tensão entre nós havia se intensificado, mas de uma forma diferente. Havia uma consciência mútua, um jogo de olhares que durava um segundo a mais, um silêncio carregado de palavras não ditas.
Eu estava na sala de estar do meu apartamento, um espaço que refletia minha alma artística: cores vibrantes, obras inacabadas espalhadas, e a luz natural entrando pelas janelas, acariciando as telas. A xícara de café esfriava na mesinha de centro enquanto eu me perdia na criação de uma nova peça. Uma tempestade de tons azuis e roxos, expressando a melancolia e a paixão que se misturavam dentro de mim.
Meu celular tocou, quebrando a quietude. Era Lúcia.
"Ana! Você não vai acreditar!", sua voz soava excitada, como se tivesse acabado de presenciar um evento cósmico.
"O quê? A fusão foi cancelada? O Gabriel virou vegano?", perguntei, com um leve sorriso.
"Nada disso! É… é sobre o jantar de negócios de amanhã. Lembra que a equipe da Vantage e da Apex foram convidadas para um evento oficial do setor, para celebrar a futura parceria?", ela perguntou, a ansiedade transparecendo na voz.
"Sim, claro. Por quê? Algum problema?", perguntei, meu interesse despertando.
"O problema é que… o Gabriel vai. E ele vai como o principal representante da Apex, e o Sr. Eduardo, o nosso CEO, me disse que ele gostaria que você fosse também, como a principal representante da Vantage! Para mostrar essa 'nova dinâmica de colaboração' que estamos construindo", Lúcia explicou, com uma pitada de sarcasmo.
Um arrepio percorreu minha espinha. Um jantar de gala. Com ele. Como a principal representante. Eu, que preferia a solidão do meu ateliê às formalidades corporativas, agora teria que enfrentar Gabriel em um ambiente onde as aparências eram tudo. E onde a linha entre o profissional e o pessoal poderia se tornar perigosamente tênue.
"O quê? Por quê eu?", perguntei, genuinamente surpresa.
"Porque você é a melhor, Ana! E porque, francamente, eles querem impressionar com essa imagem de 'união' e 'sinergia'. E quem melhor do que a dupla dinâmica que, aparentemente, está fazendo mágica juntas?", Lúcia disse, com um tom brincalhão que não escondia a gravidade da situação.
"Lúcia, você sabe que eu odeio esses eventos. E com o Gabriel… vai ser… complicado." A imagem dele, em um terno impecável, sorrindo para os convidados enquanto eu lutava para manter uma conversa civilizada, me assustou.
"Exatamente por isso que você tem que ir! Pense nisso como mais um desafio. E, quem sabe, você pode até se divertir. E eu estarei lá para te dar apoio moral… e fofocas quentes", ela acrescentou, com uma risadinha.
Desliguei o telefone, a mente em polvorosa. A perspectiva do jantar me deixava apreensiva. Eu não era boa em socializar em ambientes formais, especialmente quando havia a presença de um homem que me desarmava com um simples olhar. Minhas habilidades de comunicação se resumiam a estratégias de marketing e a debates acalorados sobre campanhas. Como eu iria navegar em um mar de cumprimentos vazios e sorrisos forçados, ao lado do meu rival?
Nos dias seguintes, a integração das equipes continuou a progredir. A atmosfera no escritório era mais leve, as barreiras estavam diminuindo. Mas a minha ansiedade em relação ao jantar apenas crescia. Eu revirei meu guarda-roupa em busca de algo que me fizesse sentir confiante, mas nada parecia certo. Vestidos que eu amava em casa pareciam exagerados ou muito casuais para o evento.
Finalmente, decidi por um vestido azul marinho, simples, mas elegante, que deixava meus ombros à mostra. Um toque de batom vermelho vibrante e um par de saltos pretos completaram o visual. Eu ainda me sentia insegura, mas era o melhor que eu conseguia.
O local do jantar era um salão luxuoso no centro da cidade, com lustres de cristal e uma orquestra tocando suavemente ao fundo. O ar estava impregnado com o aroma de perfume caro e champagne. Assim que entrei, senti os olhares se voltarem para mim. Respirei fundo e forcei um sorriso.
Não demorou muito para que meus olhos o encontrassem. Gabriel estava em um canto, conversando com alguns executivos, vestindo um terno escuro que destacava seus ombros largos e sua postura impecável. Ele parecia ainda mais imponente em um ambiente formal. Nossos olhares se cruzaram, e por um instante, o mundo ao redor pareceu desaparecer. Ele deu um leve aceno com a cabeça, um gesto sutil que fez meu coração dar um salto.
Passei os primeiros trinta minutos conversando com Lúcia e alguns colegas, tentando parecer à vontade. Mas minha atenção era constantemente atraída para ele. Vi-o rir de uma piada, conversar com paixão sobre um novo projeto, e a cada movimento, sentia uma estranha fascinação.
De repente, ele se aproximou. "Ana. Você está deslumbrante."
A sinceridade em sua voz me pegou desprevenida. Senti minhas bochechas corarem, e tentei disfarçar. "Obrigada, Gabriel. Você também não está mal."
Ele sorriu, um sorriso genuíno desta vez, que iluminou seus olhos azuis. "Fico feliz que tenha vindo."
"Eu também. Apesar de não ser o meu tipo de evento favorito", confessei, com um suspiro.
"Eu sei. Mas, de vez em quando, é bom sair da nossa zona de conforto, não é?", ele disse, seus olhos fixos nos meus. "Para ver o que mais podemos descobrir."
A conversa fluiu surpreendentemente bem. Falamos sobre o projeto, sobre as dificuldades da integração, mas também sobre outros assuntos. Descobrimos que tínhamos um gosto parecido por filmes clássicos e uma aversão mútua por programas de culinária. A cada palavra trocada, as barreiras da rivalidade pareciam desmoronar um pouco mais.
Em um momento, enquanto eu contava uma história engraçada sobre um projeto antigo, ele riu abertamente, e o som da sua risada me pareceu… musical. Foi então que percebi, com um misto de pânico e excitação, que eu estava gostando da sua companhia. Genuinamente gostando.
O Sr. Eduardo, nosso CEO, se aproximou de nós, com um sorriso satisfeito. "Ana, Gabriel! Que bom ver vocês dois juntos, colaborando até mesmo fora do escritório. Isso é exatamente o que queremos ver. Essa sinergia é a chave do nosso sucesso."
Ele bateu nas costas de Gabriel e deu um tapinha no meu ombro. "Continuem assim! O futuro é promissor."
Enquanto o Sr. Eduardo se afastava, Gabriel se virou para mim, um brilho nos olhos. "Parece que estamos fazendo um bom trabalho em convencer a diretoria."
"Ou talvez eles apenas gostem de ver os rivais fazendo um bom show", retruquei, com um sorriso.
"Talvez. Mas e se o show se tornar… real?", ele sussurrou, a voz baixa e intensa. O ar entre nós ficou carregado, e eu senti um arrepio percorrer meu corpo.
Antes que eu pudesse responder, o garçom se aproximou para oferecer champanhe. O momento foi quebrado, mas a intensidade permaneceu.
Mais tarde, enquanto dançávamos uma música lenta com os outros convidados, Gabriel me segurou mais perto do que o necessário. Seus olhos azuis me encaravam com uma profundidade que me fez perder o fôlego. Podia sentir o calor do seu corpo contra o meu, o ritmo dos nossos corações parecendo sincronizados.
"Ana", ele murmurou, seu hálito quente em meu rosto. "Eu não sei o que está acontecendo entre nós. Mas eu não consigo parar de pensar em você."
Meu coração batia descontrolado. As palavras que eu queria dizer estavam presas na minha garganta. A rivalidade, a razão, tudo parecia irreal. Só existia ele, ali, na minha frente, com o olhar que prometia o impossível.
"Gabriel… eu também", eu sussurrei de volta, a voz embargada de emoção.
E então, ele se inclinou e me beijou. Foi um beijo suave no início, um questionamento hesitante, mas rapidamente se aprofundou, cheio de uma paixão reprimida que explodiu entre nós. Era como se todas as discussões, todas as tensões, todos os olhares roubados tivessem culminado naquele momento. Senti um turbilhão de emoções: desejo, confusão, um medo delicioso.
O beijo durou o que pareceram horas, mas na verdade, foram apenas segundos. Quando nos separamos, ofegantes, olhamos um para o outro, a realidade começando a se infiltrar.
"Isso… isso não devia ter acontecido", eu disse, a voz trêmula.
"Eu sei", ele respondeu, a testa franzida. "Mas aconteceu."
A noite continuou, mas algo havia mudado. A tensão entre nós agora era palpável, mas era diferente. Era uma tensão de desejo, de incerteza, de um futuro desconhecido.
Ao final da noite, quando estávamos nos despedindo na entrada do salão, Gabriel segurou minha mão. "Ana, eu quero te ver de novo. Fora daqui. Sem o terno, sem as planilhas. Apenas… nós."
Hesitei por um momento. A razão gritava perigo. Mas meu coração… meu coração sussurrava outra coisa.
"Eu… eu gostaria", respondi, com um sorriso fraco.
Ele sorriu de volta, um sorriso que prometia um futuro incerto, mas irresistivelmente tentador. Enquanto eu me afastava, com as pernas bambas e a mente em um turbilhão, sabia que algo fundamental havia mudado. O meu rival, meu amor? A ideia era tão assustadora quanto emocionante. E eu, pela primeira vez, não tinha controle sobre o rumo da minha própria história.
---